Como observamos na seção anterior, o setor de T.I. brasileiro vem apresentando uma expansão contínua nas últimas décadas com crescimento expressivo acima de 20% ao ano.
Para que uma micro, pequena ou média empresa possa iniciar a entrada no mercado deve se destacar enquanto criativa e inovativa em certos nichos33 que não estão ocupados pelas maiores empresas, numa tendência que a literatura define como tendência centrífuga (SAKAMOTO et al, 2009, p. 1).
33 O setor militar teve importância destacada em acender este debate acerca de produção tecnológica nacional, com aspectos de soberania evidente, mas serviu e muito para que houvesse um estopim nessa vertente. E o Rio de Janeiro, a partir de contatos entre os militares (Marinha) e a UFRJ e PUC destacou-se em um forte pioneirismo em pesquisar e criar tecnologias de T.I. (SIMIQUELI, 2008, p. 19; MOREIRA, 1995, p. 37-38).
Castells (1995, p. 108) aponta que o setor da T.I. apresenta o mais acelerado crescimento e a máxima expressão de uma força de trabalho ligada ao conhecimento. É um setor que vende o mais puro conhecimento com uma baixa produção material e completamente livre de amarras, permitindo as menores firmas inserirem-se neste mercado competitivo com sua criatividade e inovação tão inerentes às pequenas empresas quando se estuda este setor.
O destaque do setor de T.I. da cidade do Rio de Janeiro na atualidade torna-se de difícil apuração por conta das inúmeras falhas por parte das esferas de poder e da academia em mensurar este importante setor econômico inserido na esfera da globalização. Não estamos apenas pensando em apresentar, nesse momento, dados relativos ao desenvolvimento econômico do setor na cidade do Rio de Janeiro, mais do que isso, buscamos salientar que a maior importância da T.I. atualmente é a sua inserção em todos os ramos econômicos e, sendo assim, há a necessidade da criação de políticas públicas que destinem investimentos a ele.
Concordamos que este setor seja visto não mais como acessório para a indústria, mas como um dinamizador desta e demais, um segmento que não pode se desenvolver sem a atuação do Estado via políticas públicas, conforme se assevera abaixo:
As empresas mais competitivas que atuam nesses setores necessitam empreender grandes esforços em P&D, realizando investimentos de ordem física e humana, que não necessariamente se traduzem em retornos significativos. Também, torna-se necessário o aproveitamento do aprendizado tecnológico, que requer a implantação de mecanismos de interação e de difusão tecnológica, que possibilitem aumento de mobilidade na adoção e geração de inovações.
Portanto, aspectos relacionados à eficiência do sistema educacional, à existência de firmas inovadoras, à existência de infraestrutura tecnológica de apoio, a todos aqueles fatores que compreendem o sistema nacional de inovação e ao estado, enfim, são essenciais para as empresas adotarem a estratégia de inovação. Dadas as características da intensidade tecnológica do setor, ter-se-ia, além das justificativas estatais, uma justificativa empresarial, devido à maior lucratividade por conta da possibilidade de inovação. Isso representa uma condição oportuna em favor de uma articulação para o desenvolvimento do setor (SOUSA, 2011, p. 250).
Com a acentuação do desenvolvimento do processo de globalização começamos a notar que houve concomitantemente um espraiamento das atividades tanto industriais quanto tecnológicas para outros países do sistema-mundo capitalista e, nesse panorama, as nações não-centrais entram no bojo da disputa dos investimentos das empresas de alta tecnologia. Na proposta de Pianna (2011, p. 76) estamos conhecendo verdadeiramente as empresas em rede que especializam-se em atividades de elevado conteúdo tecnológico.
Até o ano 2000 a cidade do Rio de Janeiro apresentava-se como o segundo maior mercado de empresas exportadoras brasileiras de T.I. atrás apenas de São Paulo. Possuía treze empresas exportadoras34 que representavam 11,2% do total das empresas nacionais exportadoras (FERRAZ FILHO et al, 1998, p. 20).
Quadro 5 – Taxa de crescimento do número de empresas de T.I., considerando localização da sede da empresa – Ufs selecionadas, período 2007-2008
Em 2008 o estado do Rio de Janeiro contava com 7.952 empresas ligadas ao setor de T.I. com expressiva maioria localizada na cidade do Rio de Janeiro. Dados relevantes expressam que apesar da pujança apresentada pelo mercado paulistano o Rio de Janeiro se destaca nos subsetores que demandam maiores aportes tecnológicos e especialização de mão de obra, como registrado no quadro 6:
Quadro 6 – Distribuição percentual do número de empresas de T.I. – UF selecionadas, 2008
Atividade Principal SP RJ MG PR SC RS
Desenvolvimento de software sob encomenda 14,6% 32,3% 20,6% 12,6% 19,1% 12,2%
Consultoria em TI 15,2% 23,1% 18,9% 23,0% 9,8% 11,0%
Suporte Técnico, manutenção e outros
serviços em TI 7,2% 14,8% 12,0% 7,6% 12,1% 12,8%
Fonte: Softex, 2012, p. 318.
