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Separar, Cair, Quebrar – Agonia e Fragmentação

CAPÍTULO 4. MARIANA, SUA TRAMA E O TRAUMA: O CASO

4.2. O Encontro com Mariana

4.2.2. Separar, Cair, Quebrar – Agonia e Fragmentação

Mariana chegou para a sessão com 10 minutos de atraso, dormindo no colo da cuidadora. Tive a sensação de estranhamento tanto com o atraso quanto com o sono de Mariana, uma vez que ela geralmente chegava antes do horário da sessão e sempre muito bem disposta.

Enquanto Joana se desculpava pelo atraso, explicando-me como os empecilhos do trânsito e da meteorologia haviam impedido a chegada no horário para a sessão, peguei-me refletindo sobre esta palavra: “atraso”. Mariana e Joana haviam se atrasado em 10 minutos, e a sessão em si havia se “atrasado” em uma semana para ocorrer. Isto se deu uma vez que Mariana e a cuidadora viajaram na semana precedente, cancelando uma sessão.

Mariana expressou dificuldades em acordar. Era como se ela estivesse “desligada”, sem se mover no colo de Joana, apesar dos estímulos do toque e da fala da cuidadora. Com muita dificuldade, Mariana foi acordando, expressando-se por grunhidos e gestos. Apesar de, nos dois atendimentos anteriores, termos realizado as sessões sem a presença de Joana no consultório, Mariana não quis ir para a sala de atendimento sozinha comigo, expressando hostilidade e raiva direcionados a mim por meio de seu corpo e de seu olhar.

Fomos para a sala de atendimento com Mariana no colo de Joana. Quando chegamos, ela desceu e se encaminhou para os brinquedos, tocando-os e mudando-os de lugar de maneira desfocada, sem olhá-los na maior parte do tempo. “Hoje só tem tia Joana, eu só

brinco com a tia Joana, não tem ná, ná ná, tia hoje, nada”, disse Mariana, sem me olhar e se movimentando sem foco pela sala. Joana se sentou em uma cadeira no canto da sala e lá permaneceu em silêncio durante toda a sessão.

Mariana movimentou-se pelo consultório por alguns minutos, nos quais permaneci calada, observando-a. Após algum tempo, fiz alguns comentários sobre como Mariana estava chateada comigo, sentindo que eu havia sumido, e como me parecia estar muito triste e angustiada, sem saber como agir naquele nosso ambiente – um ambiente que ela tinha certeza de ter se quebrado, sumido para sempre com a demora que foi para voltar. Enquanto lhe falava, Mariana se dirigiu para algumas peças de madeira e começou a empilhá-las, construindo uma torre bem alta.

Sua postura era rígida e imóvel, contrastando com seu corpo segundos atrás, desfocado e agitado pela sala. Mariana começou a falar, fazendo demandas de brinquedos em tom de voz automático, sem expressividade – “quero desenhar”, “quero bebês”, etc. Tive a impressão de Mariana estar fazendo um esforço muito grande para defender-se de uma angústia desorganizadora, imensurável. A pilha de peças estava bem alta e tensamente equilibrada, assim como Mariana.

Eu estava sentada ao seu lado, fitando-a neste esforço. Em dado momento, Mariana voltou-se para mim, olhando-me com expressão de vazio, o corpo tenso. Disse-lhe que estava vendo como estava sendo difícil para ela ficar inteira, como estava agoniada e triste, mas que eu estava ali junto com ela de qualquer forma, mesmo ela não estando bem. Segundos depois, a torre de blocos de madeira desmoronou, fazendo grande barulho, assim como Mariana.

Ela voltou a mostrar-se muito agitada corporalmente, emitindo sons diversos e gritados. Com duas armas de brinquedo nas mãos e duas flautas em sua boca, Mariana “atirou” na sala toda, assim como soprou as flautas com intensidade. Ela tensionava todo seu corpo nestas ações. Chamou minha atenção como, ao contrário das outras sessões em que

brincamos com as armas, Mariana parecia estar atirando no campo da realidade concreta, de forma que sua expressão facial transmitia a sensação de uma experiência real e muita agressividade no ato de atirar.

