• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 – REVISÃO DE LITERATURA (PARTE II) - A TEORIA QUE EMERGIU

3.3 Os não-modernos

3.3.2 Simetria e materialidade

Como alternativa à Constituição moderna, a ANT propõe a simetria. O primeiro princípio de simetria foi proposto por David Bloor, que se contrapunha à perspectiva tradicional de que a verdade dos fatos científicos se referia ao resultado de procedimentos metodológicos adequados, enquanto os conhecimentos científicos falsos ocorriam devido à distorção das questões sociais e, por essa razão, somente esses seriam elegíeis para explicações sociológicas.

Bloor rompe com as separações “entre ciências sancionadas e ciências proscritas, e das divisões artificiais entre as sociologias do conhecimento, da crença e das ciências” (LATOUR, 2019,

Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos

p.118). Em outros termos, explicações sociais, psicológicas, econômicas devem ser empregadas simetricamente, usando os mesmos tipos de causas e tratando nos mesmos termos vencedores e vencidos da história das ciências, uma vez que são produtos sociais gerados por fatores similares (LATOUR, 2019; FREIRE, 2021).

Esse princípio foi estendido por Michel Callon, que propôs o princípio da simetria generalizada, a partir do qual, natureza e sociedade devem ser explicadas a partir de um quadro comum e geral de interpretações (LATOUR; WOOLGAR, 1997; LATOUR, 2019). A partir desse princípio, rompe-se com a divisão entre mundo das coisas e mundo dos homens, e todos passam a ser compreendidos como efeitos de redes heterogêneas, compostas por seres humanos e não-humanos (FREIRE, 2021). Em seus ensaio sobre antropologia simétrica, sustentado pelo princípio da simetria generalizada, Latour (2019) propõe um tratamento simétrico para os atores humanos e não-humanos, advogando que atores não-humanos também têm agência, em outras palavras, também se associam de tal modo que modificam ações de outros atores (LATOUR, 2012). Law (1992a) explica que propor um tratamento simétrico entre pessoas e objetos não implica em ignorar direitos, deveres e responsabilidades dos humanos, afirma que essa é uma posição analítica e não ética.

Segundo Latour, os objetos são “quase-sujeitos”, porque são dotados de capacidade de ação;

assim como os sujeitos são “quase-objetos”, porque estão submetidos às ações de diferentes atores, humanos e não-humanos (LATOUR, 2019). Middleton e Brown (2002, p. 13, tradução nossa) trazem uma passagem do livro “The parasite”, de Michel Serres, que ilustra (e fundamenta) as ideias de “quase-sujeitos” e “quase-objetos” de Bruno Latour:

Uma bola não é um objeto comum, pois só é o que é se um sujeito a segurar. Lá, no chão, não é nada; é estúpido; não tem significado, função e valor. A bola não é jogada sozinha. Vamos considerar quem o possui. Se ele se move ao seu redor, ele é estranho, um mau jogador. A bola não existe para o corpo; exatamente o contrário é verdadeiro:

o corpo é o objeto da bola; o assunto se move em torno deste sol. A habilidade com a bola é reconhecida no jogador que segue a bola e saca ao invés de fazê-la segui-lo e usá-la. É o sujeito do corpo, sujeito dos corpos e como sujeito dos sujeitos. Jogar nada mais é do que tornar-se atributo da bola como substância (SERRES, 1982).

Nesse trecho, é possível perceber que a bola, por si, não é nada; mas quando lançada, organiza os jogadores, que se movem ao preverem seu percurso. Os jogadores são como corpos em órbita ao redor da bola, corpos que se tornam atos ocasionados por esse objeto (MIDDLETON;

BROWN, 2002)

Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos

Quanto ao corpo, Latour (2008) defende que sua definição é sempre a partir da interface, tanto melhor descritível quanto mais aprende a ser afetado por muitos mais elementos. “O corpo é, portanto, não a morada provisória de algo de superior (...) mas aquilo que deixa uma trajetória dinâmica através da qual aprendemos a registar e a ser sensíveis àquilo de que é feito o mundo”

(LATOUR, 2008, p. 39).

Retornando ao exemplo da bola proposto por Serres (1982), os jogadores, além de terem seus movimentos definidos por ela, também são subjetivamente construídos - se bons ou maus atletas - a partir da bola (MIDDLETON; BROWN, 2002). E, nesse sentido, Latour afirma:

As partes do corpo, portanto, são adquiridas progressivamente ao mesmo tempo que as contrapartidas do mundo vão sendo registadas de nova forma. Adquirir um corpo é um empreendimento progressivo que produz simultaneamente um meio sensorial e um mundo sensível (LATOUR, 2008, p. 40).

