• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO I - FILOSOFIA E CINEMA

1.3 SIGNIFICAÇÃO E LINGUAGEM POR INTERMÉDIO DA

A evolução clássica da aplicabilidade e do desenvolvimento da escrita como uma forma de transcrever de forma metódica aquilo que pode ser expresso por intermédio da oralidade, fez com que o homem praticamente esquecesse uma das formas originais da linguagem, a saber, a linguagem não verbal. Esqueceu-se que na sua origem, o homem não utilizava a fala muito menos a escrita, recorrendo sempre a uma linguagem icônica por meio de imagens, sinais e gestos carregados de uma significação. Assim a imagem foi uma das primeiras formas de comunicação e de expressão do ser humano, uma forma pela qual ele estabeleceu uma ligação e um entendimento sobre a sua realidade. A imagem não é criação do ser humano, pois antes de qualquer invento criado para a captura de imagens, a própria natureza já se encarregava de fornecer ao homem imagens afetando a sua percepção como um instrumento potencialmente forte para a compreensão imediata das coisas, mesmo que tal compreensão fosse fragmentada e não científica. A percepção é o canal espontâneo e natural pelas quais as imagens remetem a possíveis

significações, construindo um universo de sentido, configurando-se como um tipo bastante peculiar de linguagem. Sobre a percepção Merleau-Ponty nos diz o seguinte:

A percepção analítica, que nos dá o valor absoluto dos elementos isolados, corresponde, portanto, a uma atitude tardia e excepcional, é aquela do cientista que observa ou do filósofo que reflete; a percepção das formas, no seu sentido geral de percepção de estrutura e de conjunto ou de configuração, deve ser considerada como o nosso modo de percepção espontâneo (PONTY, 1948, p. 62-63).

Desde a antiguidade paira sobre a aura da imagem uma certa ambigüidade quanto a sua essência e finalidade. Por exemplo, enquanto “Platão a encarava como tendo um caráter enganador, Aristóteles via na imagem um elemento potencialmente educador. Para o primeiro filósofo a imagem o desvia da verdade, para o segundo o conduz em direção ao conhecimento” (JOLLY, 2000, p.19). É sobre este caráter ambíguo que a imagem se coloca nos dias atuais, porém não somente como um objeto de contemplação estética, mas como uma fonte de linguagem iconográfica que deve e precisa ser interpretada.

No século XX a semiótica irá caracterizar-se como uma ciência geral das linguagens, oferecendo elementos para a leitura do não verbal e, portanto, habilitada para a leitura da imagem. Embora tenha surgido ao mesmo tempo em lugares distintos (EUA, URSS e na Europa Ocidental) a semiótica projetou-se tendo como base a fenomenologia. Neste contexto, Charles Sanders Peirce foi considerado “um dos precursores da semiótica estabelecendo uma concepção tríade da compreensão do fenômeno enquanto objeto de percepção destacando-se pela qualidade, relação/reação e representação/mediação por meio da análise de como as coisas aparecem na consciência” (ROCHA, 2005, p. 53). Peirce (1977) nomeou tais categorias da seguinte forma:

Primeiridade: onde a categoria imediata à consciência é o sentimento desprevenido, o feeling da percepção das coisas;

Secundidade: como uma categoria que se manifesta como uma espécie de reação ao mundo cotidiano que nos é externo, ou seja, trata-se simplesmente do fato do existir embora possa ser traduzido ocasionalmente como ocorrência, luta ou embate (struggle);

Terceiridade: é a categoria que nos permite interpretar, compreender e conhecer o mundo por meio da inteligibilidade de seus múltiplos signos.

Assim a primeiridade (qualidade) é o feeling, aquele sentimento ou impressão desprevenida que nos desperta para a percepção do objeto, a secundidade é a corporificação do feeling, pois toda impressão ou sentimento necessita de um substrato para a sua materialização. Já a terceiridade é a forma pela qual a nossa consciência faz o encadeamento do sentimento (feeling) com o embate causado pela percepção do objeto (struggle).

