2 COMO E ONDE ESTÃO AS MULHERES NA LUTA PELA TERRA?
3.5 O SETOR DE GÊNERO: UMA FORMA DE TORNAR ORGÂNICO O DEBATE
Após contínua mobilização e organização das mulheres no MST, o Movimento entendeu que o debate sobre a construção de relações de gênero mais igualitárias deveria ser uma questão a ser estendida para o conjunto do Movimento, e não apenas restrita a grupos ou coletivos de mulheres. Nessa perspectiva foi criado o Setor Gênero:
A criação do Setor de Gênero, assim como suas linhas políticas31, foi aprovada no Encontro Nacional realizado em Goiânia, em 2000, se constituindo num marco importante, que demonstrou um avanço efetivo no debate das relações de gênero, entendendo que em um movimento misto o avanço só é real se for para todos, e que, por isso, o debate não poderia estar restrito aos coletivos de mulheres, mas integrar organicamente o Movimento. (MST, 2017. P.16)
A incorporação do debate de gênero no MST concretizada com a criação de um setor específico para tal é resultado da organização e mobilização das mulheres e demonstra um grande avanço do Movimento no sentido de tornar esse debate orgânico, institucionalizado. É interessante destacar que no surgimento do setor o principal objetivo era garantir a participação efetiva das mulheres nos espaços de decisão, colocando também essa responsabilidade (de garantir a participação feminina) para os homens que estavam nas instâncias, o que superava o discurso de que “o espaço deveria ser conquistado pelas mulheres”.
Em 2000, o debate do Setor de Gênero do MST trazia como desafio a construção de novas relações de gênero, vinculadas às relações de poder. A concepção de composição do setor era garantir a presença de mulheres e homens, desde a nucleação de base, até o setor nacional. A participação conquistada no período anterior à constituição do setor, deveria se traduzir em participação efetiva das mulheres nos espaços de decisão e os homens deveriam ajudar a construir isso, estando nesta instância. (MST, 2017. P. 09)
A constituição do Setor de Gênero foi uma ferramenta importante para garantir a incorporação e participação das mulheres nas instâncias e nos espaços de formação promovidos pelo Movimento, entretanto isso se deu de forma gradual, conforme registrado na cartilha do setor:
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As linhas políticas de um setor se propõem a dar o direcionamento às ações que serão desenvolvidas por este, de como será construído internamente na organização, estando presentes na sua elaboração os rumos estratégicos e táticos a serem alcançados. (MST, 2017. P.16)
O Setor de Gênero avançou na aprovação das linhas políticas e na luta pela efetivação dos 50% de mulheres nos cursos, nos encontros, nas instâncias de base, mas faltava um importante espaço de decisão: a Direção Nacional. E em 2006 veio tudo de uma vez! Veio os 50% na DN, a perspectiva feminista e também uma profunda inquietação das mulheres com as mudanças na natureza da luta, a reestruturação produtiva do capital, a hegemonia do agronegócio e da mineração, a contraditória relação com o governo neodesenvolvimentista que era parte da aposta tática da estratégia dos anos 80 e os debates por autonomia econômica e política. (MST, 2017. P. 10)
A partir do trecho citado acima se percebe que o interesse das mulheres com o setor de gênero não se limitava ao que se denomina de “questões de gênero” ou “pauta de mulheres”, as mulheres discutiam e interferiam, organizadas no setor, em pautas gerais de importância para o conjunto do Movimento. Mas, o central da discussão inicial era, como já mencionado, a participação efetiva das mulheres no Movimento. As pautas do setor e método de trabalho foram se modificando ao longo do tempo, até que se chegou ao que é o setor de gênero hoje: um setor onde se trabalha a questão da auto-organização interna e formação das mulheres, o debate de gênero com os homens, e a questão LGBT, como nos retrata Alexandra, nossa entrevistada que atualmente coordena o setor de gênero estadual:
O setor antes ele era gênero focado só no trabalho com as mulheres, organizar as mulheres e empoderar as mulheres, mas hoje o MST tem condições de trabalhar com três frentes no setor, muito bem organizadas e distintas. A LGBT é uma frente que aqui no RS já é a segunda atividade que eles fazem, no nosso encontro estadual teve uma bela intervenção com muita gente que a gente nem imaginava, muito boa. Aí vem a frente das mulheres, que são os trabalhos específicos com as mulheres e tem a frente dos homens, que é onde nós vamos iniciar o trabalho de gênero com os homens. A composição dessas três frentes é que constitui o setor de gênero hoje. (Alexandra)
A composição do setor de gênero por essas três frentes representa a insistência no esforço de construir novas relações no movimento e nas famílias, através da frente de trabalho com os homens, e a importância dada ao processo de formação e organização interna das mulheres, através da frente de trabalho com as mulheres. O que há de novo é a frente de trabalho LGBT, que representa um grande avanço e interesse do movimento em debater um tema considerado tabu entre a população do campo, mas que é percebida como extremamente necessário para a construção de relações de gênero mais justas e igualitárias. Esse é mais um fator que demonstra o quanto a organização das mulheres pode acrescentar para o Movimento como um todo, o setor de gênero, constituído e dirigido por mulheres tem trazidos muitos avanços para o MST, para além da melhoria nas relações de gênero, seja através da formação e inserção de novos quadros políticos, seja na organização de atos públicos que dão
visibilidade para o movimento, seja na promoção de debates importantes presentes na sociedade, como a causa LGBT.
