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CAPÍTULO III: "SER AMBULANTE": ESTRATÉGIAS, DESAFIOS E

3. Ser informal: Sobre processos de tomada de decisão

Durante a pesquisa de campo tive a oportunidade de conhecer diversas histórias de vida de pessoas dos mais diferentes lugares do Brasil, cada um com uma trajetória extremamente particular e pessoal. Entretanto, pude observar, que no que diz respeito a entrada no setor informal, as histórias se convergem em muitos aspectos. Sendo assim, o objetivo dessa seção é compreender como os vendedores focalizam os

92 processos de escolha, a partir dos seus próprios relatos, evocando diferentes valores com o objetivo de se posicionarem frente a um cenário de precariedade de opções e desigualdade.

L., uma jovem de 31 anos e mãe de 3 filhos, conta que iniciou seu trabalho na Rodoviária depois que seu marido perdeu o emprego, o único sustento da casa. Na época com 24 anos, ouviu o conselho de uma vizinha de que era possível conseguir dinheiro vendendo balas nas filas de ônibus da Rodoviária. L., que não havia terminado o ensino médio, foi o marido em uma loja de doces em Ceilândia, onde reside, comprou uma caixa de bala Halls, pegou um ônibus para a Rodoviária do Plano e há 7 anos é vendedora. A história de L. reflete a importância de experiências de familiares ou conhecidos no setor informal. Muitos vendedores com os quais pude conversar relataram que tiveram contato a venda de balas e salgadinhos na Rodoviária por meio de parentes ou vizinhos que já haviam desempenhado esse trabalho antes. Não foram raras as oportunidades que encontrei irmãs, irmãos e cônjuges trabalhando juntos, o que pode apontar para a relevância da influência de familiares ou amigos no processo de tomada de decisão.

Por que eu escolhi esse emprego? Porque preciso ganhar dinheiro. Aqui a gente leva todo dia um dinheiro pra casa. Trabalhei muitos anos de carteira assinada, depois que perdi meu ultimo emprego eu não consegui mais. Minha cunhada já trabalhava aqui e me trouxe com ela. (S., 38 anos)

A fala de S. evidencia, além da questão familiar, outro aspecto comum entre as histórias que pude ouvir: a necessidade. Para muitos entrevistados, a dificuldade de reinserção no mercado de trabalho e falta de escolaridade, aliados a necessidade de ganhar dinheiro, foram as principais motivações que os levaram ao setor informal.

Se você for perguntar você vai encontrar poucas pessoas que queriam estar aqui... A gente tá aqui porque precisa. Se tivesse uma coisa melhor pra mim eu não ia ficar aqui. Eu preciso ganhar dinheiro pra levar leite pros meus meninos, uma fralda, um arroz... (K., 24 anos)

93 Todavia, apesar de ser um trabalho que não necessite de experiência ou escolaridade, isso não significa que seja um trabalho de fácil inserção. É necessário que múltiplas barreiras sejam ultrapassadas antes da entrada no mercado informal. Uma dessas barreiras diz respeito ao esforço de transpassar a vergonha e a exposição em público.

Imagem 8: Carrinho de mercadorias

Fonte: Jornal Metrópoles

K. tem 24 anos e há 2 anos trabalha vendendo doces nas filas do BRT. A jovem, casada e mãe e 2 filhos pequenos, afirma que os primeiros dias não foram fáceis, pois apesar de saber que é um trabalho honesto, não queria que nenhum conhecido a reconhecesse.

K: Eu chegava e ficava na minha, olhando pra baixo... Foi difícil, assim, o começo. Não vô te falar que foi fácil... Não queria que a galera do escola soubesse que eu tava aqui...

Pesquisadora: Por que?

K: Eu era muito boba no começo, achava que trabalhar aqui era a pior coisa do mundo... Mas é um trabalho digno, como qualquer outro, é meu sustento. Hoje eu entendo melhor...

