ANTIRRACISTA E ANTISSEXISTA
E. Seria como o que bell hoocks discute sobre a “autoatualização”?
Sim! A autoatualização que ela apresenta no livro (hoocks, 2017) é como uma “luva” no meu atual momento da vida. Agora, no doutora-do, me vejo descobrindoutora-do, ou descortinando as vendas dos olhos que me fazem consciente não só de minha negritude, mas também do prota-gonismo feminino que possuo enquanto mulher e negra. Assim como no estágio de docência que estou realizando nesse semestre, sob a tua supervisão em uma turma de Didática na graduação das licenciaturas, estou aprendendo a me mover nas tramas das leituras didáticas junto com as leituras de protagonismo de mulheres negras.
Pensar a sala de aula como “curadora”, como um processo for-mador para quem ensina e para quem aprende foi para bell hoocks um soco na boca do estomago, pois ela constatou que isso não existia na academia. Como eu também observo que ainda não existe na escola.
Nas palavras dela, pensar a ou o intelectual, a ou o docente,
(...) como uma pessoa que buscava ser íntegra – num contexto em que pouco se ressaltava o bem-estar espiritual, o cuidado da alma. Com efeito, a objeti-ficação docente dentros das estruturas educacionais burguesas parecia depreciar a noção de integridade e sustentar a ideia de uma cisão entre mente e corpo, uma ideia que promove e apoia a compartimentali-zação. (hoocks, 2017, p.29)
E, neste diálogo, observo a importância de pensar um pouco mais sobre as coisas que acredito e faço em minha prática pedagógica. Creio que esse talvez seja meu maior aprendizado: aprender a relacionar as dis-cussões teóricas trazidas por bell hooks, às concepções e direcionamen-tos práticos apontados por Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva.
Minha vida profissional, desde o momento em que vem entre-cruzando temáticas de gênero e diversidade étnica, tem provocado o
pensar comprometido junto aos conceitos pedagógicos. Tento o tempo todo identificar e construir ações que envolvam a formação e a qualifi-cação das professoras e professores e da equipe diretiva das escolas no intuito de possibilitar suporte didático-pedagógico ao trabalho destes profissionais. E, assim por meio da educação, transformar a sociedade e a vida cotidiana de meninos e meninas, com a oportunidade de consti-tuírem consciências e se libertarem das correntes de preconceitos e dis-criminações. Não é um sonho impossível, mas é um trabalho por vezes solitário, que me faz buscar inspiração nas palavras de Bell Hooks:
Nós aprendemos que não temos o poder de definir nossa própria realidade ou de transformar estrutu-ras opressoestrutu-ras. Nós aprendemos a olhar para aqueles que são empoderados pelos mesmos sistemas de do-minação que nos ferem e machucam por algum en-tendimento de quem nós somos que será libertador e nós nunca achamos. É necessário para que nós faça-mos o trabalho por nós mesfaça-mos se nós quiserfaça-mos sa-ber mais sobre a nossa experiência, se quisermos ver essa experiência de perspectivas não moldadas pela dominação (HOOCKS, apud MESSIAS, 2016, p. 36).
E sigo meu caminho ainda que dentro de uma retórica que, as vezes eu me sinto um pouco sozinha, pois faço pelo coletivo aquilo que entendo ser bom para mim também. Observo que tenho um jeito de lidar com algumas situações racistas que outras companheiras ou companheiros negros não concordam. As reações deles me parecem extremamente radicais no que se refere às questões raciais. Eu entendo nossas dores e sofrimentos, entendo que temos direitos de igualdade e equidade, também me revolto com a injustiça e o racismo, mas ainda assim não concordo com o modo de denunciar e reivindicar seja atacar.
Penso que antes é necessário ensinar para oportunizar ao outro perce-ber que está errado e aí sim fazer as cobranças devidas, e por isso, as
Durante toda uma vida de escolaridade básica, me foram nega-das informações sobre minha história coletiva, ou seja, fui impedida de entender a história de meus antepassados. No lugar desta, foram reproduzidos elementos de uma sociedade que menospreza e julga as capacidades pela cor da pele, pelo gênero ou pelas opções sexuais, dis-criminando-as quando não seguem um padrão pré-estabelecido. Se não fossem meus pais e, mais especificamente minha mãe, uma mulher à frente do seu tempo, que apesar da pouca escolaridade e trânsito no mundo acadêmico, foi ela que me deu os elementos necessários para suprir as lacunas deixadas pela escola. Ela possui uma cultura e uma vivência gigantes. E hoje quando olho para todos os estudantes que transitam pela escola pública o que vejo são ausências enormes, não me refiro à frequência escolar, e sim da ausência daquilo que forma estes e estas estudantes para a vida cotidiana. Observo que há uma inoperân-cia da escola em cumprir o seu papel de formar por meio da educação.
As diferentes estruturas familiares que seguem não sendo consideradas pela escola, acarretam descompassos de nossos jovens, que crescem à revelia de acompanhamento e acabem muitas vezes sendo excluídos da socialização. E se “perdem na vida”, como dizia minha avó. É por estes estudantes que penso que a transformação da escola é um espaço de luta constante, antirracista e antissexista, é necessária.
Estou convencida de que não há incompatibilidades, se se concebe militância como ato de combater ativa-mente ideologias que cultivam e mantêm desigual-dades entre pessoas e grupos, tais como a do racismo, a da incompetência dos pobres, a do machismo; se se realizam pesquisas, com o objetivo, entre outros, de produzir conhecimentos que contribuam para sus-tentar a busca por justiça. Militância e pesquisa po-dem, pois, se combinarem num único esforço, com a finalidade de atingir compreensões de ações huma-nas, como a de se educar, indispensáveis para novas relações na sociedade (SILVA, 2011, p. 105).
E é nesse contexto de me “autoatualizar” com as leituras em hoo-cks (2017) que participo das lutas pelo fim das desigualdades e da injusti-ça racial e encontro a voz inquietada e inquietante de Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva a ecoar nos meus pensamentos e coração. Essas mu-lheres, ao transitarem entre os movimentos sociais, a universidade e os órgãos governamentais, elaboram e apresentam as “pedagogias engaja-das” de resistência (hoocks, 2017, p. 25) comprometidas com a inclusão e a emancipação da população negra, principalmente as mulheres negras.
A.C.S.S. - E você Professora Edla, como foi que chegaste no tema do antirracismo?
E.E. - Sou grata por ter tido estudantes negras ao longo da minha