Após percorrer a trajetória do evadido, desde os primórdios de sua formação até o presente, a última pergunta consistia sobre o que teria significado essa conversa. Importa lembrar que os entrevistados fazem parte do grupo que se dispôs a conceder uma entrevista, aproximadamente 50% do total de pesquisados. E, dentre estes, com alguns contatados não foi possível viabilizar a entrevista. Ou seja, este poder falar foi uma ruptura com uma escala de silêncio, a começar pela dificuldade de contato, pela não resposta aos e- mails ou ao questionário entregue, pelo disponibilizar-se ou não para uma entrevista. Um silenciamento de diversas faces que só se confirmou nos diferentes relatos dos evadidos. Desse modo, o que significou poder falar?
Primeiramente, um ato de resistência. Participar do questionário, atender a uma entrevista, falar da experiência. Quebrar um silêncio. Como apareceu nos relatos: Hoje eu posso falar desse assunto. Rosa, após confirmar que não fala com ninguém sobre sua desistência, relata como aceitou o convite, recebido por meio de uma tia, para participar desta pesquisa: Tanto que quando minha tia falou, eu fiquei meio assim e falei “não, pode deixar que eu ‘vô’ fazer”. E, explicando por que não fala, traz duas informações pontuais: a falta de tempo e de alguém que possa escutar. Disse Rosa: É, ma/mais, mesmo por conta de tempo mesmo. A gente também não tem uma coisa de alguém escutar, de ter essa disponibilidade de querer ouvir o que aconteceu. Duas dificuldades são ressaltadas: diante das muitas solicitações do cotidiano, parece não haver espaço na pauta para a narrativa das
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O curso técnico pode ser uma alternativa de retomada (ACCARDO, 1999, p. 597) e, dentro das condições da trajetória do sujeito, um passo de maior viabilidade do que a realização de uma graduação, podendo reduzir “[...] certa defasagem das aspirações em relação às chances reais” (BOURDIEU, 1983).
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próprias histórias, em especial para os acontecimentos que estão no subterrâneo. Estes, para virem à superfície, demandam condições, a começar por alguém que possa escutar. Assim afirma Débora sobre a entrevista: Foi bacana, porque ninguém nunca me perguntou isso, nem na IES o dia que eu fui trancar, mas por que e tal. Então é bacana quando alguém assim, eu sei que faz parte do seu trabalho e tal, mas é bom quando alguém pergunta e se interessa mesmo, e foi o que você fez. Foi bom revisitar a própria história e o silêncio é novamente colocado em destaque, a começar pelo da própria IES, e se estende para os próximos: ninguém nunca me perguntou isso. Será que as histórias dos vencedores recebem o mesmo destino, ficarem condenadas ao anonimato, ao não dito?
Um outro tema é novamente ressaltado: existir alguém para ouvir, que se interessa mesmo. Essa insistência remete à pergunta: Qual a condição para alguém poder falar? Qual a condição da escuta, ou como propiciar ao outro a possibilidade da fala? Afirma Bourdieu (1997, p. 47): “Quando se quer que alguém que não é um profissional da palavra chegue a dizer coisas [...] é preciso fazer um trabalho de assistência à palavra [...]. Trata-se de se colocar a serviço de alguém cuja palavra é importante, de quem se quer saber o que tem a dizer, o que pensa, ajudando-o no trabalho de parto”. Em um tempo no qual se tem muita pressa e se tem muito barulho, criar as condições da escuta também constitui um ato de resistência.
No caso da pesquisa acadêmica, possibilitar essas condições constitui o trabalho do pesquisador, cabendo ao entrevistado oportunizar o tempo da parada. A entrevista com Rosa, ao final do dia, quando chegava de sua jornada de trabalho, passara por uma consulta médica e dividia a atenção com seu pequeno filho, foi ato de resistência. Um momento extraordinário para possibilitar falas extraordinárias, submersas, desejosas ou não de vir à tona. Escreve Bourdieu (1999a, p. 84-85) ao final do relato de uma entrevista com dois jovens: “A imagem que eles transmitem deles mesmos, nesta entrevista, deve muito, evidentemente, sem ser por isso falsa, à relação social completamente singular, extraordinária, instituída pela relação de pesquisa: sentindo-se compreendidos e aceitos, eles podem confiar uma de suas verdades possíveis...”. Um deixar falar, sem a necessidade de um julgamento, tanto para acatar a verdade dita, quanto para recusar a “verdade possível”. Um dispor-se a ouvir. Como resultado de uma confiança estabelecida, conclui o autor: “A entrevista criou uma situação de exceção que lhes permitiu revelar o que eles seriam sem dúvida mais frequentemente e mais completamente se o mundo agisse de outro modo com eles...”. A possibilidade de visitar à própria história acaba sendo uma
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oportunidade de o entrevistado refletir sobre si mesmo (ACCARDO, 1999, p. 599), constatar o que foi e imaginar o que poderia ter sido, com diferentes manifestações: ora de tristeza, frustração, ora de orgulho pelo realizado, ora de utopia pelo que ainda pode ser. Essas manifestações aparecem diversamente, nos relatos que seguem.
Fábio completou o que estava faltando e com isso tranquilizou-se, sentiu-se mais aliviado. Pôde colocar para fora o que estava incubado. Afirma Fábio:
Ah, dá uma aliviada, “né”, um desabafo. Eu acho que essa conversa eu não tive com ninguém, acho que era uma conversa que ficou faltando. Acho que eu vou sair daqui mais tranquilo, mais... vamos dizer assim... mais leve. Eu coloquei pra fora toda... a minha frustração, a minha decepção comigo mesmo. Até... a questão de satisfação também, que eu hoje eu vejo que meus amigos formados não têm o que eu tenho...
