Capítulo 2: teoria dos sistemas sociais autopoiéticos
2.1 Sentido e o paradoxo dos sistemas que observam
A indicação, relacionada à distinção, produz uma dupla limitação: uma determina o lado indicado, e a outra limita, ao mesmo tempo, todo o demais. Desse mesmo modo, as observações (operações) seguintes se darão em duas etapas: a passagem do limite estabelecido pela anterior e, em seguida, a aposição de outra forma – nova distinção e indicação (LUHMANN, 2002a, p. 85).
Para o relacionamento dos conceitos que dão nome a este tópico, iniciaremos com algumas considerações relacionadas à observação. Observar significa, enquanto nosso ponto de partida, realizar uma distinção e indicar um de seus lados. A indicação, relacionada à
distinção, produz uma dupla limitação: uma determina o lado indicado, e a outra limita, ao mesmo tempo, todo o demais. Desse mesmo modo, as observações (operações) seguintes se darão em duas etapas: a passagem do limite estabelecido pela anterior e, em seguida, a aposição de outra forma – nova distinção e indicação (LUHMANN, 2002a, p. 85).
A observação é entendida, portanto, como a passagem de forma para forma, num contínuo posicionamento e reposicionamento desses limites entre marked e unmarked states (LUHMANN, 2002a, p. 86) entre diversas possibilidades. Ou melhor: as seleções atuais são entendidas enquanto formas fixadas temporalmente em um meio constituído por todas as demais possibilidades. No entanto, essas considerações nos levam a perguntar pelo “como” se dá a atualização desse esquema meio/forma.
No âmbito de sistemas de sentido operacionalmente fechados, caracterizados pela contínua renovação de suas operações, encontramos alguns elementos que podem ser usados adequadamente para responder a essa pergunta. Nesses sistemas, a manutenção da sua autorreferência se dá pela contínua reprodução do sentido, caracterizada pela atualização da distinção atualidade/possibilidade como uma forma que realiza uma re-entry nela mesma (LUHMANN, 2002a, p. 86).
Esta re-entry representa um paradoxo, uma vez que a distinção reintroduzida simultaneamente é e não é a mesma (LUHMANN, 2002a, p. 83). Por um lado a distinção é a mesma, permanecendo enquanto diferença entre atualidade e possibilidade. Por outro, não é a mesma, pois, a partir da re-entry, há a atualização da seleção que constitui a forma e a conexão para outras operações, onde o outro lado permanece incluído, mas excluído (LUHMANN, 2002a, p. 87).
Nesse contexto, a forma de sentido significa a unidade da diferença entre atualidade e possibilidade (LUHMANN, 2007, p. 32), enquanto o seu processamento representa a contínua reformulação desta diferença, entre atualização e virtualização, em um processo auto-impulsionado (LUHMANN, 1998, p. 82). O sentido, portanto, existe enquanto atualidade resultante de uma seleção (forma) e enquanto possibilidade disponível para posteriores atualizações (meio) (LUHMANN, 2002a, p. 84-85). Recordando a dinâmica temporal de uma re-entry desenvolvida no capítulo anterior, podemos expressar a (re) atualização de sentido da seguinte forma:
No processamento de sentido, os sistemas operacionalmente fechados recorrem a operações contingentes anteriores, cujo resultado se encontra presente na atualidade, e ao mesmo tempo, enviam possibilidades infinitamente numerosas para observações futuras. A partir dessa forma de operação histórica, toda determinação tem como fundamento sua própria faticidade recursivamente assegurada (LUHMANN, 2007, p. 30).
Distinguimos, segundo essas considerações, três entendimentos inter-relacionados sobre o termo sentido: o primeiro enquanto atualidade, o segundo enquanto possibilidade e ainda enquanto a dinâmica de processamento, ou seja, a própria atualização de possibilidades também é entendida como sentido (LUHMANN, 1998, p. 82).
De acordo com as considerações anteriores, os sistemas sociais e psíquicos são afirmados enquanto sistemas de sentido, porque capazes de dar apenas esta forma à suas relações de complexidade (LUHMANN, 1998, p. 66). Assim, o sentido é compreendido como a forma de complexidade indispensável para os sistemas sociais e psíquicos, estes que existem em co-evolução necessária.
