ESTUDO I A maternidade no Programa Canguru: análise do
3.8. COM AS USUÁRIAS DO PROGRAMA CANGURU
3.8.2. Significando a participação no Programa Canguru
Quando o bebê recebe alta da UTI e passa a conviver com a mãe no alojamento conjunto do Programa Canguru, surge então uma nova possibilidade de intervenção. A mulher passa a assumir os cuidados com o bebê, tornando-se sua única ocupação nesse
ambiente. Como anteriormente relatado, a maioria das mães recusava-se a praticar o contato pele a pele, pelo menos nos primeiros momentos de internação. Assim, diante do reconhecimento dessa recusa, alguns profissionais utilizavam uma estratégia que aparentemente obtinha sucesso: associavam a prática da posição canguru com o tempo de internação das mães, fazendo um paralelo ao ganho de peso do bebê:
As enfermeiras mesmo dizem que o bebê vai sair mais rápido pra casa, que ela fica mais apegada à mãe também. Eu acho que ela ta mais apegada a mim e eu acho que ela ta ganhando peso. Assim que ela saiu da UTI ela perdeu, mas depois começou a ganhar peso. Eu percebi que ela fica bem quentinha quando eu boto no canguru (Mãe em entrevista individual, 25 anos, 2º filho).
Ela (técnica de enfermagem) explicou que você tira a roupa do bebê e deixa só de fralda e coloca aqui dentro do peito pra sentir as batidas do coração e o cheiro da gente. Foi ela quem ensinou, falou que a gente vai embora mais rápido pra casa (Mãe em entrevista individual, 32 anos, 2º filho).
Apesar de algumas mães apenas reproduzirem o discurso dos profissionais acerca dos benefícios do programa, observou-se nos discursos de outras mães, que quando elas próprias percebem os benefícios da posição canguru, especialmente pelo ganho de peso atrelado à possibilidade de voltarem para casa, é que assumem o programa de forma mais comprometida:
(Ao ser perguntada para que serve a posição canguru) É pra botar nos peitos pra eu e ele ir embora mais rápido pra casa, né? Essa menina ai (sua colega de
quarto) não acreditava não. Não botava de jeito nenhum. Mas no dia que o menino ficou no meio dos peitos e não perdeu peso, ela agora bota direto, o dia inteiro, o menino nem chora pra não perder peso (Mãe em entrevista individual, 23 anos, 3º filho).
Percebe-se através desses relatos que o peso do bebê era então a medida para receberem alta da maternidade, e muitas vezes, tornava-se uma constante preocupação das mães, que decoravam o peso diário do bebê desde o nascimento.
Ela (técnica de enfermagem) falou pra colocar pele a pele porque servia pra aumentar o peso do bebê. Eu não acreditei muito não, mas uma vez eu fiz. Ela me ajudou a botar dentro da roupa e graças a Deus o menino aumentou de peso. Aí agora eu faço direto (Mãe em entrevista individual, 23 anos, 2ª filha).
Algumas mães, diante da ansiedade em voltar logo para casa, ofereciam leite artificial em mamadeiras para seu bebê na tentativa de fazê-lo ganhar peso. Embora a mamadeira seja um item proibido na maternidade (por desestimular a amamentação e aumentar os riscos de infecção por parte do bebê), algumas mães pediam aos parentes para trazerem sem o conhecimento da equipe médica:
Teve uma fase aqui das mães darem xuquinha escondido. A gente pegou a fonoaudióloga e pediu para explicar para elas porque não pode dar nem xuquinha nem chupeta. Eu digo para elas não escutar o que a sogra diz nem o que a avó diz, porque elas foram educadas de outra forma. Escute o que a gente diz por que a gente trabalha com isso (Enfermeira em grupo focal).
Observou-se também que algumas mães se apresentam confusas em relação ao método ou descrentes, e quase sempre, associam os benefícios dessa prática exclusivamente para o seu bebê, esquecendo-se que elas também fazem parte da intenção de fortalecer o vínculo afetivo, como se pode verificar nessa sequência de relatos:
Mãe: Ontem que eu passei o dia inteirinho com ele aqui como ta agora (na posição canguru), aí fui olhar hoje ele já aumentou 50 gramas. Só porque eu passei o dia inteirinho com ele no peito. É importante pra ganhar peso (Mãe em grupo focal, 22 anos, 1º filho).
Mãe: É, por um lado é bom porque ele ganha logo peso, mas por outro lado é ruim porque ele também pega manha, fica chorando toda hora porque quer estar no peito direto e à noite não dá pra fazer não porque ele pode cair (Mãe em grupo focal, 20 anos, 2º filho).
Mãe: E se esquentar demais também não é bom pra ele. Porque ele fica com calor (Mãe em grupo focal, 19 anos, 1º filho).
Renata: É, a gente sabe que deve ter algumas dificuldades, o calor não ajuda, para dormir não é muito confortável...
Mãe: E cada funcionária diz uma coisa né? Uma me disse pra botar a colcha por cima, a outra chega e diz não bote não porque esquenta demais. Eu botava ele de fralda no peito e o vestido por cima e a bata. Todo dia ele aumentava 10 gramas e um dia aumentou 5 gramas só. Ai eu fui na médica e ela disse que era super aquecimento e se ficar super aquecido pode ficar com febre e perder
peso. Aí não coloco mais no canguru, parei (Mãe em grupo focal, 19 anos, 1º filho).
Mãe: Olhe, você pegar um bebê e só colocar no peito não vale de nada, tem que brincar com ele, falar com ele, dar atenção. Eu brinco com o meu e tudo na cama, não preciso colocar no canguru. Eu não faço canguru (Mãe em grupo focal, 32 anos, 2º filho).
A partir desses relatos, verificou-se que a falta de uma equipe interdisciplinar que trabalhe em cooperação entre eles resultou na descrença dos benefícios do programa por parte de algumas mães. Esses discursos discordantes dos profissionais não inspiram confiança nas usuárias, produzindo dessa forma um efeito negativo na adesão à posição canguru.
Ademais, apesar da preocupação de algumas mães em interagir com seu bebê, o que se percebe na maioria dos seus relatos é a reprodução do discurso dominante de que o programa é benéfico apenas em função do aumento de peso do recém-nascido. Sendo o aumento de peso uma exigência para a alta do bebê (em torno de 1.800g), torna-se esta a principal preocupação das genitoras. Assim, essa situação é perpetuada pela permanência imposta no programa e sua colaboração, de certa forma, é “incentivada” pela médica quando diz: “Eu vejo uma data próxima, São João, por exemplo, e digo: olhe, vocês vão passar o São João aqui, começo a torturar no bom sentido para que elas colaborem” (Médica em entrevista individual).
Entretanto, deve-se atentar para o fato de que, se a mãe não entende e não reflete sobre seu papel no programa, em muitos dos casos, ela apenas empresta seu corpo para recuperação do seu bebê, o que a condiciona ao papel de incubadora humana (Véras & Traverso-Yépez, 2010). Ademais, não poderíamos esperar outro discurso por parte das
mães. As dificuldades de trabalhar o conhecimento e a informação sobre o programa com essas mães parecem estar sendo perpetuadas pelos posicionamentos de alguns profissionais e pelo tipo de discurso utilizado nos documentos oficiais, funcionando assim como entraves no desenvolvimento do sentimento de autonomia por parte das mães.