4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
M. S Do Suicídio São Paulo: Papirus, 1991 p 149-165, p 162-163.
4.2 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DADOS RELATIVOS AO QUESTIONÁRIO APLICADO JUNTO AOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE
4.2.6 Sentimentos despertados no profissional ao atender paciente em risco de suicídio
A partir da proposição destacada por Meleiro, Botega e Prates (2004) de que as possíveis diversas respostas emocionais despertadas no profissional de saúde que atende pessoas com comportamento suicida podem “prejudicar a eficiência no trabalho e também intervir na vida familiar e pessoal”161 do profissional, é que se buscou inquirir o que os profissionais pesquisados referem sentir ao atender este tipo de caso. A seguir as respostas indicadas pelos profissionais da saúde investigados.
160 BOTEGA; WERLANG, 2004, p.123.
Tabela 24 - Sentimentos ao atender paciente em risco de suicídio
Categoria Subcategoria S1 S2 S3 S4 S5 S6 S7 S8 S9 S10 S11 S12 Ocor Nervoso, por não saber
o que fazer x 1
Preocupado, porque mesmo sabendo o que
fazer, a responsabilidade é
muito grande
x x x x x x 6
Com pena, a pessoa
está sofrendo x x x 3
Raiva, com tantas pessoas lutando para
viver e alguém querendo se matar!
-
Seguro, afinal sinto-me preparado para atender
esse tipo de caso
x x x 3
Seguro, estou acostumado, atendo esse tipo de caso com
freqüência.
x x 2
Inseguro, não me sinto capaz de atender casos
de pacientes que envolvam risco de
suicídio
x 1
Angustiado, procuro
fugir deste tipo de caso. -
Fico muito envolvido emocionalmente, depois
não consigo parar de pensar na pessoa
-
Não sei, nunca me deparei com esse tipo de
caso x 1 Sentimentos ao atender paciente em risco de suicídio Outro -
Fonte: elaboração da autora, 2008.
Sobre como o profissional se sente ao atender pacientes que tentaram o suicídio, o alternativa mais assinalada foi: “preocupação, porque mesmo sabendo o que fazer, a responsabilidade é muito grande” (seis dos doze respondentes assinalaram esta alternativa e são eles: médico clínico geral do posto de saúde; 2 enfermeiras do PSM e psiquiatra, enfermeiro e auxiliar de enfermagem do hospital psiquiátrico). Não é diferente o sentimento
relatado pelos profissionais investigados por Silva e Boemer (2006), na pesquisa intitulada “O suicídio em seu mostrar-se a profissionais de saúde”. As pesquisadoras puderam constatar que “muitos dos profissionais percebem as dificuldades de trabalhar com o suicida e, conseqüentemente, com o suicídio. Há certa preocupação em dar um acompanhamento aos pacientes realizando assim, um trabalho mais amplo. Surgem, então, sentimentos de culpa, impotência, frustração, fragilidade e desespero perante o ato autodestrutivo.”162 Das falas de dois profissionais da pesquisa de Silva e Boemer (2006), quais sejam “o problema daqui é que mesmo que a gente cuide de um paciente que tentou o suicídio, não sabemos o que vai acontecer com ele depois que for embora” e “às vezes, eu me sinto mal por não conseguir ajudar um paciente da maneira que ele precisa”163, juntamente com a resposta assinalada pelos seis profissionais investigados “preocupação, porque mesmo sabendo o que fazer, a responsabilidade é muito grande” fica possível relacionar a dificuldade que alguns profissionais podem apresentar em distinguir a responsabilidade que lhes cabe e a responsabilidade que é do paciente e de seus familiares, isto é, o limite do que é possível realizar enquanto profissional, em conformidade com o que já foi apresentado que Carvalho(1996) e Gabbard (2006) expõem a respeito da distinção e limites do papel do profissional e do paciente (Tabela 21) .
Por um lado, entende-se que talvez um certo grau de preocupação possa até ser produtivo, no sentido de os profissionais se mobilizarem em busca de informação e atualização para atuar nesses casos. E, talvez seja necessário que os profissionais compreendam que possivelmente essa preocupação não possa ser totalmente aliviada, pela própria natureza do trabalho em saúde, ainda mais nos casos que envolvem risco de morte do paciente. E que, além disso, esse sentimento de preocupação possa funcionar como base para promover a postura empática do profissional. Já que, de acordo com os manuais investigados “é preciso também estar disponível emocionalmente para lhes dar atenção”164. Neste sentido, para estar emocionalmente disponível para manejar os casos que envolvem risco de suicídio, é possível aproveitar os conhecimentos da função da contratransferência e de sua utilização como possibilidade de instrumento de trabalho do profissional da saúde no atendimento desses casos: 162 SILVA; BOEMER, 2006, p.149. 163 SILVA; BOEMER, 2006, p.149. 164 BRASIL, 2006, p. 55.
o sentimento contratransferencial pode adquirir uma dimensão patogênica, com o analista perdido e envolvido na situação ou pode ser uma excelente bússola empática. É importante que o analista possa conviver com naturalidade com os seus sentimentos contratransferenciais dificílimos (por exemplo, de medo, tédio, paralisia, impotência, erotização, raiva, etc.) sem sentir vergonha e culpas, de modo a poder assumir e refletir sobre o que eles representam no vínculo165 (grifos no original)
Na mesma direção, já se mencionou Cassorla (1991), que enfatiza a importância de se capacitar e treinar os profissionais da saúde para lidar com o sofrimento decorrente dos sentimentos despertados no atendimento desses casos, bem como para aprender a utilizar o reconhecimento desses sentimentos contratransferenciais como arma diagnóstica166. Neste ponto, vale referir a importância do profissional da psicologia em se valer de seu conhecimento para fomentar esse tipo de capacitação e treinamento, supervisão psicológica ou até mesmo identificação e encaminhamento do profissional para atendimento psicoterápico.
Contudo, ainda em relação ao sentimento de preocupação assinalado por seis dos sujeitos investigados, há a necessidade, por outro lado, em se atentar para a saúde destes profissionais, que podem se sentirem sobrecarregados quando afirmam que “a responsabilidade é muito grande”. Neste sentido, imagina-se que algumas outras medidas poderiam ser tomadas, para além da conscientização dos limites de sua responsabilidade e do treino da utilização da contratransferência já destacados, como forma de oportunizar maior segurança na conduta profissional e como forma de se promover a saúde desses profissionais. Pensa-se que a informação e capacitação dos profissionais é inquestionável, como já se discutiu na Tabela 14. E a discussão e compartilhamento dos casos pela equipe de saúde, bem como a promoção de espaços de discussão dos sentimentos gerados por esses atendimentos são medidas que vão ao encontro do preparo técnico destes profissionais. E este aspecto diz respeito à efetivação da questão da interdisciplinaridade. Pensa-se que é preciso que os profissionais compreendam que compartilhar os casos atendidos com a equipe de saúde, além de possivelmente proporcionar uma ampliação do cuidado ao paciente (já que o caso passa a ser discutido e analisado por diversos profissionais, de diferentes áreas do conhecimento), também os alivia desta sobrecarga. De acordo com os manuais investigados, “necessariamente, você também não terá de ‘carregar’o problema da pessoa caso não se sinta
165ZIMERMAN D.E. Vocabulário Contemporânea de Psicanálise. Porto Alegre: Artmed, 2001, p. 87. 166 CASSORLA, R. M. S. O Impacto dos Atos Suicidas no Medico e na Equipe de Saúde. In CASSORLA, R. M.