ESTRANGEIROS NO MERCADO DE TRABALHO
7.1. Setores de atividade e grupos profissionais
Mantendo a tendência das últimas décadas, nos anos de referência deste relatório, verifica-se que os trabalhadores estrangeiros continuam sobre representados nos grupos profissionais da base do mercado de trabalho português (grupos 7, 8 e 9). Mais de metade dos trabalhadores estrangeiros encontra-se nesses três grupos profissionais. Em 2015 os trabalhadores por conta de outrem estrangeiros desses grupos profissionais representavam 51,3%. Essa importância relativa é bastante expressiva por comparação aos portugueses, que apenas assume 38,8% dos seus trabalhadores por conta de outrem nos grupos
profissionais da base, ou seja, os estrangeiros apresentam +13 pontos percentuais de trabalhadores nesses grupos profissionais. O outro grupo profissional onde os estrangeiros estão mais representados corresponde ao grupo dos trabalhadores dos serviços pessoais, de proteção e segurança e vendedores (24,2% dos trabalhadores estrangeiros em 2015, traduzindo +3 pontos percentuais por comparação à distribuição dos portugueses) – vd. gráfico 7.3 e quadro 7.1.
Gráfico 7.3. Trabalhadores conta de outrem, portugueses e estrangeiros, por grupo profissional, 2015 (%)
Fonte: Quadros de Pessoal, GEP/MTSSS (sistematização e cálculos das autoras).
Nota: Grupos Profissionais: GP1-Representantes do poder legislativo e de órgãos executivos, dirigentes, diretores e gestores executivos; GP2-Especialistas das atividades intelectuais e científicas; GP3-Técnicos e profissões de nível intermédio; GP4-Pessoal administrativo; GP5-Trabalhadores dos serviços pessoais, de proteção e segurança e vendedores; GP6-Agricultores e trabalhadores qualificados da agricultura, da pesca e da floresta; GP7-Trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices; GP8-Operadores de instalações e máquinas e trabalhadores da montagem; GP9-Trabalhadores não qualificados.
Em contraste, nos grupos profissionais de topo os trabalhadores estrangeiros estão sub-representados: em 2015 os grupos profissionais 1 (dirigentes) e 2 (especialistas de atividades científicas) concentravam apenas 7,4% dos trabalhadores estrangeiros registados nos Quadros de Pessoal, menos 7,6 pontos percentuais que o verificado no caso dos trabalhadores portugueses, verificando-se de forma acrescida que o número de trabalhadores desses grupos diminuiu nos últimos anos (-7% no grupo 1 e -3% no grupo 2 de 2011 para 2015, contrastando neste último grupo com o crescimento observado no caso dos trabalhadores portugueses de +6%) – vd. gráfico 7.3 e quadro 7.1.
Ainda que persista alguma segmentação do mercado de trabalho português em função da nacionalidade e que os trabalhadores estrangeiros continuem sobre representados nos trabalhos menos atraentes do mercado de trabalho português, de mais baixas ou nulas qualificações com condições de trabalho mais duras e com elevados níveis de insegurança, nos últimos anos observa-se uma ligeira diluição desta concentração, em especial no grupo profissional de base 7. Os dados dos Quadros de Pessoal permitem mostrar que desde o início da década têm diminuído os trabalhadores por conta de outrem estrangeiros registados nos Quadros de Pessoal (-13,5%), verificando-se, contudo, que essa diminuição é mais evidente nalguns grupos profissionais que noutros. Os trabalhadores estrangeiros diminuíram mais nos grupos profissionais da base: de 2011 para 2015 verifica-se -34,7% de trabalhadores estrangeiras no grupo 7, dos trabalhadores da indústria e da construção (quando a diminuíram apenas 7,9% no caso dos trabalhadores portugueses) e -18,8% no grupo 8 (os portugueses diminuíram no mesmo período apenas 0,5%). No grupo 5 dos trabalhadores dos serviços e vendedores verifica-se também uma quebra expressiva de trabalhadores estrangeiros (-14,7% entre 2011 e 2014) que contrasta com o ligeiro aumento no caso dos trabalhadores portugueses desse mesmo grupo profissional (+3,8%). Os grupos profissionais com maiores perdas de trabalhadores refletem na realidade as quebras dos setores económicos mais afetados pela crise económica e financeira vivida em Portugal desde final da década passada (vd. quadro 7.1).