O Rio de Janeiro é a Unidade da Federação com a segunda maior receita do setor de T.I. com 21,1% do total; e também apresenta a segunda colocação no número de empresas
34 Este dado é fruto de pesquisas mais gerais de Associações de classe. Na verdade, o que constatamos é que muito mais firmas cariocas exportam, pois estamos em campo entrevistando os empresários do setor e significativa parcela possui experiência internacional. No entanto, em nenhum caso as exportações possuem receita mais expressiva do que as vendas para o mercado interno, mas existe uma mentalidade da necessidade da internacionalização de suas empresas, como discutiremos minuciosamente no capítulo 3.
com 14,3% do universo existente. Destacada constatação é a de que a participação deste setor no PIB do estado do Rio de Janeiro é o maior percentual dentre os demais com 2,7% (e em São Paulo 2,4%) (SOFTEX, 2012, p. 320).
Em referência ao estado como um todo o Rio de Janeiro é a Unidade da Federação que exibe, em termos relativos, o percentual mais elevado de municípios que apresentam ao menos um profissional do setor de T.I. com pelo menos 50%. Também em 2010 encontrávamos ao menos um profissional empregado neste setor em 99% dos municípios fluminenses. No mesmo ano havia 17.664 profissionais ao todo no estado, tendo a capital aproximadamente 74,0% do total com 14.020 profissionais. Quando ampliamos o leque e partimos para os profissionais empregados em estabelecimentos que mantém atividades secundárias de T.I. o número praticamente dobra indo para 33.395 profissionais, significando 82,9% do universo total pesquisado (SOFTEX, 2012, p. 345-49).
Os dados acima revelam a predominância da cidade do Rio no setor de T.I. no estado, e a sua relevância para que haja um pensamento em fortalecer este segmento. Ao ter uma forte diversificação de trabalhadores nos subsetores de T.I. revela-se um amplo espaço de crescimento neste setor e ao mesmo tempo implica em elaborar políticas públicas imprescindíveis para estimular este setor.
Nesta linha a Associação Rio Soft divulgou no ano de 2014 um estudo que tem por objetivo “construir um banco de informações confiáveis sobre o nosso setor no estado, estabelecendo comparações nacionais e com São Paulo, principal centro produtor de Software e Serviços do País” (TI RIO, 2014, p. 02).
Entre todas as empresas e filiais no Rio de Janeiro existiam 3.103 estabelecimentos no estado, com um crescimento médio em torno de 6,4% ao ano entre 2007 e 2013. Se compararmos com São Paulo ainda estamos atrás deste estado que possuía 11.505 estabelecimentos e no Brasil 33.832 estabelecimentos (TI RIO, 2014, p. 08). Ou seja, o estado do Rio de Janeiro representa aproximadamente 10% dos estabelecimentos em T.I. no Brasil e se compararmos estes dados com os das pesquisas Abes e Softex citadas acima, que colocam a cidade do Rio de Janeiro com aproximadamente 80% do total de estabelecimentos, temos para a capital aproximadamente 2.500 empresas.
Quando observamos o valor médio remuneratório dos profissionais do setor de T.I.
percebemos como a qualificação é expressiva para a melhoria salarial e, ainda, como no cômputo geral este setor remunera melhor do que os demais segmentos econômicos. O salário médio mais elevado do setor encontrado foi de R$ 12.796 e o mais baixo foi R$ 1.603, tendo
um total de profissionais no estado estimado em 127.00035. Sendo assim, quando cruzamos os dados acima citados pelas pesquisas Softex e Abes a capital apresenta aproximadamente 82%
dos profissionais tendo, portanto, um total de 104.000 profissionais empregados.
Quadro 7 – Profissionais de TI (assalariados) em estabelecimentos do setor de TI (2013)
Família Ocupacional Quantidade Salário Médio (RS)
Técnicos operadores de máquinas transmissoras de dados 87 1.778
Operadores máquinas de escritório 463 1.603
Total 21.007 5.082
Fonte: TI Rio, 2014, p. 12.
O quadro 10 revela ainda outro importante desenvolvimento teórico acerca do setor de T.I. do Rio de Janeiro: possuímos mais profissionais com qualificações superiores. Isto proporciona à cidade em si poder de competição com o seu principal concorrente nacional – São Paulo – e também potencializa a sua internacionalização em decorrência de formações superiores anseiam esta perspectiva.
Sobre a pesquisa científica o estado é o líder na área, como Reinaldo Guimarães aponta “Segundo os dados do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil e da Capes, a única das grandes áreas de conhecimento em que o Rio de Janeiro ocupa, nos dias de hoje, uma posição de liderança nacional é das Engenharias e Ciência da Computação. Embora a maior parte das empresas de TI se concentrem em São Paulo”. (GUIMARÃES, 2001, p.292). Isto se deve à permanência de instituições federais de pesquisa após a mudança da capital.