A imagem é um signo. O signo para Peirce (1977) é algo que tem origem natural ou humana e que representa algo para alguém. O signo é a imagem de seu objeto, embora um signo sempre construa outro signo. Peirce (1977) afirma que um signo é “qualquer coisa que nos conduz a outra coisa ao referir-se a um objeto ao qual ela mesma se refere de modo idêntico, transformando o interpretante”

(PEIRCE, 1977, p.74). Cabe salientar que o interpretante não se restringe apenas ao intérprete, mas também “aquilo que assegura a validade do signo mesmo na ausência do intérprete” (ECO apud ROCHA, 1980, p.58).

[...] o significado de um signo é outro signo – seja este uma imagem mental ou palpável, uma ação ou mera reação gestual, uma palavra ou um mero sentimento de alegria, raiva [...] uma idéia, ou seja lá o que for – porque esse seja lá o que for, que é criado na mente pelo signo, é um outro signo (SANTANELLA apud ROCHA, 1990, p.79).

Uma imagem é um signo, porém, a imagem de um “gato”, por exemplo, é ao mesmo tempo um signo factual e material enquanto algo exterior, a qual Peirce chama de “signo dinâmico”. Porém quando reduzido à palavra “gato” ele passa a ser outro signo enquanto palavra, algo que está no seu interior sendo interpretado por Peirce como “signo imediato”. Por isso o significado de um signo é sempre outro signo assim como o “gato” é tanto a impressão vívida, quanto a representação mental que se faz dele, assim como a palavra a qual estabelece ligação do significado com o significante. Um signo remete sempre a outro signo e este encadeamento de signos é o que corporifica uma linguagem imagética ou icônica.

Esta linguagem icônica ou imagética sempre esteve presente no cotidiano do homem, dos primórdios até a atualidade. No trânsito, por exemplo, o grande cânone da linguagem é o signo (como símbolo), placas que indicam regulação ou proibição,

“falam com o ser humano” por meio de signos, constituindo uma linguagem própria

que não precisa de mediadores nem de tradutores, porque tal linguagem comunica.

Peirce atribui ao signo duas diferentes dimensões, “a primeira é “diádica”

considerada mais dinâmica e a segunda “triádica”, ligada à inteligência assegurando ao signo a sua atuação no processo de comunicação” (ROCHA, 2005, p.59).

Peirce considera o signo um meio de comunicação, pois possui uma função mediadora diante do objeto e da representação mental que se faz dele. Porém a forma como os signos relacionam-se no interior de nossa consciência apresenta algumas peculiaridades, o que conduziu Peirce a classificar o signo dentro de uma dimensão triádica a qual denominou índice, ícone e símbolo.

[...] descobriu-se que há três tipos de signos indispensáveis ao raciocínio; o primeiro é o ícone que ostenta uma semelhança ou analogia com o sujeito do discurso; o segundo é o índice que, tal como um pronome demonstrativo ou relativo, atrai a atenção para o objeto particular que estamos visando sem descrevê-lo; o terceiro é o símbolo, nome geral ou descrição que significa o objeto por meio de uma associação de idéias ou conexão habitual entre o nome e o caráter significativo (PEIRCE, 1977, p.10).

Essa relação triádica do signo proposta por Peirce (1977) é de fundamental importância para justificar a imagem como sendo capaz de comunicar algo e que, portanto, pode configurar-se dentro de uma cadeia de signos como uma forma de linguagem passível de estabelecer comunicação. Cabe ressaltar que fora essa relação triádica do signo proposta por Peirce, o próprio signo para o autor é qualquer coisa que representa algo para alguém, seja mental, verbal, algo abstrato ou concreto. O signo possui, a saber, três elementos em sua constituição, o

“representâmen” que é a forma pela qual algo é representado, o “objeto” que é a coisa representada e o “representante” que é como essa coisa será interpretada.

Vejamos o exemplo abaixo:

FIGURA 4 – CRUZ FONTE: O autor (2013)

- O “objeto” da figura acima é a cruz.

- O “representâmen” é a forma como ela foi desenhada, em duas dimensões, representada na cor preta na posição vertical.

- O “representante” é a significação que ela assumiu para nós, de acordo com a nossa percepção. Para os cristãos ela simbolizaria a morte de Cristo crucificado, no entanto, para um romano do séc. I a.C seria apenas a representação de um mecanismo utilizado para matar ladrões e criminosos de acordo com a lei geral do Império Romano. O representante é um elemento chave na comunicação, pois ele remete a significação e esta pode assumir diferentes perspectivas dependendo do contexto cultural de quem a percebe.