Verifica-se, contudo, algumas melhorias de 2014 para 2015 na evolução dos trabalhos por conta de outrem estrangeiros contabilizados nos Quadros de Pessoal: nota-se um aumento global dos trabalhadores
12,5
estrangeiros (+5,1%) e portugueses (+3,1%), e, para o caso dos estrangeiros, um aumento mais expressivo nos grupos profissionais 9, dos trabalhadores não qualificados (+4,4%, passando de 35.931 trabalhadores em 2014 para 37.524 em 2015), grupo 6 dos trabalhadores agrícolas (+8,9%, passando de 3.930 para 4.281 trabalhadores) e grupos profissionais 4 (de pessoal administrativo) e 5 (serviços pessoais e vendedores), com +9,2% (de 9.223 trabalhadores para 10.076) e +7,2% (de 26.226 trabalhadores para 28.103), respetivamente. Esta variação positiva entre anos reflete sinais de recuperação do emprego dos trabalhadores estrangeiros face aos primeiros anos desta década (vd. quaro 7.1.).
Quadro 7.1. Trabalhadores por conta de outrem, portugueses e estrangeiros, por grupo profissional, em 2014 e 2015, e taxa de variação entre 2011 e 2015 (Portugal Continental)
Grupos profissionais
Portugueses Estrangeiros Taxa de variação Taxa de variação
2014 2015 2014 2015 2011-2015 2014-2015
N % N % N % N % Port. Estrang. Port. Estrang.
GP1 100.117 4,3 99.328 4,1 2.802 2,5 2.909 2,5 -10,5 -8,6 -0,8 3,8 GP2 251.825 10,7 262.843 10,9 5.533 5 5.698 4,9 5,6 -3,4 4,4 3,0 GP3 241.006 10,3 245.712 10,1 5.043 4,6 5.328 4,6 -3 -6 2,0 5,7 GP4 320.595 13,7 329.514 13,6 9.223 8,4 10.076 8,7 -0,5 7,4 2,8 9,2 GP5 495.974 21,1 515.743 21,3 26.226 23,8 28.103 24,2 3,8 -14,7 4,0 7,2 GP6 27.563 1,2 27.945 1,2 3.930 3,6 4.281 3,7 6,5 8,6 1,4 8,9 GP7 355.620 15,1 362.810 15 13.189 11,9 13.578 11,7 -7,9 -34,7 2,0 2,9 GP8 266.342 11,3 271.911 11,2 8.462 7,7 8.466 7,3 -0,5 -18,8 2,1 0,0 GP9 286.993 12,2 303.893 12,5 35.931 32,5 37.524 32,3 6,8 -10,2 5,9 4,4 Sem profissão
atribuída 1.737 0,1 1943 0,1 52 0,05 48 0 759,7 152,6 11,9 -7,7 Total 2.347.772 100 2.421.642 100 110.391 100 116.011 100 0,1 -13,5 3,1 5,1
Fonte: Quadros de Pessoal, GEP/MTSSS (sistematização e cálculos das autoras).
Nota: Grupos Profissionais: GP1-Representantes do poder legislativo e de órgãos executivos, dirigentes, diretores e gestores executivos; GP2-Especialistas das atividades intelectuais e científicas; GP3-Técnicos e profissões de nível intermédio; GP4-Pessoal administrativo; GP5-Trabalhadores dos serviços pessoais, de proteção e segurança e vendedores; GP6-Agricultores e trabalhadores qualificados da agricultura, da pesca e da floresta; GP7-Trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices; GP8-Operadores de instalações e máquinas e trabalhadores da montagem; GP9-Trabalhadores não qualificados.
