3.1 A ESTABILIDADE
3.1.4 Estabilidade provisória
3.1.4.5 Servidor Público
Os servidores públicos estão sujeitos, basicamente, ao regime estatutário, que são leis próprias da sua esfera de vinculação (União, Estados e Municípios). O estatuto do servidor público federal é a Lei nº 8.112/90. Já o empregado público é regido pelas normas da CLT, regime jurídico aplicado aos trabalhadores das empresas privadas, com algumas observações, uma vez que seu contratante é a administração pública.
Meirelles (2013, p. 506) nos ensina sobre o assunto:
Estabilidade é a garantia constitucional de permanência no serviço público outorgada ao servidor que, nomeado para o cargo de provimento efetivo, em virtude de concurso público, tenha transposto o estágio probatório de três anos, após ser submetido a avaliação especial de desempenho por comissão instituída para essa finalidade (CF, art. 41).
Portanto, o servidor regido pela Lei 8.112/90, adquirirá a estabilidade no cargo após três anos de efetivo exercício, desde que preencha os requisitos e de ser considerado apto em avaliação de desempenho (BRASIL, 2014).
Segundo, ainda, Meirelles (2013), a EC 19 efetuou profundas modificações ao instituto da estabilidade, tendo em vista a intenção do legislador em atingir dois objetivos: perseguir o princípio da eficiência do serviço público e diminuir a folha de pagamento dos
servidores públicos. Como vimos anteriormente, a estabilidade foi criada pela Carta de 1934, e tinha como meta barrar as exonerações a bem da continuidade do serviço público e coibir a perseguição aos servidores dos partidos que ascendessem ao poder.
A EC 19/98 ainda criou a figura do emprego público, que abriga os trabalhadores que fazem concurso para empresas públicas e sociedades de economia mista, reintroduzindo a CLT como regime de trabalho alternativo no âmbito do serviço público, portanto sem estabilidade. A mudança estabelece a seguinte distinção conceitual:
a) os servidores estatutários ocupam cargos públicos, regidos pelos respectivos regulamentos, da União, do Distrito Federal, de estados e de municípios;
b) os empregados públicos ocupam empregos públicos, subordinados às normas da CLT, e são contratados por prazo indeterminado para exercício de funções na administração direta, autárquica e fundacional. (BRASIL, 2014).
O Tribunal Superior do Trabalho (TST), por meio da súmula 390, considera que os empregados celetistas da administração direta não têm direito à estabilidade, ainda que contratados pelo regime da CLT.
Súmula nº 390 do TST. ESTABILIDADE. ART. 41 DA CF/1988. CELETISTA. ADMINISTRAÇÃO DIRETA, AUTÁRQUICA OU FUNDACIONAL. APLICABILIDADE. EMPREGADO DE EMPRESA PÚBLICA E SOCIEDADE DE ECONOMIA MISTA. INAPLICÁVEL (conversão das Orientações Jurisprudenciais nºs 229 e 265 da SBDI-1 e da Orientação Jurisprudencial nº 22 da SBDI-2) - Res. 129/2005, DJ 20, 22 e 25.04.2005.
I - O servidor público celetista da administração direta, autárquica ou fundacional é beneficiário da estabilidade prevista no art. 41 da CF/1988. (ex-OJs nºs 265 da
SBDI-1 - inserida em 27.09.2002 - e 22 da SBDI-2 - inserida em 20.09.2000). II - Ao empregado de empresa pública ou de sociedade de economia mista, ainda que admitido mediante aprovação em concurso público, não é garantida a estabilidade prevista no art. 41 da CF/1988. (ex-OJ nº 229 da SBDI-1 - inserida em 20.06.2001). (BRASIL, 2014)
Entretanto, a súmula não é vinculante, ou seja, não obriga outras decisões judiciais a seguirem o mesmo direcionamento. Estudiosos do direito discordam dessa posição e consideram a estabilidade um instituto restrito ao servidor sujeito ao regime único (estatutário). Parece ser também esta a posição do STF, como se vê na decisão proferida no Recurso Extraordinário (RE) 589998: “O colegiado reconheceu, entretanto, expressamente, a inaplicabilidade do instituto da estabilidade no emprego aos trabalhadores de empresas públicas e sociedades de economia mista. Esse direito é assegurado pelo artigo 41 da Constituição Federal (CF) aos servidores públicos estatutários” (BRASIL, 2014).
