• Nenhum resultado encontrado

Sentença proferida por tribunal estrangeiro

Outro ponto a abordar no que toca às sentenças é a sentença proferida por tribunal estrangeiro, pois há, segundo Rui Pinto, um problema de competência internacional quando têm que ser aplicadas normas jurídicas que não são apenas as portuguesas89. Isto pode acontecer quando as partes forem, uma ou ambas de nacionalidade não portuguesa ou quando os factos elencados na causa de pedir sejam fora do território nacional, ou então o próprio pedido ter conexão com uma ordem jurídica que não a nossa90. Contudo a mesma é exequível por força do art.

89

PINTO, Rui, Manual da Execução e Despejo, op. cit., p. 253. 90

Isto acontece se a realização coativa ou a prestação tiver de ser feita no estrangeiro (penhora, apreensão de um bem, pagamento, entrega ou prestação de facto).

65 703.º n.º 1 al. a) do NCPC. Sendo que é importante ter em conta que “as sentenças proferidas por tribunais ou por árbitros em país estrangeiro só podem servir de base à execução depois de revistas e confirmadas pelo tribunal português competente”, conforme se pode ler no art. 706.º n.º 1 do NCPC. O art. 979.º do NCPC elenca qual o tribunal competente. Ou seja, só depois de serem confirmadas é que as sentenças estrangeiras têm eficácia em Portugal (art. 978.º n.º 1 do NCPC).

A sua confirmação apenas não seria necessária se fosse invocada em tribunal como meio de prova (art. 978.º n.º 2 do NCPC), fora isso é sempre necessário que se faça a confirmação, seja para execução ou para outro efeito.

Mas para que se dê a confirmação são necessários vários requisitos que se encontram elencados no art. 980.º do NCPC. Os requisitos são então: o não haver dúvidas relativamente à autenticidade do documento de que consta a sentença nem sobre a inteligência da decisão; que, segundo a lei do país em que fora proferida, a mesma já tenha transitado em julgado; que do tribunal estrangeiro que a mesma advier a competência não tenha sido provocada em fraude à lei e não verse sobre matéria que seja exclusivamente da competência dos tribunais portugueses; que a exceção de litispendência não possa ser invocada ou de caso julgado com fundamento a causa afeta a tribunal português, a não ser que seja o tribunal estrangeiro que acautelou a jurisdição; que o réu tenha sido citado para a ação nos termos da lei do país de origem e que tenham sido observados no processo os princípios da igualdade das partes e do contraditório; e por último, a sentença não pode conter uma decisão cujo reconhecimento leve a um resultado inconciliável com os princípios da ordem pública internacional do Estado Português.

No que toca às sentenças estrangeiras a aplicação da lei portuguesa é reduzida devido ao Regulamento Bruxelas I e à Convenção de Lugano91. Estas

91

Pode ler-se em PINTO, Rui, Manual da Execução e Despejo, op. cit., p. 254, que a Convenção de Lugano “é um instrumento internacional que veio alargar a aplicação das disposições da

Convenção de Bruxelas de 1968 a alguns Estados membros da Associação Europeia de Comércio Livre, tendo entrado em vigor, na ordem jurídica internacional, em 1 de janeiro de 1992 e, em Portugal, a 1 de julho do mesmo ano. Além dos Estados-Membros da União Europeia foram Parte nessa Convenção a Islândia, a Noruega e a Suíça.

Posteriormente, a substituição em março de 2002, da Convenção de Bruxelas de 1968 pelo Regulamento (CE) n.º 44/2001 determinou que a Convenção de Lugano fosse substituída pela já

66 vieram estabelecer o automático reconhecimento das sentenças que forem proferidas em outro Estado membro da União ou de outro Estado Contratante da Convenção de Lugano. Lebre de Freitas escreveu que “delas conhece qualquer tribunal perante o qual a decisão seja invocada a título incidental, isto é, como resolução duma questão prévia de que dependa a decisão a proferir ou para dedução da exceção de caso julgado; mas, se for invocada a título principal, isto é, extrajudicialmente, e houver impugnação, isto é, não for aceite por aquele perante quem é invocada, o reconhecimento pode ser pedido por quem a invocou, em ação de simples apreciação dirigida ao tribunal de comarca em cuja área de jurisdição esteja domiciliada a parte contra a qual a pretenda fazer valer ou ao do lugar da execução (arts. 26 e 32 da Convenção; arts. 33 e 39 do Regulamento)”92

. Acrescenta ainda que a decisão apenas não será reconhecida nos casos que estão enunciados nos arts. 27.º e 28.º da Convenção e 34.º e 35.º do Regulamento e isto acontece quando seja contrária à ordem pública, quando ofenda o direito de defesa, seja inconciliável com outra decisão, sejam inobservadas normas de competência.

José Henrique Delgado refere que tendo em conta a Convenção de Lugano II, a decisão a executar e que seja proferida por um Estado-Membro com força executiva a mesma é declarada executória, feito um requerimento, noutro Estado que esteja vinculado pela Convenção, de acordo com os procedimentos que estão previstos nos arts. 38.º e ss. da CLug II, quer isto dizer que a decisão será logo declarada executória, não havendo necessidade de nenhuma revisão de mérito, desde que estejam cumpridos os trâmites do art. 53.º da CLug II e não se

referida Convenção de “Lugano II” de 10 de Junho de 2009, de que são Partes a União Europeia, a Dinamarca, as Islândia, a Noruega e a Suíça. Esta entrou em vigor a 1 de janeiro de 2010, tendo já sido ratificada pela União Europeia, pela Noruega e pela Dinamarca.

Quis-se, assim, que nas relações da União Europeia com os “Estados Lugano” fossem também aplicados os princípios que orientam aquele Regulamento, em ordem a atingir um patamar uniforme de circulação de decisões em matéria civil e comercial entre os Estados-Membros e a Suíça, a Noruega e a Islândia.

Ora, verificada a natureza internacional da causa há que determinar, então, da aplicação destes instrumentos; a ter lugar, irão ser afastadas as normas internas, máxime, os arts. (…) 62.º e 63.º

nCPC”.

92

FREITAS, José Lebre de, A Ação Executiva À luz do Código de Processo Civil de 2013, op. cit., p. 57.

67 verifiquem nenhum dos motivos referidos nos arts. 34.º e 35.º da CLug II (arts. 36.º e 41.º da CLug II)93.

No Espaço Europeu aplica-se o Regulamento (UE) n.º 1215/2012, de 12 de dezembro ao Reconhecimento e à Execução de Decisões em Matéria Civil e Comercial. Este regulamento permite que a decisão que seja proferida num Estado-Membro da União Europeia e que tenha força executiva, é, após requerimento, declarada executória no Estado-Membro da execução.

Quando seja aplicável em Portugal a Convenção ou o referido Regulamento há que apreciar o requerimento remetido ao tribunal e o mesmo irá decidir com o objetivo de obter uma declaração de executoriedade de sentença.

No que toca às sentenças de outros Estados, estas só podem ser executadas depois de ultrapassado o processo de revisão previsto nos arts. 978.º e ss. do NCPC (art. 706.º n.º 1 do NCPC).