O “índice” para Peirce é um signo que está conectado fisicamente com o objeto, onde a mente interpretante não possui relação com tal signo. “Por exemplo, o caso de um molde com um buraco de bala como signo de um tiro, pois sem o tiro não teria existido o buraco, porém nele existe um buraco, quer tenha alguém ou não a capacidade de atribuí-lo a um tiro” (PEIRCE, 1977, p.74).

Nenhuma questão de fato pode ser asseverada sem o uso de um signo que sirva como índice. Se A diz a B “há um incêndio”, B perguntará “onde?”

Então A se verá forçado a recorrer a um índice, mesmo que ele esteja fazendo referência a um lugar qualquer no universo real, passado ou futuro.

Caso contrário teria dito apenas que existe uma ideia de fogo que não se vincularia a informação alguma [...] (PEIRCE, 1977, p.74-75).

O conceito de “ícone” manifesta-se segundo Peirce, quando o signo se refere ao objeto em virtude de sua aparência e não de acordo com a sua conexão física ao objeto representado, como observamos com o índice. Para compreendermos o significado do ícone, semelhança e analogia são duas palavras chaves para sua devida compreensão. Assim o ícone é um signo que significa alguma coisa porque parece com essa coisa, estando diretamente ligado à experiência da visão de um determinado sujeito. A mente é estimulada pela semelhança e analogia fazendo com que o signo construa uma significação que pode ser mais forte ou mais fraca, dependendo da capacidade de excitação que a imagem reproduz. Uma fotografia do

“Cristo Redentor”, por exemplo, é uma imagem que reproduz um ícone, isto porque passa uma ideia de semelhança e naturalidade com o objeto real. Já um desenho abstrato do “Cristo Redentor” é também um ícone, no entanto, no desenho já não existe mais aquela ideia de naturalidade. Na pintura o ícone do “Cristo Redentor”

estimula a mente com mais força do que no desenho abstrato, por isso Peirce

expressa que um ícone pode estimular a mente de forma mais fraca ou forte dependendo da forma como a imagem é apresentada a nossa mente, o que nos leva a crer que devem existir “escalas de iconicidade” na percepção visual dos objetos.

Um ícone é um Representâmen cuja qualidade representativa é sua Primeiridade como Primeiro. Ou seja, a qualidade que ele tem com coisa o torna apto a ser um representâmen. Assim, qualquer coisa é capaz de ser um substituto para qualquer coisa com a qual se assemelhe (PEIRCE, 1977, p. 64).

“Um símbolo é um representâmen cujo caráter representativo consiste exatamente em ser uma regra que determinará seu interpretante” (PEIRCE, 1977, p.71). Em outras palavras, o símbolo para Peirce é qualquer signo que estabelece relação com o sujeito que o interpreta por pura convenção independente de conexões físicas ou por semelhança. Vejamos o exemplo abaixo:

FIGURA 5 – A TRAIÇÃO DAS IMAGENS (1928) – RENÉ MAGRITTE FONTE: http://www.refinandonuestrossentidos.com

Na pintura de René Magritte, logo abaixo da imagem do cachimbo encontra-se a encontra-seguinte fraencontra-se em francês: Ceci n´est pás une pipe, traduzindo para o português seria: “Isto não é um cachimbo”. A frase escrita logo abaixo da imagem do cachimbo é um símbolo, pois está escrita em francês e, portanto, só possui uma significação para aquele que compreende este idioma. Segundo Peirce, um símbolo só pode ter significação se for ensinado, ou seja, os símbolos remetem a uma espécie de aprendizado de forma que nada significariam para um sujeito se este desconhecesse o seu contexto. As placas de trânsito são signos tipificados como símbolos, pois é preciso que o sujeito aprenda que aquela simbologia remete a uma determinada significação, assim como acontece com o aprendizado de uma língua.

Os símbolos constituiriam uma linguagem visual na qual o indivíduo devia ser antes

“treinado” para interpretar a sua significação.

Nesse sentido, cabe analisar como estes conceitos aparecem e podem ser interpretados por intermédio dos filmes no cinema, já que a descrição peirceana enquadra-se perfeitamente na descrição de uma linguagem imagética presente no interior dos filmes.

1.4 SIGNIFICAÇÃO E LINGUAGEM DE ACORDO COM A SEMIÓTICA PEIRCEANA