No estado do Rio existe um importante peso do processamento de dados e da pesquisa e um esvaziamento da produção de hardware e software. Existe um potencial de criação que não é plenamente aproveitado, não existe um diálogo pleno com a estrutura produtiva, o profissional muitas vezes tem oportunidades em outro estado ou no exterior. A empresa americana EDS sediada no Rio tem clareza de tal quadro, pois realiza desenvolvimento de software e suporte nos escritórios do Rio de Janeiro e Buenos Aires para clientes no exterior (GUICHARD, 2005, p. 12).
Quando observamos os números referentes às matrículas em cursos superiores – licenciatura, bacharelado e tecnólogo – para o ano de 2012 – possuíamos no estado do Rio de Janeiro um total de 2.853 matrículas para um total de 142 cursos superiores. Em 2014
35 Números estimados a partir de Siqueira (2007, p. 231).
possuíamos seis cursos de mestrado (61 no Brasil), cinco cursos de doutorado (27 no Brasil);
em 2009 formamos 159 alunos no mestrado (17,8% para o Brasil), 26 no doutorado (22,6%
para o Brasil) com um total de 185 formados em pós-graduações, 17,2% do total para o Brasil.
Consideramos nesta pesquisa números expressivos que revelam a força do Rio de Janeiro e, mais especificamente, da cidade nos recursos humanos.
Estes dados expostos acerca da força de trabalho revelam aquilo que Castells (1995, p.
109) já havia observado em seu estudo: a importância crucial da força de trabalho altamente qualificada para a existência das firmas de T.I, sendo o intercâmbio de ideias e pessoas algo extremamente importante. Por isso que algumas localidades do planeta são aquelas que recebem e despontam nesse setor, pois são capazes de criar um meio de inovação ativo e de interação entre demais setores que se complementam. Constatamos com isso que mais importante do que o produto é o processo que insere as localidades em redes mundiais de conectividade num modelo em rede e informacional.
Uma iniciativa importante que poderá contribuir com o setor de T.I. da cidade do Rio de Janeiro é a criação do programa Startup Rio, tentando-se, assim, formar um creative cluster na capital, isto é, “aglomerações de atividades de produção e circulação de bens e serviços simbólicos, amparadas nas múltiplas criatividades dos indivíduos, tais como artística, de inovação e empreendedora, a fim de criar um novo valor econômico” (DÁRIO;
CARVALHO, 2013, p. 07-08). Tal proposta estimula a dinamização das localidades a partir de seus potenciais mais criativos, como o setor de T.I., e ratifica a importância da formação.
Com isso,
A aposta nas indústrias criativas como factor dinamizador das cidades é uma atitude de afirmação de uma política baseada no homem e no seu poder de criação, interagindo com o território para que este aumente a sua capacidade de atractividade e se posicione num patamar superior de inovação e competitividade no contexto internacional (LATOEIRA, 2007, p. 231 apud DÁRIO; CARVALHO, 2013, p. 08).
Com base em um estudo do Instituto Pereira Passos (IPP) elaborado por Medeiros Junior et al (2011, p. 01) afirma-se, oficialmente, que a cidade definiu a economia criativa como um dos setores estratégicos para o seu desenvolvimento. Esta “permite repensar o desenvolvimento econômico e a revitalização das cidades, sejam aquelas que sofreram com a decadência fordista, ou as que nunca implantaram uma base industrial” (MEDEIROS JUNIOR et al, 2011, p. 05).
Mostrando com dados o peso que a economia criativa da capital representa para o Rio de Janeiro como um todo o estudo em questão revelou que em 2009, para as atividades do
núcleo36 dessa economia criativa, dos 88.972 empregados, 67.924 encontravam-se na capital do estado. No que tange à remuneração média a capital também obtinha vantagem na média geral em relação ao estado, com respectivamente R$ 3.252,12 e 2.856,13. No que se refere à questão do total de empregos para a economia criativa os segmentos que compõem a mesma corresponderam, para 2009, pela geração de aproximadamente 11% dos empregos e 10% da massa salarial gerada (MEDEIROS JUNIOR et al, 2011, p. 06-07).
Portanto, com base nas informações estatísticas baseadas em estudos consultados para esta seção verificou-se que o setor de T.I. da cidade do Rio de Janeiro possui um importante papel em seu desenvolvimento urbano e econômico e se configura como um forte gerador de emprego e renda, infraestrutura e novas tecnologias. Para isso, a cidade deve desenvolver uma base territorial que fortaleça as suas vantagens competitivas nesse setor e potencialize a produção de T.I. para sua internacionalização e, com isso, inserir a capital em uma rede mundial de conectividade das firmas produtoras de serviços avançados em T.I.