Carla relembrou fatos, detalhes que povoaram essa realização.
Então foi tudo, tudo foi muito intenso, os relacionamentos, [...] não tem como esquecer nenhum detalhe (risos) até quando eu subia, com um frio do caramba lá em Mogi, “né”, antes de eu subir pra sala, tinha que tomar um chocolate quente. Então, sabe, até esses detalhes pequenos, ... a gente... depois do laboratório, todo mundo... ficava/ parecia cebola, tirando a roupa, de tanta blusa, porque aí ficava todo mundo sentado no sol (risos). Então umas coisas assim... foi uma coisa/ um período na minha vida que não tem como apagar, sabe... Inclusive, como disse, os mínimos detalhes, foi muito bom...
E ao mexer com o que estava acomodado, sente-se provocada a alçar outros voos. Hum”, relembrar... (risos) Foi muito bom. Inclusive, como é que é [?] cutucar... o negócio de voltar (risos), sabe, foi uma cutucada (risos), mas...
Para Pedro foi uma aprendizagem. Significou muito, eu acho que eu aprendi muito também com essa conversa, porque dialogando também a gente aprende, não deixa de ser uma aula também, a gente acaba relembrando muitas coisas que a gente fez que a gente deixou de fazer...
O diálogo com a própria história constitui uma aprendizagem. Alguns fatos foram priorizados, uma versão sobre eles prevaleceu, sentimentos foram se manifestando. A entrevista constituiu em uma oportunidade para visitar os próprios arquivos. E na intensidade da narrativa foi aparecendo “[...] o sentido que desejamos dar às coisas” (ARTIÉRES, 1998, p. 11). E este aparece de forma límpida. Como se disse em alguns momentos ao longo deste texto, há uma transparência nas falas. E essa visita aos arquivos, esse direito à voz, esse poder falar provoca as emoções. Sobre o sentido da conversa,
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afirma Lucas: Foi legal! Pergunto: Por que é legal visitar a história? Ele responde: Porque hoje eu me sinto orgulhoso... (com a voz embargada), por mais que eu tive... várias dificuldades eu me sinto um vencedor. A voz antes eloquente e intensa ficou embaraçada, no embargo – o silêncio, e os olhos marejaram. Conclui-se: é a saga, são tantas lutas, enfrentamentos, burlas, superações. Já dei conta de tanto e, de repente, poder revisitar tudo isso é também um mexer com as emoções.
Assim entendemos a manifestação de gratidão no final das entrevistas: em um tempo barulhento, de tantas vozes, a minha voz pode ser escutada por alguém. A minha história pode ser ouvida. Possibilidade da escuta. Possibilidade de dizer. Disse para o outro, disse para mim mesmo. Disse o que nunca havia dito. Isso remexe, apresenta a história. Estamos em um lugar, em um tempo. Já passamos por muitos outros. O estar aqui não está desarticulado do ontem. Revisitar esse ontem ajuda a significar o hoje, a compreendê-lo, a lançar-se para o futuro. Visitar os arquivos é um ato de resistência. Resistência. Resistir a quê? Ao barulho, ao silêncio. À falta de tempo, à correria. Ao silenciamento do meu passado, de minha história. Trajetória minha, trajetória de muitos.
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7 - Por fim, a instituição universitária e os evadidos: QUE FAZER?•
Beatriz afirma: sobre o apoio a não desistir eu acho quepode ser uma ajuda, porque nem todos estavam com essa ideia fixa como eu acredito, né, então às vezes só um empurrãozinho, uma ajudinha poderia impedir alguém de desistir.
Fábio: eu acho que a faculdade devia se apegar um pouco
mais... com relação à relação professor-aluno.
Entre as razões da desistência apontadas pelos evadidos destacaram-se as dificuldades de conciliar trabalho e estudo, dificuldades financeiras e insatisfação com o curso, decorrente de um processo precário de escolha, pressionado, sobretudo, pelas demandas do mercado. Apareceu ainda desvalorização do diploma e insatisfação com a qualidade do curso ou IES. Nesse contexto, objetiva-se, na sequência deste texto, tratar do que pode/deve as IES fazer para contribuir no processo de permanência do aluno. Ao ouvir a voz do evadido sob suas condições e o sentido da desistência, pretende-se verificar o que se pode concluir como papel das instituições no sentido de se construir estratégias de combate à evasão, a começar pelas próprias sugestões dos evadidos diante dessa pergunta57.
Porém, antes de analisar um possível papel positivo das instituições no sentido de combate à evasão, primeiramente é necessário explicitar o papel também desenvolvido pelas IES no sentido de contribuir para a intensidade do fenômeno da evasão. Como sugerido no exame de qualificação, compõe esta pesquisa, também, “escancarar o que a instituição está fazendo com o aluno”. Não se trata de colocar a instituição como a única responsável pelo processo de evasão, de se buscar causas simples para fenômenos complexos, mas de descrever situações que dificultam a permanência ou, ainda, como a temática da evasão aparece ou não como uma preocupação institucional. Apesar de, ao longo das entrevistas, as instituições terem sido poupadas de maiores responsabilidades, nos relatos envolvendo, tanto a escola na educação básica, quanto as IES, na passagem pela universidade, não deixaram de ser mencionadas práticas institucionais que contribuem para um processo de expulsão do aluno dos bancos universitários.
57 As estratégias discutidas no âmbito das IES podem contribuir para um espaço acadêmico mais acolhedor e com maiores condições de permanência, porém não se deve desconsiderar a importância das políticas públicas na vida estudantil, sobretudo das camadas mais desfavorecidas, bem como, as implicações na problemática da evasão quando se prevalece uma concepção de educação como mercadoria.
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