5 PERCURSO METODOLÓGICO
6.3 Sentimentos maternos após os primeiros meses de vida
Frente a um contexto complexo, a experiência da maternidade foi perpassada por um misto de sentimentos. Em diversos momentos, seja durante as oficinas ou conversas informais as mães referiram reações emocionais frente às experiências nos primeiros meses de vida das crianças. A análise de tais reações foi feita a partir dos estudos Drotar, Baskiewicz, Irvin, Kennel e Klaus (1975), sobre os estágios do luto em casos de malformação. Na experiência de Jasmim foi possível observar a presença de intensos sentimentos de tristeza frente às “crises” do filho:
Ele tá tendo essas crises dele e eu fico mais deprimida, fico chorando direto, passo uns dias bem, ai volta de novo e eu começo a chorar, tem hora que eu penso que não vou aguentar (...). É muita coisa na vida da gente! (Jasmim).
O discurso acima aponta reações descritas no estágio de tristeza. Frente à dor que lhe assola, Jasmim relata chorar com frequência e se sentir deprimida. Segundo Klaus & Kennel (1993) a presença de sentimentos de impotência, desesperança, bem como choros constantes, são frequentes no estágio da tristeza, que como já referido, pode perpassar a experiência gestacional, permanecendo após o nascimento dos bebês. Nesse ensejo, Gomes e Piccinini (2010) corroboram esses dados, quando avaliam que algumas mães nunca superam totalmente o fato do filho ter nascido com malformação. Essa recorrência, contudo, não representaria a não-aceitação e sim o luto pelo bebê idealizado. Assim, mesmo passados anos do impacto do diagnóstico, haveria momentos de revivência do sofrimento. Nesse sentido, outra participante também relata sentimentos de tristeza ao referir ter medo de “entrar numa depressão” em virtude dos múltiplos desafios que envolvem a maternidade de uma criança com malformação:
Meu psicológico, eu acho que tudo a gente tem que trabalhar né? A gente tem que tentar, por que se eu me entregar eu vou entrar numa depressão, e meu filho, né? (Rosa).
A fala de Rosa, por um lado, remete a importância do cuidado à saúde mental das mães, que diante das múltiplas experiências, podem apresentar intensos sentimentos de tristeza, podendo, inclusive, desencadear quadros depressivos, tal como aponta outros estudos (Roecker et. al. 2012; Borges;
Pinto & Vaz, 2015; Cunha et. al., 2016). Por outro lado, mesmo diante do sofrimento psíquico causado pelos complexos fatores que envolvem a maternidade de uma criança com malformação, a principal preocupação da participante foi: “quem cuidará do meu filho caso eu entre numa depressão?” (Rosa).
Assim, apesar das dificuldades, notou-se que há aceitação e amor por este filho. Tais dados se apoiam nos estudos de Gomes e Picinini (2007), quando eles referem que apesar do impacto do diagnóstico, os pais tendem a desenvolver sentimentos positivos em relação à criança. Em outra fala, a participante diz que apesar de “lutar” pelo desenvolvimento do filho, ainda que de forma idealizada, afirma aceita-lo em qualquer condição:
A gente tem fé, a gente luta pra isso, pra que a gente chegue no topo com ele andando, com ele falando, mas se não, mamãe sobe com a cadeira de rodas dele até o topo (Rosa).
Os discursos de Rosa apresentam reações emocionais descritas no estágio do equilíbrio. De acordo com Klaus e Kennel (1993); Mazet e Stoleru (2003); Antunes e Patricinio (2007), tal estágio é caracterizado pela diminuição dos sentimentos de tristeza, sem o seu desaparecimento, bem como uma maior confiança dos pais na capacidade de tratar de sua criança, tal como ela se apresenta. Contudo, a adaptação ainda não estaria completa, havendo ainda momentos de labilidade emocional. Nessa direção, outra participante demostra reações emocionais semelhantes às de Rosa, também demostrando aceitação frente às limitações da filha:
Quero pelo menos que ela sobreviva e viva o ela está passando. E respeitar o momento dela, se não andar, vou ser mãe do mesmo jeito, sou uma mãe aqui pra empurrar a cadeira de rodas sem vergonha (Dália).
Diante da complexidade dos casos de SCZv, Dália compreende que a filha tem grandes possibilidades de não conseguir andar, o que para ela representou “aceitar aquilo que ela está passando”, ou seja, aceita-la tal como ela é e se reorganizar de forma duradoura em função das suas possíveis necessidades. Observamos no discurso de Dália características também
encontradas no estágio da reorganização. Este estágio caracteriza-se por ser uma fase em que o bebê passa a ser visto como uma criança com necessidades especiais, ao passo que as fragilidades vividas anteriormente são substituídas por um sentimento de capacidade crescente para enfrentar a situação. Em outra fala, Dália exalta crescimento pessoal a partir da experiência com a filha com SCZv:
Eu costumo dizer que Lívia me ensinou a amar (...) Ser uma pessoa diferente (...) Até eu mesmo eu já tive preconceito, depois da Lívia eu não sei mais o que é preconceito com ninguém. Lívia me ensinou o que é o amor (Dália).
A possibilidade de ver aspectos positivos na maternidade de uma criança com malformação indica uma tentativa de adaptação e aprendizagem das mães a uma situação inesperada e dolorosa. Assim, observou-se que a percepção de crescimento pessoal frente a uma experiência de malformação do filho é um fator que contribui para ressignificação dessa maternidade, indicando aspectos do estágio da reorganização.
Para a maioria das participantes, o enfretamento das situações difíceis só foi possível em virtude do sentimento de amor, a força motriz que as fazem lutar por melhores tratamentos e inclusão social. Os discursos nos sugerem a presença de sentimentos ambíguos. Assim, se por um lato as experiências maternas representam sofrimento e dor, por outro, representam resistência e ressignificação.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS DE UMA “PSICÓLOGA PESQUISADORA” NO