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3.3 Medida Protetiva de Acolhimento Institucional

3.3.1 Serviço de acolhimento de crianças e adolescentes

que está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) e no documento elaborado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) e Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) (2009), denominado Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes. Rossetti-Ferreira et al. (2012) constataram a “necessidade de um mergulho na história dessas instituições e, ao mesmo tempo, na observação de suas atuais formas de organização e funcionamento” (p. 391), pois, como bem apontou Arpini (2003), a alteração da legislação que trata do acolhimento de crianças e adolescentes no Brasil não garante, necessariamente, que alguns abusos e violências de tempos atrás não se reproduzam no novo modelo.

3.3.1 Serviço de acolhimento de crianças e adolescentes  

Uma breve retomada da conquista do reconhecimento dos direitos de crianças e adolescentes no país aponta primeiramente a Constituição da República Federativa do Brasil (1988), que baliza os demais dispositivos jurídicos, e que já passou por 74 Emendas Constitucionais para melhor atender aos interesses da população. No ano de 1990, foi instituído o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (1990), sendo alterado pela Lei Federal 12.010 (2009) em alguns pontos.

Com o advento do ECA (1990), as violações de direitos contra crianças e adolescentes passam a ser reconhecidas pelo Estado, que promove, por sua vez, ações de proteção em favor deles e responsabilização dos que cometem violações. Nos casos extremos onde as crianças e os adolescentes são vítimas dessas violações, uma medida protetiva que pode ser aplicada é o acolhimento institucional, até que cesse o risco e a criança e/ou adolescente possa ser reintegrado(a) à sua família de origem ou em família substituta. Esse acolhimento

Social Especial de Alta Complexidade, da Política Nacional de Assistência Social - PNAS (2004) e tem por objetivo garantir proteção integral aos acolhidos, o que inclui moradia, alimentação, vestuário e higienização no tempo em que estiverem fora do contexto familiar. Vale ressaltar que essa proteção social precisa garantir o convívio familiar e/ou social dos acolhidos, proporcionando contato familiar, quando possível e inclusão nos dispositivos da comunidade, tais como escola, serviço de saúde, centro esportivo, dentre outros.

Nesse contexto, o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária (2006) reforça a importância da manutenção dos vínculos familiares e comunitários das crianças e adolescentes, reconhecendo a importância da mobilização de outras políticas de Estado e da sociedade civil para o alcance desse objetivo. Também indica que o acolhimento institucional pode ser organizado, entre outros, nas modalidades abrigo institucional para pequenos grupos ou casa lar, que são as modalidades abordadas na presente pesquisa. Os parâmetros de funcionamento, que inclui público-alvo, aspectos físicos, recursos humanos e infraestrutura dessas modalidades são discutidas detalhadamente do documento Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes (CONANDA & CNAS, 2009).

As instituições de acolhimento podem ser de natureza pública-estatais ou não-estatais, sendo que os abrigos institucionais podem receber até 20 acolhidos, e as casas lares, até 10 crianças e adolescentes, sempre inseridos em meio residencial (CONANDA & CNAS, 2009). A medida protetiva de acolhimento institucional é aplicada pelo Juiz da Infância e da Juventude, muitas vezes por meio da atuação do Conselho Tutelar, pois se entende que, temporariamente, a família não se encontra em condições de proteger e cuidar daquela criança e/ou adolescente. Durante o tempo do acolhimento, psicólogos e assistentes sociais do abrigo ou casa lar trabalham no sentido de promover a reintegração familiar e/ou comunitária dos acolhidos no menor tempo possível.

Em termos legais, a medida protetiva de acolhimento institucional está prevista no Art. 101, VII do ECA (2009). Sua aplicação ocorre pela presença de situações de violação de direitos, como maus tratos, negligência ou abuso sexual, por exemplo, no ambiente familiar. Pode ocorrer também da situação de violência ocorrer fora do contexto da família, e esta, por diversos motivos, não conseguir proteger a criança ou o adolescente dessas vivências. Vale ressaltar que o acolhimento é provisório e excepcional, mas em alguns casos, a reintegração na família de origem ou em família substituta não ocorre, sendo então, extremamente necessário, um trabalho junto ao adolescente, de promoção de sua autonomia para a vida adulta.

Sobre a dinâmica familiar das crianças e dos adolescentes acolhidos, Siqueira (2006) indica que, em muitos casos, existe a presença de características como baixa coesão entre seus membros, desequilíbrio de poder e fatores de risco numerosos e expressivos em relação aos fatores de proteção. Assim, o trabalho da equipe de especialistas da unidade de acolhimento institucional é essencial para que tais questões possam ser revistas e ressignificadas no grupo familiar, fortalecendo-a em sua função protetiva. Porém, é preciso que os profissionais fiquem atentos para não culpabilizarem as famílias e sempre considerarem a história das mesmas e o contexto social no qual estão inseridas. Considerando que uma das funções da família é a socialização, na qual a criança descobre formas de se relacionar com os outros, o que é permitido ou não e o que se espera dela, Ruiz (2013a) reforça e ideia de que todo esse processo está diretamente vinculado ao meio social e cultural onde a família se encontra.

Assim, ao se trabalhar com famílias, visando reforçar sua função protetiva para reintegrar a criança ou o adolescente que está em acolhimento institucional, é imprescindível que os profissionais considerem os aspectos sociológicos do contexto familiar, pois esses atuam nos aspectos psicológicos de seus membros, tais como o pertencimento a determinada classe social, a uma certa cultura ou religião. Esses elementos vão influenciar as formas de se

perceber a família, os limites, como se devem estabelecê-los, as regras e a concepção de proteção das crianças e dos adolescentes. Vale salientar que uma organização familiar, com suas formas de respostas a situações concretas e que indicam ao indivíduo formas de ser e de comportar-se em situações sociais, é transmitida de geração em geração (Ruiz, 2013a).

Focalizando a análise no acolhimento de adolescentes, além da família com vínculos fragilizados e da violação de direitos ao qual esses meninos e meninas vivenciam, eles são inseridos em uma instituição desconhecida, sendo levados a conviverem com crianças e outros adolescentes também acolhidos e com adultos que estão ali para os receberem e proporcionarem um desenvolvimento mais saudável possível. Muitas vezes a instituição de acolhimento apresenta regras de convivência as quais nem sempre o adolescente conhece ou faz parte do seu cotidiano, sendo necessário, mesmo assim, segui-las desde o início do acolhimento. Tal situação pode gerar angústia e insegurança a esses adolescentes.