Os sons emitidos pelas flautas, altos e agudos, me pareciam gritos. Gritos fortes, rasgados. Gritos de raiva, de tristeza, de desespero, de dor. Eles se misturavam aos barulhos de “tiros” das armas de brinquedo, de forma a dar a impressão de uma experiência de algo violento. O rosto de Mariana expressava grande angústia, e seus olhos lacrimejavam.

A sala de atendimento estava ocupada pelo excesso de sons, de gestos, de afetos. A cena era de grande transbordamento, e Mariana parecia evidenciar os furos daquele ambiente – os meus e do consultório. Afinal, eu sumi para Mariana no contexto desta separação prolongada. E, na presença de seus excessos, o que eu podia oferecer-lhe era uma companhia continente, recebendo e não sendo destruída por seus transbordamentos.

Após vários minutos, Mariana soltou as armas e as flautas no chão de maneira automática, como se, de repente, aqueles objetos que estavam colados ao seu corpo se desligassem e despencassem no chão. Mariana permaneceu parada por alguns segundos e, em seguida, pegou algumas bolas pequenas no canto da sala.

Fitando-me, Mariana jogou as bolas com força no chão, observando-as quicar. Após repetir este movimento algumas vezes, Mariana jogou duas bolas em minha direção, sem olhar-me. Peguei-as e passei a repetir seu movimento com as bolas, imprimindo com meu corpo a intensidade da força e as sensações de agonia que ela parecia me transmitir. Estes meus movimentos pareceram estimular os de Mariana, que passou a me olhar e a imprimir mais intensidade em suas ações.

O quicar das bolas durou pouco tempo. Logo, Mariana passou a cair junto com elas no chão, levantando-se segundos depois e repetindo a ação. Eu repetia as ações junto com ela, nas quais mantínhamos contato pelo olhar. Mariana estava muito agitada durante toda esta

sequência de cair. Ela ria muito, mas um riso extremamente angustiado, que soava como um choro.

É interessante notar como Mariana, a partir da minha presença, sentiu-se segura para vivenciar e expressar sua angústia, seus excessos e seu desamparo no contexto desta sessão. Mais ainda, chama a atenção como Mariana pôde ir fazendo a passagem de uma sensação que extravasa para representações e comunicações direcionadas a mim sobre o que se passava dentro dela, ao ponto de ser possível cair no chão olhando para mim e representar a própria “morte”– a sensação de desamparo, de queda, e de desfalecimento mediante as separações.

Entretanto, a agitação e os movimentos representativos de Mariana não deram conta de sua dor. O choroso riso logo se transformou em ausência. Isto foi transparecido por uma mudança significativa no seu corpo. Ao cair, Mariana passou a não mais encenar uma morte, mas, de fato, “morrer”.

Digo isto uma vez que ela caía no chão com tom de desfalecimento, a cabeça pendendo para trás – como se o pescoço não sustentasse seu peso – e revirava os olhos. Em outros momentos, Mariana caía e permanecia com os olhos vidrados, inexpressivos, o teto os encarando. Seu rosto transmitia apatia, e seu corpo ausência de tônus muscular. Estes momentos contrastavam intensamente com a “euforia” demonstrada nos episódios precedentes, e me davam a impressão de um “desgarrar-se de si”, da presentificação no seu corpo de uma agonia de fragmentação e aniquilação.

Assim, o que Mariana estava vivenciando como uma representação na brincadeira com as bolas logo passou a ser experimentado no campo da vivência real. Mais do que uma experiência real, uma experiência de terror e de desorganização, de um desfalecer concreto. Na cena acima descrita, Mariana saiu do campo da simbolização e mergulhou no campo da experiência do sem sentido e da agonia, de uma sensação que é irrepresentável. Contudo,

Mariana o fez na presença do outro, em um ambiente seguro, que pôde testemunhar sua dor e acompanhá-la nesta vivência.