Quadro 7.2. Trabalhadores por conta de outrem estrangeiros, por grupo profissional, em 2008, 2011 e 2015 (Portugal Continental) Grupos profissionais 2011 2014 2015 Diferença em pontos
percentuais 2014-2015
Diferença em pontos percentuais 2011-2015
GP1 2,4 2,5 2,5 0,0 +0,1
GP2 4,4 5,0 4,9 -0,1 +0,5
GP3 4,2 4,6 4,6 0,0 +0,4
GP4 7,0 8,4 8,7 +0,3 +1,7
GP5 24,6 23,8 24,2 +0,4 -0,4
GP6 2,9 3,6 3,7 +0,1 +0,8
GP7 15,5 11,9 11,7 -0,2 -3,8
GP8 7,8 7,7 7,3 -0,4 -0,5
GP9 31,2 32,5 32,3 -0,2 +1,1
Sem profissão atribuída 0,0 0,1 0,0 -0,1 +0,0
Total N 134.064 110.391 116.011 - -
Fonte: Quadros de Pessoal, GEP/MTSSS (cálculos das autoras).
Torna-se, pois, relevante analisar mais aprofundadamente de que forma tem evoluído a distribuição dos estrangeiros por grupos profissionais nos últimos anos. Considera-se para esse efeito a evolução em dois períodos de referência: entre 2011 e 2015 (desde o início da presente década) e entre 2014 e 2015, para aferir o que muda nos últimos anos. Como o quadro 7.2. ajuda a compreender é no grupo profissional 7
(Trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices) que mais se observam quebras acentuadas de trabalhadores estrangeiros: de 23% em 2008, os trabalhadores deste grupo profissional passam a representar apenas 15,5% no início desta década (em 2011), mantendo a evolução decrescente em 2014, passando para apenas 11,9%, e em 2015 para apenas 11,7% (-7,5 pontos percentuais de 2008 para 2011, de 2011 para 2015, -3,8 pontos percentuais, e entre anos -0,2pp). Nos últimos anos da década anterior verifica-se que a diminuição da importância relativa dos trabalhadores do grupo profissional 7 gerou um aumento da importância relativa dos trabalhadores do grupo 5 (+3,8 pontos percentuais), do grupo profissional 2 (+1,6 pontos percentuais) e do grupo profissional 9 (+1,3 pontos percentuais). Já nos primeiros anos da presente década (entre 2011 e 2015) as perdas de importância relativa do grupo 7, estão a ser compensadas por aumentos de importância relativa de trabalhadores estrangeiros nos grupos profissionais 4 (+1,7 pontos percentuais, passando a concentrar 8,7% dos trabalhadores estrangeiros), algum crescimento dos grupos profissionais de topo (e.g. grupo profissional 2 passa a concentrar 5% dos trabalhadores estrangeiros) e uma vez mais do grupo 9 (+1,1 pontos percentuais).
Quadro 7.3. Trabalhadores por conta de outrem, portugueses e estrangeiros, por atividade económica em 2014 e 2015 (Portugal Continental) Atividade económica (CAE)
Portugueses Estrangeiros Taxa de variação
2011-2015 Fonte: Quadros de Pessoal, GEP/MTSSS (cálculos das autoras).
A análise por atividades económicas reforça ainda mais os efeitos da crise económica dos últimos anos na inserção dos trabalhadores por conta de outrem estrangeiros (vd. quadro 7.3): entre 2008 e 2015 a atividade económica da construção perdeu cerca de dois terços dos trabalhadores por conta de outrem estrangeiros (eram 37.769 os trabalhadores estrangeiros registados nos Quadros de Pessoal nesse grupo profissional, passando para 9.612 trabalhadores). Entre 2011 e 2015 a mesma atividade teve uma taxa de variação de trabalhadores estrangeiros de -46,4%, quando no caso dos trabalhadores portugueses a variação foi de -24,5%, ou seja, as perdas de trabalhadores da construção tiveram mais impacto nos estrangeiros (-22 pontos percentuais).
Verifica-se, por outro lado, nos anos de referência deste relatório, um crescimento do número de trabalhadores estrangeiros em outras atividades onde esses trabalhadores não têm assumido uma importância relativa tão expressiva (vd. quadro 7.3.): de 2011 para 2015, as maiores taxas de variação verificam-se nas atividades da agricultura e pecuária (+39,6% de trabalhadores estrangeiros, quando o crescimento dos trabalhadores portugueses foi de +15,3%), nas atividades de informação e comunicação (+29% de trabalhadores estrangeiros), nas atividades imobiliárias (+11,57% de trabalhadores estrangeiros nessas atividades económicas), nas atividades artísticas (+8,5%) e nas atividades de consultoria, científicas e técnicas (+5,4% de trabalhadores estrangeiros).
