1.2 SENTIDOS E SIGNIFICADOS DO TRABALHO
1.2.2 Sentidos e significados do trabalho na perspectiva sócio-
embora não discuta particularmente estes fenômenos no contexto laboral, tem uma abordagem teórico-metodológica que proporciona uma compreensão abrangente da realidade, coerente com o estudo de um fenômeno considerado tão complexo e multifacetado como o próprio trabalho (Salanova; Garcia; Peiró, 1996; Blanch Ribas, 2003), apresentando-se, assim, como uma boa proposta para a análise dos seus significados e sentidos.
1.2.2 Sentidos e significados do trabalho na perspectiva sócio- histórica
A base teórico-metodológica escolhida para a compreensão do fenômeno sentidos do trabalho nesta dissertação é a psicologia sócio- histórica, também conhecida como histórico-cultural, originada com os escritos de Vygotski. Esta se fundamenta na constituição social e histórica do psiquismo humano e, assim, do próprio sujeito. Essa abordagem tem suas raízes no materialismo histórico dialético e é referenciada por diversos autores na Psicologia, como Ozella e Sanchez (2001), Zanella (2003), Aguiar e Ozella (2006), Piño (1993), Leontiev (1978), Basso (1998) entre outros. A psicologia histórico-cultural busca entender as ações sociais em um contexto historicamente determinado e em uma perspectiva crítica de questionamento constante, instiga o papel do homem na produção de suas relações, pois reconhece sua ação e movimento nas condições sociais que o constrói. Dessa forma, essa abordagem busca superar a tradição positivista na pesquisa em
Psicologia, a qual se restringe ao nível do observável e pretende romper com a visão dicotômica da relação indivíduo/sociedade, físico/psíquico, psicológico/social e interno/externo (OZELLA; SANCHEZ, 2001).
Para Vygotski (2001) o psiquismo humano é constituído historicamente, na indissociável relação sujeito e sociedade. Nesse processo o homem se constitui em uma relação dialética com o social e com a história, sendo ao mesmo tempo único, singular e histórico. O homem, constituído na e pela atividade, revela a historicidade social, a ideologia, as relações sociais e o modo de produção em todas as suas expressões e experiências existenciais. Nesse processo, sujeito e sociedade vivem uma relação na qual um constitui o outro, pois, para Vygotski (2001), o indivíduo é o quase social; ou seja, não há invenções individuais (AGUIAR; OZELLA, 2006).
Vygotski (1991) compreende que a ação mediada é o fato central da Psicologia. O conceito de atividade/ação, utilizado tanto por Leontiev como Vygotski, relaciona-se intimamente ao conceito de trabalho humano. A atividade humana é produtora de cultura e nesse processo objetiva o ser humano e, ao mesmo tempo, o subjetiva. Assim, o resultado da atividade é a produção de uma realidade humanizada, que resulta também na humanização do sujeito que a realiza (ZANELLA, 2004). A partir disso, pode-se compreender que a atividade/trabalho é responsável pelo processo de humanização dos homens, pois ele próprio é o que constitui o ser humano, por meio do trabalho é que o homem significa o mundo.
Nessa direção Piño (1993) aborda que o homem, genericamente, é resultado de sua atividade de trabalho e por meio desta vive uma relação de dupla produção; ao mesmo tempo em que transforma a natureza para atender às suas necessidades também transforma a si mesmo. A atividade humana sofre uma mediação semiótica, ou seja, todas as relações entre si e com o mundo são mediadas por instrumentos técnicos e sistemas de signos, o signo entendido como uma coisa material que serve para representar o outro. Essa mediação possibilita a produção e apropriação da cultura através da linguagem, falada ou escrita (PIÑO, 1993).
Para Aguiar e Ozella (2006), a categoria mediação traz a ideia da intervenção de um instrumento. As mediações sociais são o centro organizador da ligação entre singularidade e universalidade, individual e social, subjetividade e objetividade, interno e externo e assim, auxiliam para que estes elementos se constituam mutuamente e, para que um exista em relação ao outro de forma complementar e não dicotômica, linear ou causal. Desse modo, estas mediações são constitutivas do ser
humano e para apreendê-las é necessário ir além da aparência e do imediato e buscar o processo, o não-dito, o sentido.
