3 PROCESSO DE ROTA CRÍTICA: VIVÊNCIA DA VIOLÊNCIA, REDE
3.5 RESPOSTAS INSTITUCIONAIS
3.5.4 Setor da Saúde
Os serviços de saúde, apesar de constituírem um privilegiado espaço para o acolhimento das mulheres em situação de violência, dificilmente são vistos como tal pelas mulheres que vivenciam esse fenômeno. Nas palavras de Schraiber e D’Oliveira (1999) o sofrimento vivenciado pelas mulheres por conta da situação de violência raramente é considerado pelos profissionais de saúde como foco de sua atuação, a não ser que exista alguma demanda de saúde de base anatômica e patológica. Sobre isso Santi, Nakano e Lettiere (2010) acrescenta:
[...] a intervenção na violência contra a mulher [no campo da saúde] só se justifica quando suas conseqüências são percebidas como uma doença, caso contrário, a queixa não é considerada parte das ações em saúde, e as conseqüências são referidas a outra ordem do social e/ou do psicológico, desqualificando-as para uma intervenção médica. (p.421)
Assim, não é fato comum que a violência contra a mulher apareça como objetivo de atendimento em serviços da saúde, nem tão pouco ser descrita em prontuários e foco de possíveis encaminhamentos (SCHRAIBER et al, 2005). Existe um leque de situações que devem ser pensadas e problematizadas para uma
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A secretária do município de Juazeiro/BA que coordena o CIAM refere, em conversa informal, que já foi tentado realizar uma unificação no atendimento da Casa Abrigo de Petrolina/PE, estendendo para o município de Juazeiro/BA. No entanto, devido a impasses políticos partidários não foi possível institucionalizar esse acordo, entre os dois estados.
compreensão coerente das dificuldades encontradas pelo campo da saúde em acolher as demandas de violência doméstica. Uma dessas é o fato de muitos profissionais de saúde apontarem o despreparo para lidar com a temática da violência. No estudo sobre rotas críticas realizado no município de Porto Alegre/RS (MENEGUEL et al, 2011), os operadores do setor da saúde relataram a dificuldade em atender mulheres em situação de violência doméstica, seja por considerarem os serviços inadequados para tal acolhimento, seja por não se sentirem capacitados para realizar qualquer intervenção.
Somado ao despreparo dos profissionais está a invisibilização do fenômeno da violência no campo da saúde. Usualmente as mulheres já encontram dificuldade em romper com o silêncio da situação de violência, somado a falta de um espaço de acolhida e de profissionais qualificados essas mulheres continuam a silenciar e não relatam que a causa dos problemas que levaram a procurar os serviços de saúde está relacionada a violência perpetrada pelo companheiro (SCHRAIBER; D’OLIVEIRA, 2009).
Na presente investigação, poucas mulheres relataram procurar atendimento no campo da saúde. Apenas sete entrevistadas citaram serviços nessa área, respectivamente: a Estratégia Saúde da Família (ESF), o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e os Hospitais do município e estado: Promatre, Regional, Serviço de Ortopedia e Traumatologia Especializada (SOTE).
O território de Juazeiro/BA está dividido em seis distritos sanitários, sendo desses quatro na zona urbana e dois na zona rural. Cada distrito sanitário possui uma média de seis a oito Unidades Saúde da Família (USF). O alcance da ESF às mulheres em situação de violência facilitaria o serviço ser considerado uma das principais portas de entrada frente ao fenômeno da violência (D’OLIVEIRA et al, 2009). Entretanto, esses espaços não foram considerados pelas entrevistadas como lugar de apoio institucional efetivo frente às problemáticas que se apresentavam. A única vez que a ESF foi citada por uma entrevistada, os/as profissionais da unidade de saúde encaminharam a usuária para o serviço de referência em saúde mental do município (CAPS), mas não conseguiram identificar que o nervosismo (“doença dos nervos”) relatado por parte da entrevistada era referente à vivência de violência com o companheiro. Nessa direção, existiu um único relato que envolveu a procura por serviços na área da saúde relacionados a problemas psicológicos. As percepções das mulheres relacionadas à procura dos serviços nesse setor estavam
profundamente arraigadas com as conseqüências a saúde física, ocasionadas pela perpetração da violência física e sexual.
