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5. ANÁLISES E DISCUSSÕES

5.3 SERVAS E AIRBNB: APROXIMAÇÕES E DISTANCIAMENTOS

Nesta subseção serão apresentados as possíveis aproximações e distanciamentos entre as práticas no Servas e no Airbnb e, desses, com a partilha, observados após as análises anteriormente expostas. O primeiro ponto a ser abordado é o ambiente onde tudo se inicia: as organizações em si. O Servas se constitui em uma rede de contatos na qual os membros trocam informações e, a partir disso, se sentem seguros para estabelecerem confiança, o ponto de partida para as relações que se seguem. O Airbnb, disponibiliza uma plataforma online baseada nas informações contidas nos perfis dos usuários, principalmente as avaliações e comentários, como forma de construir um ambiente seguro para aqueles que utilizam a plataforma.

A rede estabelecida no Servas existe para que seus membros confiem uns nos outros e possam praticar os ideais da organização, baseados em pessoas abertas à novas experiências e novos aprendizados como forma de expandirem sua compreensão e de destruir preconceitos para que, assim, um mundo de paz possa ser construído. A rede Servas está a serviço, assim, da confiança. A plataforma online disponibilizada pelo Airbnb se propõe a servir a mesma finalidade: o estabelecimento de confiança para que seus usuários possam atingir seu fim. No entanto, enquanto no Servas, o fim será a formação de laços duradouros, no Airbnb, será a melhor relação custo-benefício, o melhor negócio. Enquanto no Servas, a rede está a serviço do laço, no Airbnb, a plataforma online está a serviço do cálculo mercantil que, por sua vez, se distancia do laço. A noção de rede, conforme presente em Godbout (1992), como o local onde as trocas do sistema da dádiva ocorrem, se aproxima do ambiente concebido no Servas ao mesmo tempo em que se distancia do ambiente onde as relações no Airbnb ocorrem, uma vez que o mesmo está a serviço do cálculo mercantil.

É em tal noção de rede que a confiança no Servas é estabelecida: os membros confiam uns nos outros por fazerem parte de uma rede com um claro objetivo em comum, o da promoção da paz por meio das relações sociais. No Servas a confiança serve ao laço, enquanto no Airbnb a mesma serve à relação utilitária, distanciando-se da partilha. No Servas, é a partir da relação de confiança estabelecida desde o primeiro contato que surge a relação de vínculo. A partir das falas dos entrevistados, seria de se espantar uma relação iniciada no Servas que se dissolva com o tempo. Por mais que não se tornem íntimos amigos, o vínculo estabelecido pelo laço gerado permanece e se conserva pelo interesse na relação social estabelecida, e não por qualquer busca por vantagem financeira, como pode acontecer no Airbnb.

Enquanto no Servas as relações têm como fim o vínculo, no Airbnb o fim objetivado é o retorno financeiro. Segundo os entrevistados, embora a relação de vínculo possa se estabelecer no Airbnb, a mesma não é a finalidade. A prioridade está em se estabelecer uma relação “profissional” entre alguém que disponibiliza um serviço e aquele que o consome. Como em uma relação de mercado, aquele que disponibiliza o serviço fica atento ao que o seu cliente demonstra necessitar. Os anfitriões se mostram atentos às necessidades de seus hóspedes. Assim, quando percebem que seus hóspedes buscam maior aproximação, os anfitriões buscam satisfazer tal necessidade estabelecendo maior aproximação com os mesmos. Afirmar que a relação é “profissional” não impede a ocorrência de outras relações. Exemplos disso são as trocas afetivas, conversas informais, passeios, jantares compartilhados entre anfitriões e hóspedes, expostas por alguns entrevistados. Assim, enquanto no Servas, têm-se claramente a noção de vínculo como fundamental para o estabelecimento das relações, no Airbnb, tal noção pode existir mas não é o fim almejado.

No que diz respeito à reciprocidade, os membros do Servas entrevistados, enxergam a mesma como uma relação de retribuição espontânea e voluntária. De acordo com eles, a reciprocidade esperada é o respeito, a compreensão e a convivência. Nas experiências do Airbnb, a reciprocidade é enxergada de forma difusa: enquanto um entrevistado afirma ser a “troca afetiva” uma forma de reciprocidade, outro afirma que o fato de haver troca monetária compromete tal troca. O fato de haver um pagamento pelo serviço de hospitalidade faz com que, para alguns, o mesmo já se constitua no retorno esperado. Ou seja, a retribuição financeira se torna a retribuição esperada.

Já no que diz respeito ao entendimento da partilha, as noções dos membros do Servas e dos usuários do Airbnb, parecem apresentar certa aproximação. Os membros do Servas vêm na

partilha uma oportunidade de trocar experiências, vivências, aprendizados, conhecimento, cultura, relacionamento humano; de partilhar sua maneira de ser e suas opiniões. Os usuários do Airbnb também esclarecem que, para além dos espaços físicos, partilham confiança, a vida, cultura, pontos de vista diferentes. A partilha em si é vista repleta de simbolismo. Tal simbolismo, no entanto, ao passo que fica claro nas relações estabelecidas no Servas, aparece de forma tímida nas demais falas dos entrevistados do Airbnb. Ou seja, se, por um lado, os usuários do Airbnb compreendem a noção de partilha, por outro, a prática da mesma é, por vezes, sobrepujada por uma relação utilitária.

A relação “profissional”, ou mercadológica, nesse caso parece falar mais alto. Nesse tipo de relação, estabelecida pelos entrevistados do Airbnb, é possível observar a forte presença da busca pela vantagem financeira como o principal componente das mesmas. Seja pela economia, a partir da visão dos visitantes, seja pelo ganho financeiro, visto a partir do anfitrião, o cálculo e a busca pela equivalência, característica das relações de mercado falam mais alto nas relações intermediadas pelo Airbnb. Assim, muito embora os entrevistados usuários do Airbnb demonstrem ter percepção do que é partilha como uma prática que transcende a troca material, os mesmos admitem a não existência da mesma nas relações estabelecidas no Airbnb ao afirmarem existir uma relação de mercado que se impõe e se torna maior do que qualquer outra forma de relação.