A compreensão do papel das mediações sociais se faz tão relevante quanto a análise da relação inseparável entre pensamento e linguagem. Vygotski (2001) esclarece que para obter a compreensão da linguagem do outro é necessário ir além das palavras e buscar o pensamento que a constitui. O pensamento é considerado um fenômeno subjetivo pelas significações e emoções que desperta e sempre carrega uma intenção afetivo-volitiva. De modo geral, o pensamento se realiza na palavra (mas pode fracassar quando não se transforma nela) e deve ser analisado de maneira processual, através da palavra expressa com significado, pois o entendimento da palavra levará à compreensão do pensamento que a suscitou (AGUIAR; OZELLA, 2006).
Para Vygotski (2001), em primeira instância, o significado da palavra é a unidade de análise da relação historicamente constituída entre pensamento e linguagem. O autor distingue significado e sentido, quando pontua que o significado da palavra, do ponto de vista psicológico, é uma generalização ou conceito, enquanto o sentido de uma palavra é compreendido como
a soma de todos os fatos psicológicos que ela desperta em nossa consciência. Assim, o sentido é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. O significado é apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso e, ademais, uma zona mais estável, uniforme e exata (VYGOTSKI, 2001, p. 465). Dessa forma, o pensamento, para se transformar em palavra, passa necessariamente pelo significado e sentido, duas categorias diferentes que não podem ser compreendidas descoladas uma da outra, uma não existe sem a outra, pois significado e sentido fazem parte de um mesmo processo construído socialmente, ao qual denomina-se de significação.
A significação refere-se ao que as coisas querem dizer, àquilo que alguma coisa significa. Como as coisas não significam por si só e nem tão pouco significam a mesma coisa para indivíduos diferentes, depreende-se que a significação é fenômeno das interações, sendo, pois, social e historicamente produzida (ZANELLA, 2003, p. 71).
No processo de significação há uma dupla referência semântica: o significado e o sentido. O significado aparece como sendo próprio do signo5, enquanto que o sentido é produto e resultado do significado, todavia não é fixado pelo signo, sendo mais amplo do que significado (VYGOTSKI, 1996). O sentido predomina sobre o significado, é um todo complexo que apresenta diversas zonas de estabilidade desiguais. Uma palavra adquire o seu sentido no contexto em que surge, em outros contextos altera o seu sentido. O significado, porém, permanece estável ao longo de todas as alterações do sentido (VYGOTSKI, 1993).
Para Vygotski (2001), o significado, no campo semântico, corresponde às relações que a palavra pode encerrar, e no campo psicológico, é uma generalização, um conceito. O significado constitui o processo no qual o homem transforma a natureza e a si mesmo na atividade; assim, toda atividade humana é significada. Os significados permitem a comunicação e a socialização de nossas experiências, são conteúdos mais fixos, estáveis, compartilhados, apropriados pelos sujeitos, configurados por meio de suas próprias subjetividades. Significados são o ponto de partida para a compreensão do sujeito, a partir deles pode-se caminhar para as zonas mais instáveis, fluidas e profundas, as zonas de sentido. Para Aguiar e Ozella (2006), o sentido está em um plano que mais se aproxima da subjetividade do sujeito e que com mais precisão o expressa, como unidade de todos os processos cognitivos, afetivos e biológicos.