94 Sendo assim, a escolha pela informalidade nem sempre se dá de forma fácil. Para os entrevistados foi preciso todo um esforço para dar o primeiro passo. O fortalecimento moral dos ambulantes vem com o tempo através do esforço cotidiano, da autonomia adquirida e das relações construídas. (Ostrower, 2007) Nesse sentido, os vendedores evocam valores morais positivos que os caracterizem como "guerreiros", "trabalhadores" ou "corajosos", uma vez que foram capazes de superar barreiras emocionais e sociais.

Para J. a dificuldade de se inserir no mercado formal a levou para a venda de água na Rodoviária. A mulher que já trabalhou como auxiliar de serviços gerais, passadeira e diarista afirma que hoje não consegue mais desempenhar as mesmas funções devido a idade e a necessidade de referência de trabalhos anteriores. Atualmente com 64 anos, a vendedora não tem mais esperanças de conseguir trabalho com carteira assinada, apesar de desejar muito.

Então ao longo de vinte anos... Que eu tô 20 anos que tô aqui na rodoviária... Era o fato de não conseguir vaga, não conseguir colocar currículo no mercado de trabalho que eu to aqui, vendendo água. E tenho seis filhos, criei praticamente todos os meus filhos aqui, né? [...] Eu, por exemplo, mandei muito currículo, fiz muita entrevista, e desisti porque eu preciso do dinheiro todo dia né. Então eu trabalho aqui das nove às dez da noite, todos os dias, de domingo a domingo. (J., 64 anos)

Como apresentado no capítulo anterior, 86% dos entrevistados afirmaram possuir outras experiências, porém ao enfrentarem períodos prolongados de desemprego encontram no mercado informal uma saída de emergência e uma possibilidade de sustento, sendo esta opção melhor do que a de permanecer no desemprego. Porém, também pude conhecer ambulantes que estão no mercado informal pelos rendimentos mais atrativos, pela satisfação pessoal de atender ao público, pela a ausência de hierarquia e pela liberdade de horários.

T. trabalha na Rodoviária com seu marido há mais de 8 anos e sente muita satisfação em ser ambulante. A vendedora afirma que é bastante inferiorizada quando

95 fala que trabalha como ambulante, mas que isso não importa porque segundo ela "muitas vezes tem mais dinheiro na carteira do que o pessoal que está nas filas fazendo cara feia". T destaca que adora se relacionar com o público e viver uma vida sem rotinas, podendo escolher seu horário de entrada e de saída, sendo a liberdade a a autonomia uma das maiores vantagens do seu trabalho.

Diante deste panorama, pôde-se verificar que a permanência e o acesso à informalidade ocorrem por diferentes motivos, inclusive podem ser considerados uma "válvula de escape" para o desemprego, podendo ser uma opção desejada e autônoma. No entanto, de acordo com Ostrower (2007), observou-se que apesar destas narrativas enfatizarem com orgulho a atividade do vendedor ambulante, essas atividades se situam na fronteira do ilegal e legal, e por este motivo se defrontam com determinadas regras as quais precisam ser superadas com o objetivo de estabelecer o trabalhador no mundo da rua e de se recompor moralmente. Levando em consideração o advento de novas formas de trabalho e do estreitamento dos direitos trabalhistas, cria-se um cenário no qual a fronteira entre o formal e o informal assume um caráter mais fluído, estabelecendo assim novas relações sociais e possibilidades de criação a partir de condições adversas. Sendo assim, frente a uma situação que carrega relações de hierarquia e disputa, os ambulantes acionam táticas de negociação que permitem o estabelecimento e a continuidade de sua atividade. Perante situações de carência material e desemprego, ao invés do indivíduo "permanecer em casa sem nenhuma atividade, é melhor trabalhar como ambulante". Deste modo, frente uma situação iminente do injusto ou ilegal, as pessoas optam pela condição na qual acreditam conferir mais dignidade, isto é, a condição de trabalhador.