No entanto, pelo fato de seu empregador ser a administração pública, essa relação deve atender aos princípios da legalidade, moralidade e impessoalidade. Assim, a demissão de um empregado público deve ser motivada. Foi o que decidiu o STF a respeito do assunto:
Por maioria de votos, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) deu provimento parcial, nesta quarta-feira (20.03.2013), ao Recurso Extraordinário (RE) 589998, para assentar que é obrigatória a motivação da dispensa unilateral de empregado por empresa pública e sociedade de economia mista tanto da União, quanto dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.
O colegiado reconheceu, entretanto, expressamente, a inaplicabilidade do instituto da estabilidade no emprego aos trabalhadores de empresas públicas e sociedades de economia mista. Esse direito é assegurado pelo artigo 41 da Constituição Federal (CF) aos servidores públicos estatutários. A decisão de hoje tem repercussão geral, por força de deliberação no Plenário Virtual da Corte em novembro de 2008. (BRASIL, 2014)
Garcia (2012, p. 747) conclui que, “entendendo-se dessa forma, ainda de acordo com a interpretação mais literal, pode-se concluir que a referida estabilidade só se aplica aos servidores públicos nomeados para o cargo de provimento efetivo, em virtude de aprovação em concurso público.”
3.1.4.5.1 A estabilidade dos funcionários do Banco do Estado de Santa Catarina S.A.
Como vimos anteriormente, segundo Martins Filho (2008), a estabilidade corresponde a direito do trabalhador ao emprego mesmo contra a vontade do empregador. Neste sentido, a dispensa de empregados estáveis somente poderia ocorrer nas hipóteses previstas em lei ou convenção coletiva.
A quase totalidade dos empregados do Banco do Estado de Santa Catarina S.A., - Besc, que mantinham vínculo empregatício quando da implantação do Plano de Demissão Incentivada Besc/2001, detinham estabilidade no emprego, oriunda de regulamento interno. Dessa forma, o banco estava impedido de rescindir o contrato de trabalho desses empregados, exceto na ocorrência das hipóteses previstas em lei. (BANCO DO ESTADO DE SANTA CATARINA, 2001)
Essa forma de estabilidade é muito rara, motivo pelo qual é inexpressivo seu conteúdo doutrinário e são escassas as manifestações dos tribunais nesse campo.
Em 1986, o BESC inseriu a seguinte regra em seu regulamento de pessoal:
Art. 89. Todos os empregados do Banco adquirem estabilidade no emprego após cumprido o período de efetivo exercício de dois anos de serviço ao Besc, podendo ser dispensado apenas por justa causa, com base nos artigos 428 e 508 da CLT, ouvido, ainda, o comitê disciplinar. (BANCO DO ESTADO DE SANTA CATARINA, 1986).
Os artigos citados no regulamento de pessoal do BESC, dizem respeito ao menor aprendiz (art. 428) e a falta grave relativa a dívidas não pagas (art. 508). Vê-se, portanto, que
o BESC concedeu estabilidade direta a todos os seus empregados, observado o período de prova de dois anos (BANCO DO ESTADO DE SANTA CATARINA, 1986).
Em 03/02/1988, o referido artigo foi revogado pela Ordem de Serviço nº 88/3147, retirando-se a estabilidade em relação aos novos empregados, ressalvando o direito adquirido daqueles que já estavam estáveis àquela data (BANCO DO ESTADO DE SANTA CATARINA, 1988).
O novo regulamento só produz efeitos relativamente aos empregados admitidos após sua alteração, conforme entendimento consagrado pelo Enunciado 51 do TST: “Vantagens. As cláusulas regulamentares, que revoguem ou alterem vantagens deferidas anteriormente, só atingirão os trabalhadores admitidos após a revogação ou alteração do regulamento” (BRASIL, 2014).
Não há doutrina consolidada em torno deste tema e as decisões de nossos tribunais são raras. Mas, mesmo que fosse, na época, possível sustentar alguma nulidade, e considerando-se que ato nulo não gera efeitos, impedindo a incorporação da estabilidade ao patrimônio do trabalhador, alguns fatores, como a própria exiguidade de prazo de privatização iriam desestimular tal tentativa, devido à lentidão do judiciário e a incerteza de suas decisões, propiciando, ainda, um clima de resistência dos empregados, com reflexos negativos na gestão do banco.