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4.1 APREENSÕES DO REAL, DO IMAGINÁRIO E DO SIMBÓLICO: A IDEIA

4.1.3 O simbólico cria norma e determina comportamentos: o mar

Žižek expõe que a ordem simbólica é a constituição não escrita da sociedade, “é a segunda natureza de todo ser falante: ela está aqui, dirigindo e controlando os meus atos; é o mar em que nado, mas permanece essencialmente impenetrável – nunca posso pô-la diante de mim e segurá-la” (2010, p. 16).

Em que nível o Grande Outro opera? Por meio do Simbólico, de modo que essa ordem se compõe por meio da fala ou da audição, em que “nunca interagimos simplesmente com outros; nossa atividade de fala é fundada em nossa aceitação e dependência de uma complexa rede de regras e outros tipos de pressupostos” (ŽIŽEK, 2010, p. 17). As vontades “autônomas”, com efeito, desenvolvem a partir do Simbólico constituindo o Real.

Quando se pensa em espaço Simbólico, é possível indagar que se funciona por meio de um padrão do qual posso medir. É o Outro a concepção de “Deus” ou de “deuses”? Sim, considerando que este se revela para além de mim, e para todos os indivíduos. Entretanto, pode ser outra Causa que envolve a pessoa, os ideais de Capitalismo, Liberdade, Comunismo e Nação são ideias que se insurgem para além do indivíduo isolado, as quais se insurgem como razão para se viver (ŽIŽEK, 2010).

Ao se perceber que o Grande Outro é frágil e insubstancial, verifica-se que o mesmo se coloca como virtual, pressuposto meramente subjetivo. Creditar à existência essa percepção virtual é considerar que o mesmo age sozinho conduzindo a nossa existência.

O Outro é também reconhecido por meio da causa ideológica. Creditar à Deus a totalidade e depositar a crença no Capitalismo como a substância existencial, é verificar que aquele sustenta os padrões do status quo da classe dominante na sociedade. Ora, por isso que se percebe a ação do Grande Outro agindo por mim (ŽIŽEK, 2010).

Para muitos, o Capitalismo pode se perfazer como esse Outro, no qual se realiza a partir do dinheiro. Fazendo-se referência ao filme They Live, há uma cena em que está escrito numa cédula de dólar: “Este é o seu Deus”. Em que tomadas de decisões acontecem baseados apenas nos pressupostos inerentes à necessidade de lucrar mais e não

perder dinheiro, como se a vida estivesse resumida neste comportamento, neste valor monetário.

O Grande Outro, por exemplo, pode se encontrar como o limite da existência da Ideia de Nação, limite entre fronteiras, em que o Estado-território-nação delimita a nossa existência, o nosso infinito, ao invés de crer na perspectiva global da interculturalidade entre sujeitos, por exemplo.

Noutro quadrante, a constatação da crise dos(as) refugiados(as) e a negação da sua recepção em países europeus, principalmente, perpassa a questão da economia, por considerar que o bem estar ou benefícios decorrentes de países X ou Y estarão comprometidos, mesmo que ocorra a morte ininterrupta de pessoas que não escolheram sair dos seus espaços, mas foram obrigados.

Lance-se a isso que o discurso de combate ao Terrorismo ajuda à concepção de atuação dos países imperialistas e a atingirem seus objetivos mercadológicos e ideológicos.

Assim, a Ideia de Comunismo pode se colocar como substância, ou como fundamento da existência de outras multiplicidades. Ou também o Grande Outro é considerado como o limite da nossa existência a partir da Ideia de Nação, limite entre fronteiras, em que o Estado-território-nação delimita a nossa existência, ao invés de crer na perspectiva global da interculturalidade entre sujeitos e, consequentemente, recepção dessas pessoas oprimidas que sofrem com as agruras vividas pelas situações civis e políticas do seu país de origem e que são condicionadas e obrigadas a escolher não permanecer em seus domicílios.

O que se observa dessa lógica de fronteiras é a intensificação do ódio ao estrangeiro, ao outro, em virtude da construção do senso comum, muitas vezes capitaneado pela mídia e outras instâncias da sociedade de que isso gera uma ameaça às pessoas “nativas” em virtude ao acesso a vários direitos e oportunidades.

É preciso enxergar que o debate dos refugiados põe uma crise na ficção originária da ideia de soberania, analisada por Agamben. Desse modo, “na medida em que rompe a velha trindade Estado-nação-território, o refugiado, essa figura aparentemente marginal, merece ser, pelo contrário, considerado como a figura central da nossa história política” (2015, p. 29).

O que se visa evitar é a repetição da história do holocausto e da descaracterização da essência da pessoa humana, pois num momento recente da nossa vida mundial campos europeus foram construídos como espaço para controlar essas pessoas em condição de

refúgio, e “que a sucessão campos de internamento-campos de concentração-campos de extermínio representa uma filiação perfeitamente real” (AGAMBEN, 2015, p. 29)

A existência é condicionada para a perpetuação e satisfação dos desejos do Grande Outro, agimos para sustentar essa imobilidade. Ora, “em vez de girar eu mesmo a roda do moinho, a água pode fazer isso: atinjo meu objetivo interpondo entre mim e o objeto sobre o qual trabalho um outro objeto natural” (ŽIŽEK, 2010, p. 36).

