PARTE II. CLIMA URBANO E CONFORTO TÉRMICO EM CURITIBA:
CAPÍTULO 1. METODOLOGIA DE PESQUISA E CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA
II. 1.2. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO: RECORTE ESPACIAL
II.1.2.3. O Setor Estrutural no Bairro Batel
O Eixo Estrutural Sul, um dos eixos que integram o sistema viário estrutural – sistema trinário composto por uma via central e duas vias externas - está inscrito dentro da Zona de Uso e Ocupação do Solo denominada Setor Especial Estrutural34, que estabelece diferentes parâmetros de uso e ocupação do solo segundo a via para a qual o terreno possui sua testada principal (via central, outras vias e vias externas).
Parâmetros de uso – apresentados nos anexos 1, 2 e 3 (páginas 146-148) - tais como taxa de ocupação, coeficiente de aproveitamento, número de pavimentos ou afastamento das divisas não variam de via para via e garantem a verticalização e o adensamento característico desses eixos (Figura II.1.7).
FIGURA II.1.7 – EIXO ESTRUTURAL SUL – AVENIDA REPÚBLICA ARGENTINA Fonte: IPPUC (2012)
34 Os Setores Especiais Estruturais compreendem os terrenos existentes entre as vias externas de tráfego contínuo que compõem o sistema viário estrutural. § 1º. Entende-se como sistema viário estrutural, o sistema trinário composto por uma via central e duas vias externas, sendo a via central aquela que contém a canaleta para o transporte de massa e as pistas lentas para atendimento às atividades lindeiras, e as vias externas, as ruas paralelas com sentido único de tráfego destinado ao fluxo contínuo de veículos. § 2º. Nos terrenos com frente para a via central dos Setores Especiais Estruturais deverá ser assegurada uma continuidade à testada comercial das novas edificações, através de proposta específica de ocupação, denominada Plano Massa. § 3º. Os critérios de ocupação e de implantação do “Plano Massa” serão regulamentados através de ato do Poder Executivo Municipal (PMC, 2000, Art.17).
Embora a área de estudo se apresente bastante consolidada, a proporção de área ocupada pelos edifícios não chega ao percentual 50%, que equivaleria à ocupação permitida pelos parâmetros da legislação atual (taxa de ocupação de 50%), correspondendo a aproximadamente 44% da área dos lotes, contidos na área de estudo. A explicação para esse valor reside justamente no fato da área ainda apresentar diversas habitações unifamiliares com amplos jardins e que ocupam mais de um lote, as quais, sob a pressão do mercado imobiliário tenderão a ser também substituídas por torres habitacionais ou de uso misto.
O traçado dos Eixos Estruturais aliado aos parâmetros e uso e ocupação do solo para ele previstos, redesenharam a forma urbana dando-lhe um aspecto
“tentacular” conformado pelos paredões de altos edifícios que acompanham estas vias e rasgam os diversos bairros, partido do centro urbano consolidado em direção à periferia e aos municípios limítrofes, conforme bem ilustra a Figura II.1.8.
FIGURA II.1.8 – FORMA URBANA “TENTACULAR” SETORES ESTRUTURAIS Fonte: IPPUC (2012a).
De acordo com Hardt et al (2008, p.5) pode-se “perceber que o grau de urbanização e a definição do traçado viário começam a se consolidar a partir de 1977, estando relativamente estruturados em 1985, quando ocorre a instalação dos terminais”. Acrescenta ainda que na década de 1990, é consolidado o eixo viário estrutural, também é a partir deste último período que se verifica, “constante redução na extensão de áreas verdes”. E conclui que o “traçado das quadras obedece
normalmente à configuração geométrica ordenada, sendo esta estrutura alterada em regiões com maiores declividades, estabelecendo-se de forma funcional”.
Oba (2004) relata que o novo zoneamento urbano acelerou a concentração de torres, exclusivamente nas estruturais, tendo produzido “uma paisagem de continuidade linear e não a de concentrações nucleares entremeadas de áreas de transição”. O Autor discute o modo como a formação dos corredores das vias estruturais interferiu na paisagem, e questiona:
É de se indagar o que de fato ocorreu com as relações transversais ao novo eixo, ou seja, as antigas relações urbanas nucleares e radiais. Igreja da Água Verde, o Estádio do Clube Atlético Paranaense, os clubes, os antigos colégios e hospitais são hoje, elementos dispersos e aparentemente sem nenhuma estrutura comum de nexos urbanos. Parte deles como que gravitam na órbita mais afastada do centro da cidade e outros são percebidos com uma relação mais próxima com a estrutural formada pelas avenidas Sete de Setembro e República Argentina (OBA, 2004).
Quanto aos terminais de transporte urbano, implementados com a agilidade e flexibilidade necessária na época, Oba (2004) evidencia que estes deixaram algumas questões abertas à discussão. “Em alguns locais, a sensação é de que o antigo centro de bairro foi substituído por um grande terminal de ônibus. Um terminal sem uma identidade própria já que em grande parte é padronizada”.
A partir do estudo dos eixos estruturais, pode-se concluir que o sistema viário, além de estruturar a malha urbana, ainda atua como indutor do crescimento. Ainda, que implantação destes eixos promoveu a valorização dos imóveis e a revisão da legislação de uso e ocupação do solo impulsionaram uma significativa transformação nos padrões de adensamento, alterando significativamente a estrutura espacial da cidade, gerando e produzindo “corredores” de massa edificada, resultando numa continuidade linear da paisagem urbana. Constatando-se, portanto, o relevante caráter transformador do plano na configuração da morfologia e da paisagem urbana, alterando a cidade de modo inexorável. Portanto, para novas intervenções deve-se preservar o caráter existente, de forma a não destituir a sua identidade característica (HARDT et al, 2008, p.11). As Figuras II.1.9 e II.1.10 demonstram a força dos Eixos Estruturais sobre a cidade de Curitiba e a paisagem resultante desta proposta.
Apesar de certas áreas da cidade terem sido alvo de poucas interferências, as regiões próximas aos terminais de transporte coletivo situados nas estruturais sofreram
impactos significativos, podendo-se afirmar que a influência do Plano Serete na paisagem de Curitiba é irrefutável. Por outro lado, a área central, com ocupação urbana já consolidada quando da implantação do plano, teve sua paisagem sujeita a reduzidas ações impactantes; presenciando quase que exclusivamente a modernização do equipamento urbano, com manutenção das suas características principais, apenas adicionando novas ou assumindo usos diferenciados (HARDT et al, 2008, p.16).
FIGURA II.1.9 – FORMA URBANA RESULTANTE EIXO NORTE-SUL
FIGURA II.1.10 – SISTEMA TRINÁRIO E FORMA URBANA
Fonte: IPPUC (2012a). Fonte: IPPUC (2012a).