A partir dessas afirmações se percebe que tanto sistemas sociais quanto psíquicos utilizam o sentido, os primeiros constituídos sobre a base de um nexo de comunicação e os segundos, sobre a base de um nexo de consciência (LUHMANN, 1998, p. 77). Para esses sistemas – que utilizam o sentido para o processamento de complexidade e autorreferência – apenas existe essa forma de fazê-lo (LUHMANN, 1998, p. 79), assim como tudo é acessível apenas sob essa forma (LUHMANN, 1998, p. 81). Com a tese do sentido, exclui-se o vazio absoluto, o nada, pois até o sem sentido integra a comunicação com sentido (LUHMANN, 2007, p. 31). t1 t2 t3 t4 t5 Operação sentido atual outras possib. sentido atual outras possib.
Para uma compreensão dessa dinâmica, Luhmann distingue três dimensões do sentido: objetiva, temporal e social. A dimensão objetiva está relacionada aos temas da comunicação, com todas as comunicações plenas de sentido, e está orientada segundo a diferença este/outro (LUHMANN, 1998, p. 91-92). Portanto, a orientação pela dimensão objetiva se dá sempre com a tematização de qualquer objeto em relação a todas as demais possibilidades, ou melhor: quando o sentido é observado segundo a distinção este tema/todos os demais.
A dimensão temporal se caracteriza pela ordenação do "quando". O tempo significa a ordenação de acordo com a distinção passado/futuro, figurando o presente como a diferença. (LUHMANN, 1998, p. 92-93). Dessa forma, todas as atualizações de sentido ocorrem segundo uma orientação entre um antes e um depois e são denominadas de acontecimentos (LUHMANN, 2005, p. 105-106) que desaparecem no instante de sua atualização, sendo substituído por outro acontecimento em uma seqüência de operações (LUHMANN, 2007, p. 35).
A partir do entrelaçamento entre dimensão objetiva e temporal, dá-se a distinção reversibilidade e irreversibilidade de mudanças. Segundo uma orientação temporal, a produção de sentido se dá, enquanto acontecimento, apenas no presente e de forma irreversível. Por outro lado, a autorreferência permite que um mesmo tema volte a ser atualizado, possibilitando, assim a reversibilidade do sentido anteriormente fixado. (LUHMANN, 1998, p. 93). Assim, ao mesmo tempo em que um acontecimento define temporalmente a atualização do sentido, a recursividade permite a posterior re-atualização. Retomaremos a temática relativa ao tempo quando apresentarmos, no próximo capítulo, a temporalização dos sistemas sociais.
A dimensão social – compreendida como a terceira dimensão – está relacionada com a compreensão de alter e ego para cada experiência do mundo e fixação de sentido (LUHMANN, 1998, p. 94). Neste caso, a distinção que funciona como orientação se refere à possibilidade de entendimento, ou melhor: ao perguntar se o outro vive como o eu, ou de outra maneira. Com isso, a diferença constitutiva da dimensão social se orienta de uma forma dupla quanto às possibilidades de entendimento recíprocas entre alter e ego (LUHMANN, 1998, p. 94). Abordaremos posteriormente este tema com maiores detalhes, em conjunto com os conceitos de socialização e interpenetração.
Por ora é importante mencionar que as dimensões do sentido – objetiva, temporal e social – não aparecem isoladamente, mas sim, existem simultaneamente em qualquer
atualização de sentido (LUHMANN, 1998, p. 99). Isto significa que em todas as operações de sentido dá-se a orientação pelas três diferenças que organizam as respectivas dimensões, sendo possível, dessa forma, perguntar pelo tema (diferença este/outro), pelo “quando” (diferença passado/futuro), assim como pelos horizontes recíprocos de entendimento (diferença de vivência) em cada determinação temporalizada de sentido.
Da mesma forma, todos os conceitos apresentados e desenvolvidos nos tópicos seguintes têm por base a produção de sentido. No próximo, nos ocuparemos da comunicação enquanto elemento constitutivo dos sistemas sociais e sua relação com o conceito de ação.