No encerramento da sessão, Mariana se angustiou muito, não me deixando arrumar a sala e se recusando a sair. Seu corpo mostrou-se muito agitado mais uma vez, e seu andar desfocado pela sala. Passados muitos minutos, e com o já atraso em encerrar a sessão, Joana, claramente incomodada, disse, “eu vou embora, vou deixar a Mari”. Com esta fala, a cuidadora se retirou do consultório e sumiu no corredor, deixando a porta aberta. Mariana, ao escutá-la e vê-la sair, paralisou. Ela caiu sentada no chão, os olhos mais uma vez petrificados, uma expressão de vazio.

Ao escutar a fala da cuidadora, senti um esmagamento no peito. Percebi este movimento de Joana como um não amparo ativo, um movimento no sentido de negar as sensações aterrorizadoras vividas pela criança e seu pedido de ajuda e sustentação (Ferenczi, 1934/1992). Movida por esta sensação contratransferencial, tracei uma pontuação com o intuito de interferir naquela reação – e, assim, na relação entre Joana e Mariana – de forma a promover um mínimo de amparo e segurança à criança, sustentando a possibilidade de uma separação que não fosse sentida como ruptura ou não-amor. “Volta aqui, tia Joana, que você sabe que você está brincando, mas a Mari não sabe. Ela tem muito medo e muita certeza disso ser verdade”, interferi.

Ao me escutar, a cuidadora, rindo nervosamente, retornou à sala de atendimento, permanecendo junto à porta. Pouco depois, Mariana passou a ter uma expressão mais afetiva no rosto. Em seguida, olhou-me e disse, “eu gosto muito da tia Nadja”. Mariana abraçou-me fortemente e, apesar de contrariada, concordou em se arrumar e encerrar a sessão.

Senti que algo importante ocorreu na análise de Mariana após este atendimento. Apesar de nossa separação ter sido excessiva para ela, a possibilidade que a criança teve de vivenciar sensações tão intensas junto a mim, expressando tanto sua desorganização interna

quanto seus sentimentos hostis em um ambiente que não é destruído pelos seus transbordamentos, parece ter sido importante. Eu digo importante tanto porque foi uma experiência que se revelou terapêutica em si quanto porque lhe possibilitou “desfalecer” na presença do outro, em um ambiente que pôde sustentar suas sensações e lhe permitir vivenciá-las de fato, talvez pela primeira vez (Ferenczi, 1934/1992; Winnicott, 1963/2007).

Mariana parecia estar vivenciando sensações precoces e inomináveis no contexto da sessão, como se a experiência da vivência traumática estivesse sendo retomada em um novo ambiente, mais seguro e confiável do que aquele envolvido no estabelecimento do trauma. Esta sessão foi como uma vivência ao extremo de uma dor desorganizadora, mas cuja possibilidade de experimentar na minha presença pareceu promover alguma espécie de integração destes afetos no interior da criança. Vivenciando tamanhas agonias no contexto de nossa relação transferencial, Mariana pôde começar a “recordar” (Winnicott, 1963/2007).

A partir desta sessão, outras ocorreram em que a agonia e os momentos de fragmentação de Mariana se evidenciaram. Como esta sessão indicou, o corpo da criança expunha as consequências dos choques violentos vividos precocemente no conjunto de sua organização interna, apontando para suas marcas, suas efrações (Laplanche & Pontalis, 1987/2001). Neste sentido, a forma como Mariana se portava corporalmente nas sessões foi ganhando maior destaque em minhas observações, denunciando nuances interessantes às reflexões sobre trauma e sobre a clínica com crianças cujo processo de constituição psíquica se denuncia marcado por rupturas.