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Com vistas a compreender o que vem a ser crise de sentido, é pertinente, primeiramente, responder a duas questões: o que é crise? E, o que é sentido? Deste modo, elucidando a primeira questão, afirmo que crise não é entendida aqui como esgotamento, colapso, falência, mas diz respeito a transformações intensas da sociedade; transformações promovidas e promotoras de novos modos de existir; transformações articuladas de maneira dinâmica à existência real e concreta.

E, para avançar na resposta do segundo questionamento, me apoio nos autores Berger e Luckmann (2005), pois afirmam que sentido é o que se desenvolve na consciência humana, na medida em que esta se volta à realidade objetiva, sendo o sentido, dessa forma, constituído subjetivamente a partir dos processos sociais. Seria, portanto, conforme os autores, uma forma complexa de consciência que não existe por si mesma, mas apenas por intermédio de relações entre experiências. Ou seja, por meio tanto de relações entre experiências atuais quanto entre experiências históricas; relações entre agir atual e agir histórico.

Para os autores, as relações entre experiências, sejam as relações atuais, sejam as relações sociais anteriores da experiência humana - construções ao longo da existência - revelam tanto problemas quanto soluções sociais e se transfiguram no curso da história ao mesmo tempo em que revelam o sentido legitimado. Dessa maneira, o sentido é disponibilizado tanto para o agir do indivíduo em várias áreas de ação quanto para toda sua conduta.

Desse modo, pode-se afirmar que, nas relações sociais, o sentido objetivado interage com o sentido subjetivo constitutivo do indivíduo numa trama dialética entre os aspectos estruturais da sociedade e os aspectos subjetivos da vida cotidiana, dando significado ao mundo social. Em outras palavras: as configurações superiores de valores e de sistemas de valores, ou seja, as configurações legitimadas, interferem no processo de construção de sentido ao difundirem conhecimentos entre a experiência coletiva e a experiência individual, ao mesmo tempo em que esta estabelece limites para aquela.

Assim sendo, o sentido objetivo ditado pelas grandes instituições de poder baliza o sentido subjetivo. Pode-se dizer então que se trata tanto de uma produção de sentido legitimada socialmente quanto de uma produção de sentido reificada da realidade. Neste caso, um sentido subjetivo alheio à profundidade da realidade, na medida em que - embora o sentido seja construído a partir do mundo - o sujeito não tem a consciência de que é autor desse mundo.

Portanto, o agir no mundo a partir de um universo simbólico objetivado por instituições de poder assentes em interesses privados, consequentemente, circunscreve a experiência atual a uma compreensão aparente da realidade e faz com que esse universo simbólico seja incorporado com naturalidade, sendo visto como único possível. No entanto, sem abdicar da contradição, alheio ao protagonismo na história, não sendo capaz de se perceber enquanto sujeito produtor deste mundo, ainda assim o homem preserva sua capacidade criativa diante da vida; ainda assim pode transcender o que lhe é imposto. Está aí a especificidade do humano.

Berger e Luckmann (2005) sustentam ainda que, em sociedades fechadas, tradicionais, de princípios fundamentalistas, há uma hierarquia definitiva de valores e de sentidos que não cabe seu questionamento. Nesses casos, as crises subjetivas tem menos probabilidade de se instaurar, uma vez que toda e qualquer ruptura à ordem instaurada é efetivamente combatida. Em contrapartida, em sociedades democráticas, tem-se o oposto. Em função da pluralidade de pontos de vista - e reside aí sua beleza - há um constante por à prova a ordem de sentidos estabelecida, o que as predispõem a crises subjetivas e intersubjetivas.

É importante esclarecer que os autores partem de modelos abstratos a fim de favorecer a compreensão da realidade, pois, como outrora assinalado, a especificidade humana reside em sua capacidade criativa. Assim, transcende modelos rígidos e fechados. Brayner (2008), ao argumentar sobre a democracia, afirmando-a como um regime político capaz de questionar-se a si mesmo, mas, que paradoxalmente testa e experimenta sua vitalidade e fortaleza na medida em que supera e incorpora as críticas, preservando-se e reinventando-se constantemente, ilustra bem o postulado sobre essa especificidade humana.

