2. REVISÃO DE LITERATURA
2.3. Serviços Ambientais Prestados pelos Morcegos
Poucas são as informações disponíveis sobre os morcegos no país. Questões tais como a diversidade de espécies, complexidade biológica e importância ecológica são pontos ainda pouco discutidos. No Brasil, os morcegos recebem os nomes de andirá, guandira ou guandiruçu na língua tupi, que é associado ao Angelim; e muris, do latim, rato e coecus, cego. Verpertilio do grego, e nycteris do latim, são designações associadas a estes animais que indicam hábito de vida noturno (REIS et al., 2007).
Os morcegos (ordem Chiroptera, do grego: chiro, mão; pteron, asa) são os únicos mamíferos a apresentarem estruturas especializadas que permitem um voo verdadeiro (BREDT et al., 1998). A ordem Chiroptera é tradicionalmente dividida em duas subordens, os Megachiroptera e Microchiroptera (PERACCHI, 2011), os primeiros distribuídos na Europa, na região tropical da África, Índia, sudeste da Ásia e Austrália (REIS et al., 2007). Os Microchiroptera são amplamente distribuídos pelo mundo, compostos por 17 famílias e 930 espécies (SIMMONS, 2005, apud REIS et al., 2007). No Brasil, a ordem Chiroptera representa a segunda maior ordem de mamíferos em diversidade de espécies, é composta por 9 famílias, 65 gêneros e 174 espécies distribuídas em todos os biomas brasileiros (Amazônia - 146, Mata Atlântica – 113, Cerrado - 101, Caatinga - 77, Pantanal – 60 e Pampa - 24) (PAGLIA, et al., 2012).
Ao contrário do que muitos pensam, de todas as espécies de morcegos, apenas três se alimentam de sangue, são as hematófagas. Duas atacam aves, preferencialmente (Diphylla ecaudata e Diaemus youngi) e apenas uma acomete aves e mamíferos (Desmodus rotundus) (TRAJANO, 1984). Existem morcegos altamente especializados em um tipo de alimento, como os insetívoros, até aqueles que consomem um pouco de tudo - folhas, frutos, insetos, néctar e rãs. Segundo Mello (2002), os morcegos da subordem Microchiroptera
apresentam uma grande diversidade alimentar dentre os mamíferos. Espécies como Phyllostomus hastatus consomem folhas, frutos, insetos, néctar e até outros morcegos.
Quanto aos benefícios, os morcegos podem desempenhar inúmeros, não só ambientais, mas também sociais e econômicos. Eles servem como material de pesquisas em estudos epidemiológicos, farmacológicos, mecanismos de resistência a doenças e no desenvolvimento de vacinas. Suas asas, constituídas dos tecidos animais mais transparentes, permitem estudos sobre a circulação sanguínea, efeito de inalação de fumaça e tempo de eliminação de drogas. Servem também como recurso alimentar para algumas comunidades da África, Ásia e Brasil. O guano, depositado pelos morcegos, é utilizado como fertilizante em várias regiões do mundo e pode servir de alimento para algumas espécies da fauna cavernícola (REIS et al, 2007).
Os quirópteros são importantes também como controladores de insetos – os morcegos insetívoros compreendem a maior parte das espécies, cerca de 70%. Avalia-se que algumas espécies possam comer quantidades correspondentes a uma vez e meia o seu peso em uma única noite, o que ajuda no controle de pragas agrícolas, por exemplo, (GOODWIN &
GREENHALL, 1961, apud REIS, 1982).
Aproximadamente um quarto das espécies de quirópteros são fitófagas, ou seja, se alimentam de frutos, pólen, néctar e folhas (BREDT et al., 2012). Estes morcegos são encontrados nas regiões tropicais e subtropicais do mundo, onde existem plantas produzindo néctar e frutos praticamente durante todo o ano. Tais espécies são importantes na polinização das flores e na dispersão de sementes de plantas (FIGURAS 2.6 e 2.7), sendo consideradas espécies úteis aos ecossistemas florestais (BREDT et al., 1998; BERNARD et al., 2012b).
Bredt et al (2012, p. 29) destacam que,
“Trabalhos recentes têm sugerido que morcegos e aves são de fato os principais dispersores de sementes nos Neotrópicos, sendo responsáveis por até 80% das sementes que caem no solo de algumas florestas e savanas. Os “serviços” de dispersão de sementes por conectadas a um subconjunto dos parceiros mutualistas das espécies com mais interações”.
