Pesquisadora 35 A minha grande curiosidade é saber de onde veio este instrumento, como ele foi criado? [ ] Por isso eu acredito que outras escolas devem estar
6 QUINTO DIÁLOGO: OS SENTIDOS DO SER-GESTOR-ESCOLAR E AS CONFIGURAÇÃO DE UM TESTEMUNHO.
6.2. SER-GESTOR-ESCOLAR EM COMPREENSÕES E SENTIDOS DE UM VIR-A SER
Anunciamos o ser-gestor-escolar em círculo hermenêutico das compreensões e dos
modos-de-ser-no-que-se-passa, modos-de-ser-no-que-acontece e modos-de-ser-no- que-toca em um discurso de possiblidade e projeção do ser-gestor-escolar do que
aparece visível e invisível na literatura e em questionamentos do gestor escolar em compreensões de um território de passagem.
A travessia em territórios de passagem demonstrou ser perigosa, exigindo cuidado ao prestar atenção e escutar o gestor escolar e tutelar sua fala como caminho de acesso ao ser. O sujeito da experiência e do impessoal foi posto à prova, podendo ser considerado autêntico e/ou inautêntico em territórios de experiências efêmeras, experiência e pobreza, experiência e trabalho, experiência e coletividade, experiência e subjetividade, experiência e paixão, experiência e política, intensidade de um questionar que toma a experiência como ponto de patida e de chegada.
O ser-gestor-escolar foi desvelado, revelado e testemunhado, como verá o leitor no próximo tópico, como um sujeito apaixonado, abertura ética-estética de ser-si-mesmo no mundo que não poderá ser transmitida, apenas vivida, contada como um registro histórico e projeto de ser, impossível de ser repetido, nos alerta o filósofo da Educação Jorge Larrosa.
A expressão vir a ser advém de “Pedagogia do Oprimido” (FREIRE, 1987), expressão que indica a existência de um espaço de liberdade que venha a divergir da autoridade, que se mostre em uma operação simpática na comunicação de uma complexidade. Porém, não é um tema recorrente nas obras de Freire (1987, 1986, 2006 e 2011) e não aparece nos mais de 230 temas relacionados a sua vida e obra. Em Critelli (2006), encontramos a expressão vir-a-ser como marca dos rumos que nenhum outro ente tem, o de ser anunciado em um leque de possibilidades. Compreendemos assim sua abertura para a construção epistemológica o ser-gestor-escolar.
Ao compreender-hermenêuticamente as manifestações da experiência e do círculo hermenêutico em que os entes anunciam o ser em pressupostos do simplesmente- dado, do ser-em, do ser-com e do ser-si-mesmo, encontramos um leque de possibilidade e inteligibilidade em um ir e vir, aparecer e desaparecer como dinâmica dos modos-de-ser-gestor-escolar na gestão de uma escola pública. No entanto, pensando na intersubjetividade dos modos de ser, elegemos três.
Pensar essas questões em um círculo-hermenêutico nos mostrou a tensão e a diversidade que configuram existencialmente a experiência de ser-gestor-escolar ao tentarmos compreender uma realidade, que o sujeito habita, no impessoal. Estar sempre à prova, ex-postos às coisas, aos instrumentos simplesmente dados, aos acontecimentos e aos estado de ânimos em sua cotidianidade, conforme apresentado densa e intensamente nos modos-de-ser-no-que-passa, modos-de-ser-no-que- acontece e modos-de-ser-no-que-toca.
O poder do discurso ontológico se mostrou na abertura das compreensões do ser- gestor-escolar enquanto aproximações e possibilidades em um território de passagem. Território advindo de um tempo marcado pelo impessoal, em meio às curiosidades, ambiguidades e falatórios. É no jogo das ambiguidades, falação e curiosidade que o ser-gestor-escolar corre o risco de cair. Sem fugir às compreensões do que Heidegger (2008) considera as disposições e/ou estado de ânimo. Os medos, os afetos, as paixões, a ansiedade, a culpa, a angústia, os sentimentos e o tédio se dão em meio a uma tendência à individualidade na cotidianidade, no impessoal, com o outro nas ambiguidades, no falatório, na curiosidade e na legitimidade do círculo hermêutico e vocação ontológica.
A cotidianidade do ser-gestor-escolar revelou um tempo chronos e de ações uniformizadas. O discurso existencial-fenomenológico revelou a intersubjetividade do ser-gestor-escolar em seus modos de ser da cotidianidade, ao permitir descrever compreensivamente o dia a dia, as semanas, os meses desvelando a vida, o pessoal, os acontecimentos, as emoções, os fundamentos e a formação dos professores, em experiências efêmeras no círculo hermenêutico nos modos-do-que-acontece na gestão da escola pública.
O ser-gestor-escolar ao assumir a escolha do vir-a-ser como possiblidade e vocação de ser, estará predestinado à compreensão de uma realidade que se desvela e revela, na fala das gestoras, em algo que poderá ser mera aparência (Critelli, 2006) e mostrar- se falsamente em uma realidade.
Compreender a realidade da gestão escolar em princípios democráticos em modos- de-ser-no-que-acontece é estar aberto a compreender o impessoal, sem se fazer silenciado, como compreensão de ser-si-mesmo. A realidade evidenciada na fala das gestoras mostrou-se marcada por falsas leituras de uma realidade. Na abertura de ouvir o outro, a aparência da escuta não contemplava a fala, e sim o falatório.
Na mesa, metáfora utilizada pelas gestoras para expressar momentos de abertura ao diálogo e aos questionamentos do grupo, o anúncio em pressupostos existenciais de ser mais ao expor publicamente uma situação e buscar ser eticamente correta ao ouvir os segmentos da escola (nesse caso, o magistério) antes de uma decisão. Elas denunciam o falatório, a falação, o blá, blá, blá ao ouvir o outro.
É no conceito de falação de Heidegger (2008), trigésimo-quinto parágrafo de “Ser e Tempo”, que o ser-gestor-escolar no cotidiano, como o sujeito do impessoal, poderá se perder após um pronunciamento. A fala enquanto expressão do ser deverá também ser compreendida enquanto leitura de uma realidade, leitura de mundo e comunicação.
O ser-gestor-escolar, enquanto sujeito do impessoal, ao expor publicamente uma situação, assume a tendência ontológica da fala em sua ocupação-função de responsável pelo espaço democrático em modos-de-ser-no-que-acontece. Assumindo assim as compreensões de permitir àquele que ouve, o ouvinte, participar do que foi pronunciado. Está em sua cotidianidade correr o risco da fala tornar-se autoritária, nos alerta Heidegger (2008) em “Ser e Tempo”. A falação não se limita apenas à repetição da fala e sim a se apropriar do que se fala sem compreender, assumindo a inautenticidade ao falar. Ela é em si um fechamento, nos diz o pensador (HEIDEGGER, 2008, p. 233).