O sujeito suposto saber que Lacan trabalha é exatamente a condição que subsiste O Outro, em que há o deslocamento do conhecimento de cada sujeito para outrem, não qualquer. Podemos ter consciência da sua existência, o problemático não é esse. O que se vê como sintomático é exatamente essa transferência irrestrita e inquestionável, ao sujeito

suposto saber d’O Outro (ŽIŽEK, 2010).

É preciso compreender o conceito de castração simbólica, pois quando nos colocamos enquanto sujeitos, não se é dada imediatamente o que como as pessoas são e a função que se exerce. Castrar indica retirar, subtrair. Neste caso, se perfaz entre o vazio, o hiato existente entre o que sou e o que exerço.

É fundamental que se compreenda a castração para entender o Simbólico, no qual assumimos uma máscara ou um título que pode nos conferir status e autoridade. Essa castração simbólica detém uma relação íntima com o poder. (ŽIŽEK, 2010).

O Grande Outro como substância do Simbólico não pode ser enxergado na sua agudeza solitária. Tal elemento deve ser parâmetro para que a sociedade o contemple a partir de um plexo, sendo percebido por meio de apreensões para além do Simbólico, incluindo o Real e o Imaginário, todos relacionados entre si.

A Ideia de Justiça compreendida por meio de sua subtração envolve a relação que esta detém segundo os instrumentos que são operados pelo Outro para que os valores de igualdade e liberdade no Estado Capitalista sejam garantidos.

Essa, enquanto valor no Estado Constitucional Democrático de Direito, é vista como elemento determinada pelo Simbólico, que evanesce com os pressupostos decorrente da sombra do Capitalismo, em virtude da existência da noção da pacificação social castrada da realidade social. Daí a necessidade de compreender a subtração da Ideia de Justiça desse parâmetro estatal, em virtude da castração simbólica, que se coloca como a Lacuna do Real, entre o que esta almeja ou se apresenta e o que ela realmente é.

Sendo O Outro a lógica do Capital, o qual põe este como divindade, que se coloca à frente de todos, decidindo sobre os rumos do cotidiano, sem questioná-lo, pode-se

considerar que o Deus dinheiro no mercado capitalista é quem movimenta o comportamento social, não seria diferente na participação das decisões judiciais.

Žižek dirá que no caso exemplar da divindade “não seria o que chamamos de ‘Deus’ o grande Outro personificado, dirigindo-se a nós como uma pessoa maior que a vida, um sujeito além de todos os sujeitos?” (2010, p. 54)

O mesmo se aproxima da questão da cobrança que a História impõe aos nossos semelhantes, em que “nossa Causa nos chama para fazer o sacrifício necessários. É o que temos aqui, um estranho sujeito que não é simplesmente um outro ser humano, mas o Terceiro, o sujeito que se eleva acima da interação de indivíduos humanos reais” (ŽIŽEK, 2010, p. 54).

A tarefa ética seria um despertar para a realidade, não só do que se imagina estar relacionado ao sono, mas da fantasia que cria o imaginário do Capitalismo, que se liga à experiência do “vencer na vida”, na conquista, ou até mesmo do “se salvar”, em que há um lugar desde que você trabalhe e sue.

Há dois níveis representativos do âmbito Simbólico, que as tomadas de decisões acontecem baseadas apenas nos pressupostos inerentes à necessidade de lucrar mais e não perder dinheiro, como se a vida estivesse resumida neste padrão, neste valor monetário, sendo o comportamento condicionado a isso.

Além do mais, no campo da política, essa visão se reverbera, porque perpassar por uma visão superficialmente moral, limita a visão do comportamento humano à necessidade de competir, tirar proveito, ganhar sempre ou lutar pelo topo.

A temática visa apresentar que o Grande Outro, na verdade, é um conjunto social de conglomerados empresariais que ora criam leis, como elemento mais participativo da nossa atual democracia, ora estimula comportamentos via meios de comunicação acessíveis a todos, mas que também são guiados por uma lógica normativa anterior a eles. A partir de tal compreensão é possível visualizar a conexão entre as estruturas de controle social e as categorias lacanianas, notadamente quando o Simbólico influencia sobremaneira a apreensão da realidade pelos Sujeitos envolvidos.

4.2 IDEIA DE JUSTIÇA NO COMUNISMO OU (IN)JUSTO COMUNISTA: ESTUDOS DA HIPÓTESE A PARTIR DO PÓS-MARXISMO RADICAL

Este tópico visa estruturar a percepção de Badiou quanto à construção do seu entendimento de Justiça no âmbito Objetivo e Subjetivo para engendrar que na realização

da vida sem propriedade privada capitalista e a partir de um espectro ético fora da convalidação ou sobreposição do interesse individualista em detrimento da coletividade. Com efeito, a necessária comunhão dos interesses em prol de um projeto que não é de perda, mas de ganho. Se fundamentar o espectro do Comunismo contra a ideologia que nas últimas décadas encenou uma nova imagem, é possível elevar a crença das possibilidades possíveis da Justiça contra o Capitalismo. A compreensão do fosso existente entre Techne e Dike contribui à visão de que também no espectro comum haverá deslocamento, sendo esse movimento a Adikia, tendo em vista que as Lacunas do Real não cessarão com o comunismo em perspectiva concreta.