Organicamente o Setor de Gênero foi sendo conduzido de cabo a rabo, fio a pavio, por mulheres e isso já não incomodava mais. Fomos organizando grupos produtivos de mulheres nos assentamentos; pautando o tema da violência como política pública, mas também dentro do Movimento nas suas diferentes dimensões; aprofundamos os estudos de feminismo e marxismo, e a importância de demarcar um feminismo cam- ponês e popular (em debate, construção); fomos organizando intervenções em espaços internos; criando condições políticas para participação efetiva das dirigentes; projetando mulheres para assumir os grandes temas nos encontros; escrevendo nossa história e valorizando a memória das companheiras que forjaram a Organização; garantindo os espaços de auto – organização e as assembleias das mulheres e muitas outras coisas. (MST, 2017. P. 10)
O setor de gênero se consolidou e constitui hoje o que se tem de mais concreto para garantia dos direitos das mulheres no MST, representa o debate de gênero orgânico no Movimento, as mulheres na organicidade, fazendo a luta, pautando suas questões, discutindo, se formando e ganhando visibilidade.
3.6 CONSIDERAÇÕES GERAIS
As mulheres do MST, por se engajarem em um movimento social misto, precisam disputar cotidianamente seu espaço, reconhecimento e legitimidade dentro movimento, pois este não é isento das relações de opressão de gênero presentes na sociedade como um todo. Nesse estudo, percebemos que o MST foi evoluindo ao longo do tempo com relação à equidade de gênero nos postos de direção, muito devido a pressão e mobilização das mulheres que compõem esse movimento. É interessante perceber como as mulheres ao se organizarem e disputarem espaço dentro do MST tem conseguido transformar as situações de opressão e subordinação, e como podem ser articuladas as pautas dos movimentos sociais rurais e do movimento feminista, superando então o preconceito apontado por Siliprandi (2009), de que “agricultoras são sempre submissas ou de que as propostas do feminismo não tem nada a dizer aos movimentos rurais”.
As lideranças entrevistadas apresentam experiências de vida distintas, tanto com relação à forma como se aproximaram e se inseriram no Movimento, quanto à formação escolar/acadêmica, quanto à composição familiar e envolvimento e apropriação do debate feminista. Entretanto, essas mulheres enfrentam desafios similares para conseguirem se afirmar enquanto sujeitos políticos e obter respeito e reconhecimento dos homens que compõem o Movimento, e é essa similaridade – a opressão de gênero – que as une. Sobre
isso, Touraine (2007) comenta que, após longo tempo relegadas à subjetividade as mulheres almejam construir a si mesmas a partir de suas próprias experiências de vida. Nesse sentido, as mulheres do MST, ou ainda “o sujeito mulher sem terra” tem reivindicado o direito de construírem a si mesmas e participarem ativamente da construção do Movimento ao qual pertencem, sem ser previamente definidas ou estigmatizadas pelos outros.
No alinhamento e similaridades entre as experiências de vida das militantes entrevistadas percebe-se que, não é só a identidade comum de classe que promove aproximação e mobilização das mulheres enquanto grupo, contrariando a noção unificadora de experiência apresentada por Thompson a partir do viés de classe. Como vemos na cartilha do setor de gênero:
Enxergar a classe trabalhadora, não como um bloco homogêneo, mas no movimento das contradições sociais que formam os sujeitos da classe, é desafio fundamental para qualquer Organização que se proponha a ser Instrumento Político. Na história das organizações populares, esses sujeitos sociais só foram notados, a partir de uma combinação explosiva de auto-organização e rebeldia, que só é possível quando forjada num processo de conspiração silenciosa, nem sempre organizada. (MST, 2017, p.09)
O MST é um movimento de classe, porém não é um movimento homogêneo, assim enxergar as contradições que ocorrem dentro dessa classe e reconhecer opressões internas é fundamental para que se construa novas relações, seja de gênero, raça ou geração. O confronto interno, o debate, e o questionamento sobre essas opressões ocorrem mediante uma identificação dos membros que pertencem a um mesmo grupo identitário (como é o caso das mulheres), identidades essas que, como aponta Scott, não são fixas, mas se constroem discursivamente através da experiência.