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A morte também pode ser vivida, com menor freqüência, como alívio para o sofrimento. Fica claro que por mais que a enfermeira sofra com a morte da criança, ela também não se sente bem ao vivenciar o sofrimento da criança e muito menos o sofrimento dos pais dela. Conviver com uma criança doente e sem expectativa de melhora faz com que a enfermeira se sinta aliviada quando essa criança vai a óbito, pois ela acredita que a morte traz alívio para o sofrimento de dor, de vida vegetativa, de doenças crônicas.

Muitas vezes, a enfermeira passa por uma situação de luta consigo mesma, já que ela deseja a morte de uma criança, o que vai contra todos os seus preceitos de combater a morte, mas o sofrimento da criança e o da família é tão grande que a morte passa a ser um alívio, apesar de todo o sofrimento, agora da perda, como pode ser percebido nas seguintes falas:

[...] quando a gente se vê diante de casos tão graves, a criança com sofrimento de dor, com sofrimento de drenos, com prótese, com oxigênio em casa, aí você fala – ‘Será que essa morte não vai ser bom porque ele vai parar de sentir isto tudo, será que não é muito egoísmo da gente querer que esse menino fique com essa família mas nessas condições, será que não está

na hora dele realmente subir, ir embora’? (Rafa)

[...] tem hora que a gente não aceita, mas diante de alguns casos de tanto sofrimento, você até pede para que vá e vá com Deus, para que não fique

nesta mexeção. (Rafa)

[...] se tem menino que é todo sindrômico, que não tem expectativa de vida e prognóstico nenhum, e o povo fica investindo nos meninos e você fica pedindo pelo amor de Deus pro menino ter sossego. É esta a palavra. Para ele ter sossego e para os pais terem sossego. Que às vezes é um menino que está totalmente dependente, vegetando numa cama, é esta a palavra. Não conecta com nada, respira através de aparelhos e dá um trabalhão para os pais, apesar de que, a mãe e o pai não enxergam isto, claro que não, eles querem mais é a vida do filho. Mas eu acho que por este lado os pais ficam egoístas, eles se culpam às vezes por os filhos estarem desta forma, então eles querem mais que os filhos vivam. Mas não é desta forma. Aí a gente já estava pedindo para um menino deste nem ficar com a gente. A gente pede

mesmo que descanse. Eu acho que tem que ser isto. (Ju)

Quando você tem uma criança que você sabe que é inviável, uma criança que está sofrendo muito, de uma certa forma te abala, mas não te abala tanto, né? Você fica com pesar, mas às vezes você fala assim: ‘Graças a

[...] a gente que trabalha em centro de terapia intensiva sabe que tem certas patologias que o final é a morte. Então, assim, tem vez que a gente fica até pedindo pelo amor de Deus para aquela criança morrer, porque o

sofrimento é muito grande. (Ana)

Se a criança estava grave, tão grave a ponto de deixá-la sequelada, eu falava assim: ‘Não, ela tem que morrer mesmo, porque ela está muito sequelada, a família vai sofrer, a criança vai sofrer, então você, claro você fazia tudo ali para a criança sobreviver, mas se ela não sobrevivia, você

falava assim: ‘Oh! foi melhor para todo o mundo daquele jeito.’ (Lê)

[...] Deus é tão grande, é tão generoso, será que não são os desígnos também, será que não era a hora daquela pessoa? Porque às vezes a pessoa vai parar no melhor médico, no melhor pronto atendimento e ela morre. Era a hora dela. Não adianta ela ir no melhor médico e no melhor pronto

atendimento porque ali era a hora dela. (Jô)

As enfermeiras, em seus discursos, dizem que existe um momento em que elas vão contra tudo o que aprenderam cientificamente. Isso se deve à dor sentida por elas diante de uma criança sofredora no processo de morte e morrer. Muitas vezes a patologia é tão grave que deixa seqüelas tão intensas que a possibilidade de manter uma vida sem sofrimento com qualidade é praticamente nula. Diante desses casos, as enfermeiras desejam a morte como alívio para aquela situação complicada.

De acordo com Schütz (1972, p. 202),

como observador direto, posso captar não somente as manifestações exteriores sim também os processos nos quais se constituem as vivências conscientes que estão por trás delas. Isto é possível porque as vivências do outro ocorrem simultaneamente com minhas próprias interpretações subjetivas de suas palavras e gestos.

As enfermeiras vivenciam, numa relação de intersubjetividade com as crianças que estão no processo de morte e morrer, todo seu sofrimento de dor, de tristeza. Elas percebem, pelos gestos, expressões, fácies e até mesmo pelo conhecimento científico, que existe um grande sofrimento na criança gravemente enferma. De acordo com Schütz (1972), na imediatez espacial do outro, seu corpo está presente para mim como um campo de expressão de suas vivências. É por essa relação de intersubjetividade, pela percepção da vivência sofrida com a patologia, que a enfermeira chega a desejar a morte como alívio para a criança.

Para Nascimento (1993), a situação biográfica de cada indivíduo é, assim, sedimentada pelas experiências humanas anteriores, organizadas e interpretadas segundo sua

reserva de conhecimento disponível. A enfermeira, diante de uma situação de sofrimento, de casos de patologias sem expectativa de uma vida de qualidade, luta contra suas próprias vivências adquiridas ao longo de sua vida social e acadêmica. Por mais dolorosa que seja a morte, existe um momento em que ela é desejada, no sentido de aliviar o sofrimento da criança, de sua família e da própria enfermeira.

E é nesse momento de grande angústia para a enfermeira que a morte como finitude pode se apresentar como possibilidade mais concreta e próxima para aquelas pessoas doentes hospitalizadas que são portadoras de doenças crônicas incuráveis (BELLATO, 2001).

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