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2. Agroecossistemas e seus serviços

2.3. Valoração dos serviços dos ecossistemas

2.4.2. Serviços dos ecossistemas e riscos ambientais

A gama de serviços prestados pelos ecossistemas fornece às pessoas e comunidades não só recursos, mas também opções que estas podem usar como uma garantia face a desastres, catástrofes naturais e revoltas sociais. Enquanto que uma gestão adequada dos ecossistemas reduz o risco e a vulnerabilidade, uma má gestão pode contribuir para a sua exacerbação, por aumento do risco de cheias, secas, colheitas fracassadas ou doenças (Pereira et al., 2009).

A estreita relação entre os serviços dos ecossistemas, riscos e oportunidades de mercado sugere que os valores do ecossistema devem ser considerações importantes no planeamento, gestão e tomada de decisões. Afinal de contas, eles têm um impacte significativo sobre o desempenho dos diferentes setores, assim como qualquer outro custo ou benefício. No entanto, na realidade, a ideia de que os ecossistemas podem ter valor financeiro ou económico tem sido raramente empregue nas medidas usadas para avaliar e informar sobre o desempenho das instituições assim como para pesar diferentes oportunidades de mercado e riscos. Como resultado, as decisões têm sido feitas com base em informações parciais ou até mesmo desadequadas, sobre os custos e os benefícios de determinada ação. No pior dos casos, os ecossistemas subvalorizados podem ter servido para minar os mercados pelo facto de não identificarem novos custos de redução ou de criação de receita e de oportunidades (WBCSD, 2009).

De facto, a subvalorização dos serviços ecossistémicos e a falha para captar os seus valores são uma das principais causas da crise ecossistémica e de biodiversidade atuais, trazendo riscos ambientais (perda de água doce devido à desflorestação, erosão do solo e perda de nutrientes, perdas de produtividade agrícola, problemas de saúde e a pobreza) e, consequentemente, alterações no bem-estar humano. A tentativa de valorar as perdas dos SE levanta dimensões éticas importantes, especialmente a respeito do valor do bem-estar humano no futuro comparado com o presente (TEEB, 2008).

Todos os setores de atividade beneficiam da biodiversidade e dos serviços ecossistémicos, direta ou indiretamente, e a maior parte das atividades tem impactes na natureza, sejam eles positivos ou negativos. As instituições que deixam de avaliar os seus impactes e a sua relação de dependência com a biodiversidade e os serviços ecossistémicos carregam riscos indefinidos, podendo negligenciar oportunidades favoráveis. Uma gestão do risco efetiva para a biodiversidade e os ecossistemas pode ser facilitada através de marcos adequados e parcerias. Podem ainda incluir-se novos mercados para produtos amigos do

ambiente, processos de seleção de investimentos que demandem atenção sobre os impactes na biodiversidade e/ou questões regulatórias que prestem bastante atenção aos riscos à biodiversidade durante o processo de avaliação de impacte (TEEB, 2008).

Dado o que foi referido, o entendimento dos SE disponíveis contribui de forma significativa para a gestão de florestas, pesca, agricultura, turismo de natureza e proteção contra desastres e riscos naturais. A sua valoração constitui uma ferramenta para boas e calculadas medidas, que minimizem assim a ocorrência de riscos ambientais.

A ação do Homem sobre os ecossistemas terrestres (nomeadamente no estabelecimento de sistemas agrários) modifica grandemente os serviços de regulação prestados, podendo levar à degradação da capacidade de controlo da erosão e mesmo à delapidação completa do solo em alguns locais. A agricultura está entre um dos principais focos de poluição do solo (IA, 2005), em particular de poluição difusa. O risco de contaminação encontra-se principalmente associado ao uso inadequado de fertilizantes e pesticidas, com potenciais consequências sobre a poluição do solo e dos recursos hídricos. No entanto, a tendência é a de melhoria do estado dos solos, devido aos avanços no controlo de pesticidas. De entre os fluxos de elementos no solo, os que conduzem à emissão ou retenção de GEE (CO2, CH4 e N2O) ganharam uma projeção internacional face à inclusão

de itens relacionados com atividades agrícolas no Protocolo de Quioto (Pereira et al., 2009). Sendo o uso agrícola o principal uso de água, esta passa a ser o principal fator limitante da produção, considerando-se o regadio como fator de regularização da sua disponibilidade (MADRP, 2000) e pela mesma razão, um fator de pressão acrescida sobre os recursos hídricos (EEA, 2006). Consequentemente, obriga à existência de reservas de água, sistemas de armazenamento, transporte e distribuição de água que garantam disponibilidade eficiente de água para as necessidades hídricas das culturas durante o período de regadio (Ribeiro, 2008). A contaminação dos recursos hídricos (águas superficiais e subterrâneas) ocorre principalmente por eutrofização que, na agricultura, se deve principalmente ao uso de fertilizantes (Pereira et al., 2009). A eficiência nacional de uso da água no setor agrícola é de apenas 58% (IA, 2005) e cerca de metade da água não utilizada retorna ao ecossistema, frequentemente, em piores condições ambientais (Pereira et al., 2009). Grande parte das galerias ripícolas portuguesas apresenta perda de integridade, incluindo a diminuição da sua largura original, a fragmentação do coberto natural e a substituição das espécies autóctones por outras, nomeadamente por ação de fogo e por atividades humanas, como urbanização e agricultura (Domingos et al., 2006).

Os ambientes de agricultura intensiva, não obstante o seu valor para a produção de alimento e fibra, encontram-se associados a baixos índices de diversidade de espécies, e muitas vezes a impactes negativos na diversidade de outros ecossistemas, nomeadamente de águas interiores, devido à poluição de solos e aquíferos (Pereira et al., 2009).

A agricultura e a floresta ocupam cerca de 60% do total da área designada para a conservação da natureza em Portugal Continental (Rede Nacional de Áreas Protegidas – RNAP e RN2000), o que reflete a importância destas atividades para a conservação de grande parte dos biótopos considerados (IA, 2005). Quando a agricultura é um elemento fundamental dos ecossistemas sustentáveis, o seu abandono traduz-se numa contribuído para a degradação de habitats e para o declínio de algumas espécies (Pereira et al., 2009).