De 2014 para 2015, verificam-se, porém, sintomas de recuperação: como referido antes, entre estes dois anos aumentou o número de trabalhadores estrangeiros registados nos Quadros de Pessoal (+5,1%), acompanhando também a evolução positiva no caso dos trabalhadores portugueses (+3,1%). Em 2015 as atividades com mais trabalhadores estrangeiros continuaram a ser as atividades de alojamento, restauração e similares (19,9%, o equivalente a 23.142 trabalhadores), as atividades administrativas e serviços de apoio (em 2015 concentram 19% dos trabalhadores estrangeiros, mas -13,6% por comparação a 2011), as atividades do comércio por grosso e a retalho (13,9% dos trabalhadores estrangeiros), as atividades das indústrias transformadoras (10,2% dos trabalhadores, embora -12,4% que em 2011), e as atividades da construção (8,3%).
Quadro 7.4. Trabalhadores por conta de outrem por grupo profissional e principais nacionalidades, em 2015 (Portugal) (%)
Grupos profissionais
Portugueses Total estrangeiros Brasil Cabo Verde Ucrânia Roménia China Angola Reino Unido
GP1 4,1 2,6 2,0 0,3 0,4 0,4 4,2 2,6 14,0
GP2 10,8 5,0 3,8 1,2 1,3 1,1 2,0 5,2 34,5
GP3 10,1 4,6 5,0 1,8 2,3 2,1 2,5 6,2 10,0
GP4 13,6 8,7 9,2 3,9 4,3 4,4 6,5 9,3 13,6
GP5 21,6 24,3 35,6 22,9 12,9 14,7 69,3 27,8 18,6
GP6 1,2 3,7 2,0 0,8 4,8 10,1 0,1 1,1 0,7
GP7 14,9 11,7 10,9 10,5 23,9 17,6 0,2 12,1 2,3
GP8 11,0 7,3 7,0 2,2 17,2 11,4 0,4 5,2 1,4
GP9 12,7 32,1 24,5 56,4 32,8 38,3 14,8 30,3 4,7
Sem profissão atribuída 0,1 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,1 0,3
Total % 100 100 100 100 100 100 100 100 100
Total N 2.515.425 117.459 23.674 12.993 15.186 8.428 4.850 5.284 1.703 Fonte: Quadros de Pessoal, GEP/MTSSS (cálculos das autoras).
Nota: Grupos Profissionais: GP1-Representantes do poder legislativo e de órgãos executivos, dirigentes, diretores e gestores executivos; GP2-Especialistas das atividades intelectuais e científicas; GP3-Técnicos e profissões de nível intermédio; GP4-Pessoal administrativo; GP5-Trabalhadores dos serviços pessoais, de proteção e segurança e vendedores; GP6-Agricultores e trabalhadores qualificados da agricultura, da pesca e da floresta; GP7-Trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices; GP8-Operadores de instalações e máquinas e trabalhadores da montagem; GP9-Trabalhadores não qualificados.
Á semelhança do observado em outros indicadores verifica-se, porém, que a população estrangeira não é um todo homogéneo, não distribuindo os seus trabalhadores de forma homogénea pelos grupos profissionais (vd. quadro 7.4). Em 2015, entre as dez nacionalidades estrangeiras numericamente mais representadas nos residentes em Portugal, eram os cabo-verdianos os mais associados ao grupo profissional 9 dos trabalhadores não qualificados (56,4% dos seus trabalhadores integravam profissões desse grupo), seguidos dos romenos (38,3 dos trabalhadores com essa nacionalidade). No caso dos trabalhadores por conta de outrem brasileiros, o grupo profissional que concentrava mais efetivos registados nos Quadros de Pessoal era o grupo 5 (trabalhadores dos serviços pessoais e vendedores) com 35,6%; importância relativa quase duplicada no caso dos chineses, em que 69,3% dos trabalhadores dessa nacionalidade exerciam profissões de vendedores nesse grupo. Em contrapartida, os trabalhadores nacionais do Reino Unido contabilizados nos Quadros de Pessoal surgem mais representados no grupo profissional 2 de especialistas e atividade científicas (34,5% dos seus trabalhadores).