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Sentir, perceber e experenciar o meio ambiente

1.2 Um olhar acerca das internalidades, a construção do hábito

1.2.1 Sentir, perceber e experenciar o meio ambiente

Ao longo de sua obra Tuan (1980) constroi a partir da percepção dos sentidos o ―situar- se‖ do ser humano no mundo, o qual perpassa por várias etapas da vida do sujeito começando pela infância, na qual a criança pequena tem um seleto repertório de poucas experiências ainda não suficientes para que tenha ampla consciência de suas ações.

O mundo da criança pequena está reduzido aos seus arredores imediatos; por natureza, ela não é uma observadora de estrelas. Ver a paisagem requer, antes de tudo, a habilidade de fazer distinção nítida entre o eu e os outros, uma habilidade ainda pouco desenvolvida na criança [...]. O mundo da criança pequena, portanto, é animado e consiste de objetos vívidos, nitidamente delineados em um espaço pobremente estruturado (TUAN, 1980, p.64-65).

Percebe-se que ao erguer-se do chão e não mais engatinhar, ao deixar os brinquedos em seu mundo em miniatura para explorar o ―mundo de verdade‖, ainda limitado, a criança amplia sua percepção e habilidade conceitual e vai construindo seus espaços significativos, em gosto, cheiro, cores, afeições e antipatias, medos e alegrias.

Segundo Schiffman (2005, p. 02) alguns leitores confundem sensação com percepção, sentir refere-se ao ―[...] processo inicial de detecção e codificação da energia ambiental [...] contato inicial entre o organismo e o meio ambiente‖. Assim as chamadas experiências imediatas ficam ―impressas‖ na consciência vinculando aspectos qualitativos como: mole, duro, quente, frio, que podem ser ligados às experiências como a sensação de um choque elétrico, ou de uma queimadura no fogão. Já a percepção refere-se ―[...] ao produto dos processos psicológicos nos quais significado, relações, contexto, julgamento, experiência passada e memória desempenham um papel.‖ (SCHIFFMAN, 2005, p. 02). Pode-se observar uma abordagem do processo de percepção em relação aos hábitos na figura (1.6) a seguir:

Logo a seguir pode-se observar na figura 1.7 outra abordagem baseada em Del Rio (1996) na qual as sensações aparecem como primeiro contato do ser humano com o ambiente.

Os sujeitos coletam ―informações sensoriais‖ do ambiente formando bases de conhecimento através das experiências, podendo assim refletir, inferindo juízo. No entanto, deve-se atentar no sentido de que nem toda experiência é educativa:

Uma experiência pode ser tal que produza dureza, insensibilidade, incapacidade de responder aos apelos da vida, restringindo portanto, a possibilidade de futuras experiências mais ricas. Outras poderão aumentar a destreza em alguma atividade automática, mas de tal modo que habitue a pessoa a certos tipos de rotina, fechando- lhe o caminho para as experiências novas (DEWEY, 1976, p.14).

Enquanto a percepção é um processo interior, a experiência volta-se para o mundo exterior, para as relações com o outro e o ambiente. A percepção atribui significado as ações com base nas experiências passadas, considerando que a experiência não precisa ser contínua, esta pode ser única, e mesmo assim marcante e significativa. Deve-se considerar inclusive a importância do ―valor‖ como fator importante para o sujeito em suas práticas de consumo, não somente o valor monetário de um bem, mas principalmente a estima e apreço do sujeito. Em conseguinte pode-se considerar como aspectos subjetivos de ―valor‖.

Figura 1.6 - Processo de percepção. Fonte: Rosana R. Siqueira/2011.

Apreciação feita pelo indivíduo da importância de um bem, como base na utilidade e limitação relativa da riqueza e levando-se em conta a possibilidade de sua troca por quantidade maior ou menor de outros bens. [...] apreciação subjetiva, que revela as preferências pessoais de cada pessoa, segundo suas tendências e influências sociais a que está submetida. (DICIONÁRIO MICHAELIS ON LINE. Disponível em: <(http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues- portugues&palavra=valor>. Acesso em: 04 ago. 2011).

MacDaniel e Gates (2004, p.182) sugerem que o estudo do processo de decisão contribui para um maior entendimento das questões relativas ao consumo. A figura (1.8) busca sintetizar este processo:

Os estudos no campo da administração e da psicologia apresentam diversas teorias com foco na motivação dos sujeitos. Neste sentido faz-se necessário destacar a Teoria das Necessidades de Maslow por apresentar aspectos inerentes aos estudos relativos ao consumo, uma vez que aborda a questão das necessidades. O reconhecimento de uma necessidade por parte do consumidor (figura 1.9) é o primeiro passo para que possa sentir-se estimulado a comprar algum produto. As discussões perpassam sobre a dúvida se as estratégias de marketing e a publicidade podem ou não criar novas necessidades, muitas delas observadas como supérfluas.

Figura 1.8 - Modelo integrado do processo de decisão do consumidor. Fonte: Baseado em BLACWELL, R. et al., apud MacDaniel e Gates 2004, p.182.

No início da década de 40 no século XX, Abraham Maslow (1908-1970) desenvolveu uma teoria sobre hierarquia das necessidades, baseada no princípio básico de que uma necessidade ―não satisfeita‖ é um motivador de comportamento. Assim após pesquisas Maslow considerou que os sujeitos possuem necessidades de caráter emergente (primárias) e outras que se sucedem (secundárias). Desta forma enquadram em necessidades primárias, a fome, sede, sono, e outras de caráter fisiológico, acrescida pela necessidade de segurança, representada pela fuga dos perigos e mecanismos de defesa.

Como aspecto secundário pode-se destacar as necessidades sociais, de estima e auto- realização. Assim, de acordo com a Teoria das Necessidades de Malow, após satisfeitas as necessidades primárias, o sujeito é motivado a suprir as demais necessidades, de caráter secundário. Logo a seguir pode-se observar na figura 1.10 a Pirâmide de Maslow, na qual está distribuída a hierarquia das necessidades:

Embora tenha influenciado diversas pesquisas e outras abordagens, a Teoria das Necessidades de Maslow possui pontos críticos que merecem ser analisados. De acordo com Barbosa (2011), o consumo não ocorre em estratos hierárquicos, ao mesmo tempo em que um

Figura 1.10 – Pirâmide das Necessidades de Maslow. Fonte: Baseado em Chiavenato, 2002, p.113.

Figura 1.9 - Processo de decisão do consumidor. Fonte: Baseado em Kotler e Amstrong (2008, p. 136)

sujeito se alimenta pode satisfazer necessidades de status, de estima. Em consonância a autora salienta a dificuldade de estabelecer o que é necessário e o que é supérfluo, visto que os sujeitos possuem diferentes percepções de acordo com seu estilo de vida, ―[...] Quando usamos as categorias supérfluo e necessário tendemos a moralizar o consumo dos outros.‖ (BARBOSA, 2011), considerando que a Teoria das Necessidades apresenta várias outras limitações, entre elas o aspecto múltiplo de poder suprir várias necessidades de forma simultânea, a exemplo de um jantar de negócios, no qual pode-se obter auto-realização, saciar a fome e estabelecer laços de estima em uma só situação.

É um traço marcante da contemporaneidade a propensão dos sujeitos em buscar atividades e situações em que possam ser desenvolvidos variados tipos de inter-relações, sejam elas comunicativas, emocionais ou mesmo profissionais, que venham a saciar necessidades e desejos específicos. Para os adolescentes participantes deste estudo esta busca é constante.

1.3 Um olhar acerca das externalidades: pensar o consumo, sob um viés global e