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1. Perspectivas teóricas e metodológicas de análise discursiva: ACD e ISD

3.2 Identificar os obstáculos vinculados ao problema: as teias da escravidão na cana

3.2.2 A relação da semiose com as práticas envolvidas: Brasil, uma senzala continental

3.2.2.2 Senzala moderna: o reconhecimento do problema

Apesar de a Lei Áurea ter completado mais de 120 anos de existência, o Brasil ainda registra centenas de casos de “trabalho análogo ao de escravo”, expressão utilizada pelo artigo 149 do Código Penal para se referir a situações em que o trabalhador é sujeitado a condições desumanas de trabalho e não consegue desligar-se do seu patrão por fraude ou violência, ou quando é forçado ou obrigado a trabalhar além da jornada de trabalho legal de 8 horas corridas.

Atualmente, a Constituição prevê de dois a oito anos de prisão para quem submete o trabalhador ao cerceamento da liberdade, à impossibilidade de se desligar do serviço, à servidão por dívida, a condições degradantes de trabalho e a jornada exaustiva. Ainda assim, muitos empresários e agricultores realizam essa prática para baratear os custos da produção.

Desde 1957 (quando o governo brasileiro ratificou a Convenção nº 29, sobre Trabalho Forçado ou Obrigatório), o Brasil passou a tomar medidas legais para controlar o problema. No entanto, só em 1971 o tema é exposto publicamente através da Carta Pastoral “Uma Igreja da Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social”, redigida por D. Pedro Casaldáliga, hoje, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia-MT. O documento denunciava a realidade de trabalhadores submetidos ao trabalho escravo e impulsionou a criação da CPT, quatro anos após sua publicação. A CPT, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), passou a atuar junto à população trabalhadora rural, com serviços de assessoria e coleta de denúncias. Anos depois, a Nova Constituição de 1988 passou a conceituar a “função social da propriedade” e a exigir necessariamente “a observância das disposições que regulam as relações de trabalho”, utilizando-se um modelo trabalhista que “favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores”.

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Mesmo havendo, desde 1985, denúncias contra o governo brasileiro sendo feitas à OIT, apenas em junho de 1992, durante uma conferência anual, a OIT cobrou explicações do Brasil, expondo-o internacionalmente. No ano seguinte, mais 8.986 denúncias foram feitas.

O MTE registra que, de 1995, quando o Grupo Especial de Fiscalização Móvel foi criado, até 2013, mais de 44 mil pessoas foram resgatadas do trabalho escravo no país. Esse número foi intensificado a partir de 2005, quando teve início o primeiro Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, atualizado em 2008 pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos.

O plano aponta metas e estratégias que são utilizadas não só para erradicar a situação do trabalho escravo no Brasil, mas também para promover a qualidade de vida dos trabalhadores. Tem a missão de implementar ferramentas para que o setor empresarial e a sociedade brasileira em geral não comercializem produtos de fornecedores que usaram qualquer tipo de trabalho escravo.

De acordo com dados da CONATRAE, 68,4% do que foi estipulado já foi concluído ou está em conclusão, um avanço reconhecido pela OIT. Ainda assim, os casos de escravidão no Brasil são recorrentes. Só em 2012, foram localizados 2750 trabalhadores em condições de escravidão. Um aumento de 14,3%, comparado ao número de casos registrados em 2011.

Os homens com idade entre 18 e 44 anos, analfabetos ou que tenham estudado apenas até o quarto ano, são as principais vítimas do trabalho escravo na zona rural do país, onde trabalham especialmente na pecuária bovina, no desmatamento, na produção de carvão para siderurgia, na produção de cana-de-açúcar, de grãos, de algodão e de erva- mate. O Pará é o campeão na utilização de mão de obra escrava e o Maranhão, o principal fornecedor dos trabalhadores.

A Conatrae explica que o principal motivo dessa centralização na região norte do país, ainda é consequência da SUDAM (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia), criada no governo de Castelo Branco, que facilitou o acesso à terra e barateou a mão de obra, com o objetivo de desenvolver economicamente a região amazônica. Essa medida acabou gerando alta concentração de propriedades nas mãos de grandes empresas e o empobrecimento da população rural e indígena.

Na zona urbana, os emigrantes sul-americanos que chegam ao Brasil em busca de trabalho vindo em sua maioria da Bolívia, Paraguai e Haiti são as principais vítimas de exploração na indústria têxtil. O setor de construção civil também registra regularmente

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casos de empresas cometendo infrações ao artigo 149 do CP, que dispõe sobre essa prática ilegal.

Dados da CPT, OIT, MTE e da ONG Repórter Brasil dão conta de que os trabalhadores são recrutados, na maioria das vezes, de um estado para outro, facilitando a prática de exploração do trabalho. Esse deslocamento ocorre do estado de sua naturalidade até outro estado bem distante. O maior fluxo de migração – cerca de 800 trabalhadores ao ano – é do Maranhão em direção ao Pará. O segundo fluxo, do Tocantins para o Pará, envolve em torno de 600 trabalhadores. O terceiro é constituído por cerca de 400 trabalhadores que migraram do Maranhão para o Tocantins. A quarta categoria destes fluxos, até 200 trabalhadores, indica que as saídas do Paraná, Distrito Federal, Bahia, Alagoas, Maranhão destinam-se ao estado do Mato Grosso.

No setor canavieiro da produção do etanol, o problema se generaliza e encontramos denúncias por várias partes do país. O trabalho árduo, estressante e degradante do corte da cana produz, anualmente, inúmeras denúncias de trabalhadores escravizados. O procedimento escravocrata do setor não difere dos demais casos registrados na zona rural, em fazendas com plantações agrícolas ou criações pecuárias, carvoarias, madeireiras, áreas de desmatamento etc.

Na escravidão moderna, o “gato” é o encarregado de recrutar mão-de-obra e empregar aqueles que têm como única opção aceitar uma oferta de trabalho em lugares distantes e desconhecidos. Esses trabalhadores acabam não encontrando condições próprias para o trabalho e se endividam para trabalhar. São obrigados a comprar do patrão as ferramentas, a comida e a pagar pelo transporte que os levou ao local de trabalho. Com um salário menor do que o esperado, a dívida vai se acumulando e fica difícil de solver. Também não recebem cuidados com a saúde e são subjugados com ameaças e violência física e psicológica.

Em 2004, o Brasil reconheceu perante a Organização das Nações Unidas a existência de ao menos 25 mil pessoas submetidas anualmente à condição de escravos em seu território, referente ao trabalho rural, segundo estimativa obtida pela CPT. Essa estimativa em sido confirmada pelos grupos de fiscalização móvel e utilizada como referência por entidades que atuam no combate a esse crime.

O reconhecimento do problema tornou-se um marco para o desenvolvimento de estratégias legais e ações para se tentar a sua erradicação.