Na atualidade, as crises de sentido têm se instaurado na medida em que concordâncias de sentido comum, o que pressupõe valores comuns e consolidados, não são mais assegurados a todos, nem

conseguem tornar-se concordes em torno do que deveria ser a ordem de valores que estabiliza a identidade social. O problema se instaura em virtude do acirramento da concorrência de sentidos assente na equivalência. Ou seja, se torna um problema de orientação, pois promove uma equalização geral dos valores obscurecendo a lógica desigual de apropriação do patrimônio conquistado ao longo da história (BERGER; LUCKMANN, 1974).

Como integrar minimamente os subuniversos em torno de problemas comuns? Instaura-se uma competitividade pluralista desigual e surge um problema em torno da legitimação, uma vez que inúmeras possibilidades de condutas são afirmadas, cada qual a seu favor, tornando mais difícil a conservação de percepções estáveis de sentido. Desse modo, tem-se a sensação de estar perdido, pois as reservas de sentido da experiência privada ganham status de independência frente ao que é comum a todos. Como consequência, há o risco de assentamento de um pluralismo, ou seja, a coexistência de diferentes ordens de valores e de fragmentos de ordem de valores numa mesma sociedade (BERGER; LUCKMANN, 1974).

Diante disso, configurações superiores de valores (lembre-se da apropriação de certos grupos em função do poder) se mostram presentes no intuito de supervalorizar a tolerância entre os subuniversos que vão surgindo, tendo em vista a afirmação de valores diversos. Mas, em contrapartida, essas configurações se afirmam para além dos subuniversos fragmentados e assentam-se em uma moralidade formal abstrata que obriga a submissão de todos os membros da sociedade.

Assim, propõem regras válidas a todos para tornar possível a coexistência e a necessária cooperação dos diversos subuniversos, sem, no entanto, impor-lhes uma ordem comum de valores. Nesse sentido, Berger e Luckmann (2005) salientam que duas instituições se tornam centrais na contemporaneidade: o mercado e a democracia. “Duas instituições centrais da sociedade moderna promovem a passagem do destino para as possibilidades de escolha e para a compulsão de escolher: a economia de mercado e a democracia” (BERGER; LUCKMANN, 2005, p. 59).

Harvey (2012), ao se debruçar sobre a Modernidade e seus desdobramentos, situa a “[...] relação necessária entre a ascensão de formas culturais pós-modernas, a emergência de modos mais flexíveis de acumulação do capital e um novo ciclo de ‘compressão do tempo-espaço’ na

organização do capitalismo” (p. 7) e assim sinaliza uma desorientação em todos os aspectos da vida social. A partir dessa assertiva, o autor ajuda a compreender como se configurou esse processo de surgimento de sentidos diversos em torno da defesa “[...] do efêmero, do fragmentário, do descontínuo, do caótico” (p. 49) sem que, no entanto, esses pressupostos considerem a superação dessa situação, mas sim sua naturalização. Fundamentadas em autores como Foucault e Lyotard, por exemplo, essas ideias foram ganhando espaço no contexto de desconstrução dos princípios modernos e têm contribuído para a afirmação de um pluralismo de sentidos acerca da realidade. Essas ideias vêm sendo reconhecidas como ideias pós-modernas e, segundo o autor, mostram-se como “[...] um campo minado de noções conflitantes” (HARVEY, 2012, p. 9).

Nesse sentido, o autor continua afirmando que, no bojo das transformações engendradas no seio da vida urbana e intensificadas com o advento da industrialização, alguns discursos latentes nas últimas décadas traduzem uma substancial mudança na estrutura do sentimento (p. 19) e há um consenso de autores na afirmação de que “[...] a única coisa segura na Modernidade é a sua insegurança e até a sua inclinação para o ‘caos totalizante’” (p. 22).

Diante disso, Havey (2012) propõe atentar à causa dessa insegurança lançando atenção às forças sociais que a produzem. O autor alerta ainda ao risco de se afirmar concepções pautadas na superficialidade, pois dificultam a preservação do enraizamento da história, logo comprometem a estruturação do sentido diante da realidade. Desse modo, para melhor compreender o surgimento dessas ideias, se faz necessário voltar à história: aos significados da Modernidade, ao advento do Capitalismo, à história das ideias - assinalada por Berger e Luckmann (1974) - aqui com destaque aos postulados pós-modernos.