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2 SIGILO NO PROCESSO PENAL

2.2 Sigilo externo

O sigilo externo impõe-se a pessoas estranhas à causa, inclusive à

imprensa, fundamentando-se na defesa da intimidade dos envolvidos no

processo (autor, vítima e testemunhas).

Nesse sentido, prevê o art. Art. 5.º, LX, da CF/88 que “A lei só

poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da

intimidade ou o interesse social o exigirem.”

O Pacto de São José da Costa Rica, internalizado em nosso

ordenamento jurídico, caminha no mesmo rumo:

- Ar t. 11.2 . Ningué m p ode ser objeto d e inger ências arb itr árias o u abusivas em sua vida pr ivada, em sua fa mília, em seu do micílio o u em sua correspo ndência, nem de o fensas ilegais à sua ho nra o u reputação.

Assim, o sigilo externo não se aplica somente ao processo penal,

podendo ser decretado, por exemplo, em causas cíveis, que envolvam direito

de família, objetivando resguardar a honra e a intimidade dos envolvidos,

direitos esses amparados no art. 5.º, X, de nossa Carta Magna

31

.

Na esfera penal, contudo, tem sido cada vez mais frequente a

divulgação sensacionalista (muitas vezes irresponsável) pela mídia de

ocorrências policiais, transformando a notícia divulgada em verdadeiro

espetáculo, como forma de aumento da audiência.

A forma parcial como têm sido divulgados os fatos criminais pela

mídia muitas vezes apresenta o suspeito ou indiciado já como condenado,

apesar de sequer se ter a conclusão da investigação, sendo a matéria

jornalística, mercenária, veiculada como decreto de morte moral do indivíduo,

submetido a investigações que apenas se iniciaram. Em certos casos de maior

repercussão, notadamente aqueles que envolvam pessoas públicas, a

31 Art. 5.º, X, da CF/88: “(...) são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas,

população os acompanha diariamente, como uma telenovela da vida real,

sendo inclusive motivo de fervorosos debates em rodas de conversa sociais,

onde cada qual expõe seu veredicto.

Não se pode desconsiderar ainda que, não bastasse a irreversível

“condenação antecipada” do investigado perante a população, a interferência

desmedida da imprensa nas investigações policiais prejudica-as, na proporção

em que anuncia, de modo detalhado, o progresso da investigação, inclusive

ações ainda por realizar, pondo em risco seu sucesso, sem falarmos, ainda, da

pressão exercida sobre o juiz da eventual ação penal correspondente.

Nas palavras de Ana Lúcia Menezes Vieira

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:

(...) Além d esse efeito avassalador na imagem do investigado, a pub licidade mid iática d o inq uér ito po licial atinge o utro s valores também r elevantes co mo a função estatal de r epressão ao cr ime, na med ida em q ue turbam a realização d as investigaçõ es criminais, além do s princíp io s da amp la defesa e da p resunção de ino cência do ind iciado.

Por outro lado, exerce a mídia papel de suma importância, como

forma de conferir transparência e legitimidade aos atos administrativos, neles

incluídos os atos investigativos policiais e os atos judiciais, mormente quando

a investigação envolve pessoas de elevada condição econômica e/ou

influência, considerando-se o alto índice de corrupção inegavelmente

instalada no Estado brasileiro. Nesse contexto, pode-se afirmar que a

imprensa assume papel fundamental de difundir informações pelos meios de

comunicação de massa, possibilitando o conhecimento dos acontecimentos e

rumo do país e do mundo, sendo, pois, ferramenta a possibilitar o exercício

efetivo da cidadania e uma forma de manifestação das liberdades de

pensamento, expressão e informação, direitos esses também amparados

constitucionalmente (art. 5.º, IV

33

e IX

34

).

32 VIEIRA, Ana Lúcia Menezes. Processo penal e mídia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003, p. 192. 33 Art. 5.º, IV, da CF/88: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”.

34 Art. 5.º, IX, da CF/88: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação,

Ainda sobre a influência da mídia em investigações criminais,

continua Ana Lúcia Menezes Vieira

35

, advertindo que:

(...) Não há dúvida de que a míd ia, por vezes, contr ib ui util mente co m a atividad e policial. E m cer tos casos tor nam-se necessár io s a pub licação d a foto gr afia de um cr iminoso em jornais e em o utro s meio s de co municação e o descobr imento de ind ício s de autoria, da localização da víti ma, de eventuais testemu nhas, investigaçõe s estas q ue poder ão ser desenvo lvid as co m a divulgação do fato criminoso pela i mprensa. Assi m, a p ublicid ade pela mídia e m tor no do delito, às vezes, traz dados valio so s e decisivo s para o êxito do inq uérito po licial.