É necessário pontuar que há uma relação importante entre afetos, motivos, sentidos e pensamento, ou seja, o pensamento só pode ser compreendido na relação com estes outros fenômenos, pois é por meio dessa relação que o pensamento dá origem aos sentidos. Os motivos, necessidades e interesses direcionam o movimento do pensamento. As necessidades como um estado de carência levam o sujeito na busca por satisfação, de acordo com suas relações sociais, ocorrem de modo não- intencional e têm nas emoções um componente instigador. Os afetos/registros emocionais criam um estado de tensão que mobiliza para a ação, mas antes o sujeito precisa significar que algo do mundo social possibilita satisfazer suas necessidades e assim essas necessidades configuram-se em motivos. A compreensão dos motivos, por sua vez,
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Os signos são instrumentos simbólicos desenvolvidos pela espécie humana para estabelecer uma relação de mediação entre homem e realidade. Enquanto o signo é um instrumento tipicamente humano, o significado da palavra é a unidade ou a célula do pensamento verbal (VYGOTSKI, 1993).
auxilia na aproximação com os sentidos e com o processo gerador da atividade (AGUIAR; OZELLA, 2006).
Na perspectiva sócio-histórica, outra conceituação necessária refere-se à diferenciação entre atividade e ação. Para Leontiev (1978), a atividade humana corresponde a um conjunto de ações. O motivo de uma ação compreendida isoladamente não coincide com o fim ou com o resultado imediato de cada uma das ações que constituem a atividade. É somente por meio da relação entre todas as ações constitutivas da atividade que o resultado de uma ação se relaciona com o motivo da atividade. Cada ação pode não justificar o motivo da atividade; entretanto, o conjunto delas precisa justificar e manter a coerência com este motivo. Nesta direção, o significado das ações dos indivíduos que estão envolvidos em uma atividade é apropriado por estes, que fornecem sentidos à atividade, e que corresponde ao mesmo tempo ao seu significado. A relação entre significado, sentido e alienação no trabalho também é esclarecida por Leontiev (1978), o qual contextualiza que nas sociedades primitivas não havia divisão social e relações de exploração e, assim, significado e sentido eram correspondentes. Com a divisão social do trabalho e a divisão em classes, característica que demarca a sociedade capitalista, o sentido não corresponde mais ao significado, o que torna as ações alienadas.
Consonante com Leontiev (1978), Basso (1998) discorre que o homem em sua experiência social, acumula e encontra formas de executar uma atividade, de entender sua realidade, de comunicar e expressar sentimentos, através dos modos de agir, pensar, falar, escrever e sentir que se transformam nas relações sociais. Desse modo, a autora (1998) também afirma que o significado é a generalização e a fixação da prática social humana que ocorre por intermédio de instrumentos, objetos, linguagem, relações sociais e outros meios de objetivação. Para Leontiev (1978), a significação é o reflexo da realidade e um amplo sistema de significações pronto e elaborado historicamente encontra-se disponível ao homem, ou seja, o significado está posto na sociedade.
O sentido, por sua vez, subverte o significado, ele não se submete a uma lógica racional externa ou ao conjunto de significações encontrado na sociedade, muitas vezes, pode se referir a necessidades ainda não realizadas, mas que mobilizam o sujeito para a atividade (GONZALES REY, 2003). A categoria sentido é mais ampla, pois abrange a expressão dialética dos planos tanto singular quanto coletivo (VYGOTSKI, 2001). Sentido refere-se à singularidade historicamente construída e, assim, é muito mais complexo do que o significado. Na
apreensão dos sentidos não se encontra uma resposta única, coerente e completa, mas sim expressões contraditórias e parciais do sujeito, que apresentam indicadores das suas formas de ser. Desse modo, é difícil obter a apreensão do sentido, este não se revela facilmente, não está na aparência; muitas vezes o próprio sujeito o desconhece, pois não se apropria da totalidade de suas vivências. As vivências não se expressam e nem são significadas tão claramente, são muito mais complexas e ricas do que parecem (AGUIAR; OZELLA, 2006).
Consequentemente, se os sentidos produzidos nas vivências do cotidiano não são claramente expressos ou significados porque as vivências carregam uma complexidade que dificulta a sua expressão, justificam, mais uma vez, a relevância de se apreender os sentidos do trabalho, ou seja, compreender como este é significado individualmente a partir de sua experiência, em práticas sociais concretas vividas por cada pessoa em seu contexto laboral. O contexto laboral, por sua vez, pode tanto ser percebido como promotor da saúde, ou, ao contrário, ser associado ao adoecimento como será abordado em sequência.