5 O FUNCIONAMENTO DE COMO, QUE NEM E TIPO
5.1 CONDICIONADORES LINGUÍSTICOS
5.1.4 Sequências Discursivas: descritiva, narrativa e dissertativa
A amostra de dados é constituída por 12 entrevistas nos moldes da sociolinguística variacionista, o que aponta a presença de diferentes sequências discursivas.
As sequências, embora sejam de trechos de conversação desenvolvidas com base na troca de turno, se caracterizam em três tipos: narrativa, descritiva e dissertativa, segundo Rost Snichelotto (2014), assim descreve sobre a sequência narrativa:
A sequência discursiva narrativa se constitui por relatos (predominantemente) de fatos ou fenômenos organizados em episódios. Remetem a acontecimentos ocorridos no passado, que podem se prolongar por um determinado tempo em que aparecem ambientes e pessoas. (ROST SNICHELOTTO, 2014, p. 5)
Segundo a autora, o entrevistador se põe como espectador e não participante, mas enfatiza ―que a suposta passividade do ouvinte/entrevistador é apenas aparente‖.
Apresentamos uma ocorrência do item tipo em sequência discursiva narrativa:
(66) Entrevistador – Os moradores daqui se reúnem para fazer alguma atividade?
Informante:- Ahm, perto ali da minha casa não.
Entrevistador – Mas tem um outro lugar que você sabe assim? Informante:- Não. Só daí teve um dia que minha vizinha, né que, quando eu comecei a morar ali. Ela trancou tipo, a rua e botou cama elástica, essas coisas, pra nós brincar que era dia, perto do dia das crianças. Daí nos fomos lá e brincamos. Daí minha mãe fotografou...e essas coisas. (PVMPOSC CF1-04)
Na ocorrência acima o informante relata um fato ocorrido no bairro e narra a sequência dos eventos transcorridos.
Outra sequência discursiva é a descritiva que conforme Travaglia (2007) vemos assim discorrer:
―O tipo descritivo vai se caracterizar por trazer a localização do objeto de descrição (não obrigatoriamente), características (cores, formas, dimensões, texturas, modos de ser, etc.) e/ou componentes ou partes do ―objeto‖ descrito. (TRAVAGLIA, 2007, p. 43)
Ainda, Rost Snichelotto (2014) atribui à sequência descritiva a seguinte caracterização:
[...]o informante, muitas vezes, pode valer-se de sequências descritivas para completar, para ensinar, para classificar, para explicar um fato/procedimento, ou ainda para caracterizar um objeto, uma pessoa ou um lugar. (ROST SNICHELOTTO, 2014, p. 8)
A seguir, apresentamos ocorrência do item tipo em sequências discursivas descritivas:
(67) Entrevistador- E dentro da casa, como que são os móveis?
Informante: - Ahm, tem a estante aqui né? E o sofá. Daí aqui passa, tipo um corredorzinho. Tem um banheiro, o meu quarto e o da minha irmã, o quarto do meu irmão e o quarto da minha mãe com banheiro. Daí aqui perto da sala tem o escritório do meu pai, a mesa assim, entrando tem a cozinha e tu, mais pra cá né, tem a... aonde minha mãe lava a roupa. (PVMPOSC CF1-04)
Na ocorrência (67) vemos uma de descrição de ambiente ao apresentar como é o interior da casa onde a informantemora.
A sequência discursiva dissertativa denominada por Travaglia (2007, p.60) a como a que ―busca-se o refletir, o explicar, o avaliar, o conceituar, expor ideias para dar a conhecer, para fazer saber, associando-se à análise e à síntese de representações;‖.
Complementando sobre a sequência dissertativa, Rost Snichelotto (2014) Constata que nesse tipo de sequência
[...] o falante/informante expõe determinado assunto político-social, religioso etc., explicita uma tese e apresenta argumentação favorável ou contraria, com a intenção de atuar sobre o outro (o ouvinte/entrevistador)e obter dele certa posição, aceitando ou rejeitando o que é transmitido etc. (ROST SNICHELOTTO, 2014, p. 9)
Vejamos a seguir uma ocorrência do item tipo em sequência discursiva dissertativa:
(68) Entrevistador: Tu acha que é importante essa língua? Informante: Acho. Eu acho que é.
Entrevistador: Por que que ela é importante?
Informante: Ah porque.... Como é que eu posso falar tipo, você nunca vai... Como é que você vai... Se você nunca aprende uma língua diferente, você nunca vai poder sair do Brasil tipo, você não vai saber conversar com outras pessoas de fora do Brasil, e geralmente quase todo mundo fala inglês. Os...Né. Que geralmente a maioria das pessoas vão para os outros países e a maioria fala inglês, então, eu acho que é importante. (PVMPOSC CF2- 08) Na ocorrência (68) o informante argumenta sobre a importância do conhecimento de uma língua estrangeira, no caso, a inglesa.
Dal Mago (2001) ao controlar a relação do “quer dizer” com os gêneros discursivos, verificou a quase insignificância em ocorrências descritivas e factuais, predominando as narrativas, seguidas das argumentativas e das opinativas. Apresenta como justificativa o fato de os informantes serem instigados a contar algo de suas vidas, por exemplo, o que levaria a contar ou narrar um fato. Rost (2002) também controlou este condicionante e demonstra que a sequência dissertativa é mais recorrente nos dados de sua pesquisa, seguidas pela narrativa e a descritiva.
O estudo desenvolvido por Lima-Hernandes (2005) não tratou desse aspecto.
Como hipótese geral acreditamos que o item seja mais frequente em contextos narrativos, pelo fato de as entrevistas conterem situações em que o informante necessite narrar episódios e fatos marcantes, acontecimentos próximos de si e/ou de seu cotidiano e favorecer seu envolvimento com o conteúdo e monitorar menos sua fala.
5.1.4.1 Resultados e análises
No total de 40 dados localizados na amostra do PVMPOSC, 11 dados (27,5%) ocorreram em sequências discursivas descritivas, 20 em sequências
narrativas (50%) e 9 (22,5%) em sequências dissertativas. Vejamos no Gráfico 4:
Gráfico 4 – Frequência de uso de tipo quanto à Sequência discursiva
Fonte: Elaborado pelo autor
Nossa prospecção geral se confirma de modo que o item ocorre em frequência relativamente maior na sequência narrativa, seguida descritiva e, por último, pela dissertativa. Verificamos que o item transita nas três sequências investigadas na amostra do PVMPOSC.
Esse resultado se aproxima ao de Dal Mago (2001) que teve sua maior ocorrência para as sequências narrativas, mas difere de Rost (2002), que verificou a sequência dissertativa sendo a mais recorrente, seguido pela narrativa e, por último, pela sequência descritiva. Essa diferença de resultado se deve ao fato de os itens apresentarem características de natureza diferentes entre si, favorecendo diferentes contextos de uso sendo mais recorrentes em determinadas sequências discursivas.