Visto isso, tem-se, por vezes, existência de conflito entre direitos

igualmente garantidos pela Constituição Federal, a saber, direito a livre

manifestação do pensamento e à informação, contrapostos ao direito à

imagem, honra e intimidade, entendendo-se caber ao Judiciário, quando

necessário, decidir acerca da prevalência de uma e de outra garantia,

conforme o caso concreto, valendo-se para isso do princípio da

proporcionalidade.

Concernente o tema, aos 31/12/2004, foi publicada a Emenda

Complementar 45, que deu nova redação a, dentre outros, o art. 93, IX, da

Constituição Federal de 1988, com o seguinte teor:

- Art. 93. Lei co mplementar , de iniciativa d o Supremo T ribunal Feder al, d ispo rá sob re o Estatuto da Magistratura, obser vado s os seguintes pr incípio s:

(...)

IX - todo s o s j ulga mento s dos ór gão s do Poder J udiciár io ser ão púb lico s, e fundamentad as todas as decisões, so b pena de nulid ade, podendo a lei limitar a presença, em d eter minados ato s, às próp rias partes e a seus ad vo gad os, o u so mente a estes, em casos no s q uais a preser vação do direito à inti midad e do inter essado no sigilo não prejudiq ue o inter esse p úblico à infor mação.

A interpretação literal desse dispositivo remete à idéia de

sobreposição do direito público à informação sobre o direito individual à

intimidade, visto que o sigilo dos atos processuais somente poderia ser

imposto se não prejudicasse o direito à informação.

Não se tendo aqui a menor pretensão de tentar resolver o impasse,

mantendo-se o posicionamento acima exposto, apresenta-se a interessante

opinião de Diego Fajardo Maranha Leão de Souza e Rosimeire Ventura

Leite

36

, verbis:

(...) Ver ifica-se, no ponto , verdadeira co lisão entr e duas nor ma s constitucio nais. De um lado, cr avada no rol de direito s funda mentais, está a inviolab ilidade da intimidade; de o utro , na seara da p ublicid ade do s ato s j udiciais, agor a co nsta dispo sição q ue gar ante o interesse p úblico à infor mação co ntr a qualq uer sigilo q ue vise a (sic) pro teção d essa mesma intimidade. Co nstata-se, po is, quebr a d a har mo nia d o sistema co nstitucio nal p elo legislador refor mador.

Enco ntra mo -no s, em verdade, diante de uma nor ma co nstitucio nal inco nstitucio nal. Ao pretender supri mir um d ireito assegurado em cláusula pétrea, o pod er co nstituinte refor mad or fo i alé m de seus poderes co nstitucio nalmente estab elecido s ( art. 60, § 4.º , da CF/88). A invio lab ilid ade do d ireito à intimidade, nor ma de catego ria fund amental, está imune a investidas do co nstituinte refor mador, a não ser que se proceda a uma r evolução e conseq uente instalação de no va ordem co nstitucio nal, o q ue se ad mite apenas em face de poder co nstituinte originár io. Ao pretend er estatuir q ue o inter esse p úblico à infor mação não pode ser “pr ejud icado ” pelo sigilo eventualmente necessár io à proteção d a inti midad e de algu m inter essado, o co nstituinte aniq uilo u um direito individ ual fund amental em razão de um interesse p úblico identificado co m a necessidad e de p ublicidade de tudo, de todo s e sempr e. Ao fazê-lo, incorreu em vício de ordem material, porq uanto atentató rio a cláusula imod ificável da Co nstituição.

36 FERNANDES, Antônio Scarance; ALMEIDA, José Raul Gavião de; MORAES, Maurício Zanoide de. Sigilo

Continuam os mencionados autores, criticando a parte final do

mencionado dispositivo, concluindo que cabe ao Poder Judiciário, em

controle concentrado ou difuso, afastar sua aplicação irrestrita.

Guilherme de Souza Nucci

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, entendendo tratar-se o caso de conflito

aparente de normas constitucionais, também defende a ponderação judicial em

cada caso concreto. Confira-se:

(...) O co nflito entre o d ispo sto no ar t. 5.º , LX, e o art. 93, IX (co m no va r edação) é apenas aparente. E m pr imeiro lugar, co ntinua em vigor a garantia fundamental da pub licid ade, co m as exceções do art. 5 .º , LX, q ue são a preser vação da intimidade e o inter esse da sociedad e. E m segundo lugar, o art. 93, IX, passa a referir -se expr essamente à preser vação d a inti midad e (q ue antes não havia), ressalvado o interesse p úblico à infor mação, entendendo -se ap enas que não deve o juiz exager ar na dose de interpr etação do que vem a ser inti midad e para não prejudicar o dir eito da sociedade de aco mpanhar o q ue se passa no pro cesso .

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