Fonte: I. Sazima, apud BREDT, 1998.
FIGURA 2.6 – Visita de um morcego beija-flor, Glossophaga soricina (espécie polinizadora), à flor de dedaleiro (Lafoensia paccari) à procura de néctar.
Fonte: W. Uieda, apud BREDT, 1998.
FIGURA 2.7 - Morcego Artibeus lituratus após pegar um fruto na amendoeira (Terminalia catappa), representado pela copa de uma sibipiruna, (Caesalpinia peltophoroides).
Assim, em áreas degradadas, os morcegos podem desempenhar um papel importante de reflorestamento. Estes mamíferos dispersam as sementes de mais de 500 espécies de angiospermas, além disso, mais de 1.000 espécies de plantas de pelo menos 27 famílias são polinizadas por estes animais nos neotrópicos (BREDT et al., 2012)
Observa-se, desta forma, uma nítida relação de mutualismo entre algumas plantas e morcegos fitófagos, pois estes, ao auxiliarem na reprodução e dispersão de sementes, acabam por garantir seu próprio recurso alimentar. Por outro lado, as plantas se beneficiam na relação, pelo auxílio do transporte (que os morcegos exercem) de suas sementes e pólen (AOKI & SIGRIST, 2006).
As plantas que interagem com morcegos apresentam algumas características particulares ou síndromes de interação como a quiropterofilia e a quiropterocoria. A primeira é a síndrome da polinização por morcegos. Para atrair a quiropterofauna, as plantas desenvolvem alguns mecanismos tais como: a abertura dos botões florais durante a noite, curta duração de cada flor individualmente, pétalas de flores de cores claras e opacas, com tamanho grande, de odor forte, grande quantidade de pólen e flores posicionadas externamente à folhagem (MELLO, 2002). Já a quiropterocoria é relacionada à dispersão de sementes e apresenta características como: frutos verdes quando maduros e expostos nos ramos, forte odor e grande número de sementes, características semelhantes à quiropterofilia (MELLO, 2002).
No bioma cerrado são encontradas muitas espécies de Phyllostomídeos, que é a família com maior diversidade de hábitos alimentares, com espécies insetívoras, carnívoras, frugívoras, polinívoro-nectarívoras, granívoras, folívoras, sanguívoras e onívoras - sendo importantes polinizadores e dispersores de sementes (PINA, 2011). Este bioma congrega aproximadamente 60% da quiropterofauna brasileira (PAGLIA, et al., 2012), e por ser um dos biomas mais ameaçados, é importante o desenvolvimento de pesquisas com morcegos para elucidação das interações entre estes elementos, visto que os filostomídeos podem representar um importante componente na regeneração do bioma em questão.
Por serem animais de hábito noturno, a conservação dos abrigos diurnos é indispensável para a preservação desta rede de interação morcego-planta. Os morcegos podem utilizar diferentes tipos de abrigos (naturais e artificiais), como cavernas, fendas de rochas, superfície de troncos de árvores, folhagens, cupinzeiros, minas, pontes, túmulos, edifícios e
outras construções humanas (KUNZ & LUMSDEN, 2003). Dentre os abrigos mais aproveitados têm-se as cavernas, importante refúgio para grande número de espécies de morcegos (ESBÉRARD, 1999). De acordo com Trajano (1984),
“Sob o ponto de vista da estabilidade ambiental e da proteção, as cavernas são os abrigos que maiores vantagens oferecem, devido às suas dimensões, que proporcionam um topoclima estável, e à inexistência de outros mamíferos, aves e artrópodos, que possam funcionar como predadores, competidores ou parasitos não residentes”.
Averiguações quanto à diversidade de morcegos que utilizam cavernas como refúgio são relevantes para a elaboração de planos de manejo que evitem ou minimizem os efeitos negativos de uso inapropriado nestes espaços (ESBÉRARD et al., 2005). Os morcegos são ameaçados por inseticidas, desmatamentos, bem como por estórias que criaram a seu respeito. Como foi visto, os benefícios são bem mais significativos do que tais lendas geradas por preconceito; de tal modo, a viabilização de trabalhos de sensibilização junto à sociedade, com informações quanto aos serviços ecológicos, sociais e econômicos prestados por eles é importante, pois vai incluí-los na pauta de discussões em prol da conservação e não somente os animais de agrado público (REIS, 1982).
3. METODOLOGIA