Eu fui pro hospital, porque eu fiquei muito, bastante machucada. (Olívia)
Mesmo as entrevistadas que não procuraram atendimento na área da saúde, evidenciaram que não o fizeram porque não estavam com as marcas da agressão em evidência e, consequentemente, não precisavam de cuidados mais graves e complexos com a saúde. Geralmente utilizavam-se de técnicas populares/caseiras para tentar eliminar os sintomas e lesões ocasionados pela violência.
Não, não, eu ficava ... ele me trancava, eu ficava trancada, é ... soco no olho por exemplo é ... eu passava de 13 à 18 dias pra sumir aquela parte mais escura, ficava aquelas rajinhas de sangue, preto ... pisado, aí daí eu ficava só presa dentro de casa. (...). Então quando tava quase a mancha sumindo, eu acabava de cobrir com base de rosto, pó de rosto e pronto, eu não procurava hospitais. (Rafaela)
Não, porque assim, ele era muito esperto ele nunca deixava marca, as marcas que ele me deixava era beliscão e ficava manchado, só isso, só nesse dia [...] que ele me bateu de murro, só essa vez mesmo, das outras não, nunca deixou, marcas não. (Paula)
Não procurei não, eu tomei um banho de sal, ardeu pra dedeu, que eu tava toda machucada, disse que sal era bom pra fechar né?! aí tomei banho de sal, mas pra quê, nossa gente voltei a tomar banho de água limpa, (risos) só que valeu a pena que fechou. (Fátima)
No que refere às, respostas institucionais, todas as intervenções no campo da saúde estiveram centradas em práticas curativistas e medicamentosas. Sobre isso Schraiber e D’oliveira (2009) acrescentam que muitas vezes os profissionais de saúde acabam por preconizar bem mais tecnologias de cunho biologicista, ao invés de tecnologias mais assistenciais. Nos dizeres de Santi, Nakano e Lettiere (2010) os serviços de saúde precisariam responder a dois dilemas específicos para garantir a qualidade mínima ao atendimento prestado às mulheres em situação de violência: a) perceber e (re)conhecer a violência sofrida pelas mulheres, a partir de uma escuta atenta; b) e, tentar romper com práticas medicamentosas frente a demanda observada.
De uma maneira geral, foi consenso entre as entrevistadas o bom atendimento prestado pelos serviços. Em três situações os profissionais possuíram
interesse de saber os motivos pelos quais as mulheres chegaram agredidas ao serviço. No entanto, é importante salientar que esse interesse ocorreu mais usualmente no hospital que possuía como parte da equipe de profissionais um policial militar que geralmente ficava situado na recepção da instituição.
[...] aí eu fui pra Pro - matre, quando chegou lá, tem sempre um policial, aí eles fazem a pergunta né?!, o policial faz a pergunta [...] e aí eu entrei fui atendida. (Emanuela)
Quando eu cheguei no hospital ele perguntou o que foi, aí eu não queria falar ainda, o que tinha sido. Só que eu vim com minha mãe, e minha mãe falou ... é ... comentando com o guarda lá fora (Débora)
Além dos procedimentos de saúde, os profissionais de saúde também informavam as mulheres da importância de procurar a DEAM e denunciar o companheiro. Essa é uma atitude positiva, por possibilitar um espaço aparente de orientações para tomadas de decisões futuras.
No sábado que aconteceu eu fui pra Pro-matre, aí Dr. Dr. Dr. Leonardo, Dr. Eduardo, Dr, Leonardo, sei lá, Dr. Eduardo mesmo, aí ele mandou vim diretamente praqui, aí foi quando eu sai do hospital e vim praqui. (Ana) O hospital foi Pro-matre e eles me encaminharam também pra delegacia pra prestar queixa também depois do atendimento, entendeu. Foi na emergência, só isso mesmo. (Olívia)
o ... médico pediu... perguntou se eu num queria que ele chamasse a polícia pra ... tomar providência contra ele. (Débora)
4 – ANÁLISE DAS ROTAS TRAÇADAS PELAS MULHERES EM SITUAÇÃO DE