A questão da materialidade do mundo social não é uma especificidade da Teoria Ator-Rede; ao menos, desde Karl Marx, a questão já era explorada de forma aprofundada (MARX, 2013). A Teoria, entretanto, reconhece a importância dos elementos não-humanos como agentes dotados de possibilidade de ação e que, por essa razão, precisam ser incluídos na análise social (LATOUR, 2012). Na Teoria Ator-Rede, a relação sujeito-sujeito, comum à sociologia, compartilha sua importância com a relação sujeito-objeto (RECKWITZ, 2002). A materialidade é relevante nas relações, uma vez que objetos agem e geram reflexos nas redes a que pertencem (MONTENEGRO; BULGACOV, 2014). Tureta e Alcadipani (2009, p. 57) exemplificam como os não-humanos são indispensáveis em práticas cotidianas:

Jogar futebol pressupõe, minimamente, a existência e a participação de uma bola, além das traves que formam o gol, para o seu desenrolar. Enviar uma mensagem eletrônica no trabalho pressupõe uma série de elementos materiais, sem os quais essa prática seria impossível. Assim, a centralidade de alguns objetos, ou elementos não-humanos, na prática é tão importante, que sua ausência pode suspender e até inviabilizar a realização da atividade. Quando a bola sai de campo, o jogo é temporariamente interrompido até que ela seja reposta. Quem nunca se irritou com a perda de conexão na rede mundial de computadores ou com a “queda” da rede eletrônica da universidade?

Além disso, pesquisadores que empregam a ANT defendem que a fronteira entre o que é humano ou não-humano não é clara, sequer fixa. É o que demonstram Middleton e Brown (2002) ao descreverem práticas de assistência neonatal a partir das lentes da ANT. Segundo os autores, a vida do recém-nascido depende de um arranjo material, que se adapta constantemente a depender de doenças específicas e sua evolução:

Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos

No cerne de tal prática está uma entidade ambígua - o recém-nascido prematuro que não é totalmente "social" nem totalmente "natural" (uma vez que deve sua existência à tecnologia e perícia médica). A natureza do cuidado neonatal significa que os limites do que conta como unidade estão sempre mudando (MIDDLETON; BROWN, 2002, p.5, tradução nossa).

Esta distinção não nítida entre humanos e não-humanos também é exemplificado por Moser e Law (1999), ao narrarem passagens da rotina de uma personagem chamada Liv, uma pessoa com deficiência física. Ao longo do trabalho, os autores descrevem os diferentes atores não-humanos que auxiliam Liv, como a cadeira de rodas com mecanismos de controle remoto acoplados. Sem os atores não-humanos, as interações humanas são limitadas em função de nossas habilidades (LATOUR, 1994b). E, nesse ponto, retornamos ao princípio da simetria generalizada: as relações sociais estão imersas em uma gama de materiais, e a ANT compreende que a separação entre humanos e não-humanos é um equívoco (LAW, 1986). O princípio da simetria generalizada desconsidera o social como lócus privilegiado da análise (BLOOMFIELD; VURDUBAKIS, 1999) e refuta a compreensão de que as ações humanas são intencionais e de que o mundo material é marcado por relações causais (LATOUR, 2012). A Teoria esclarece que os atores não-humanos não podem ser compreendidos objetivamente, ao contrário, precisam ser apreendidos nos arranjos que os constroem e que materializam na prática (MIDDLETON; BROWN, 2002).

A ANT aborda os não-humanos compreendendo-os como um aspecto a partir do qual a ordem social é alcançada, não como uma coisa em si (MIDDLETON; BROWN, 2002). Atores não-humanos são processos em constante transformação, a todo momento adquirem novas propriedades e transforam as anteriores. Objetos não possuem uma essência a priori, ganham atributos e características devido às associações com atores humanos e não-humanos nas atividades em que estão engajados (TURETA; ALCADIPANI, 2009). A partir dessa forma de estudar os não-humanos, pesquisadores que empregam a ANT analisam como as tecnologias podem cristalizar certas formas de relações sociais e possibilidades de ação. Latour (1992), por exemplo, descreveu como um imobilizador de motor em um carro, quando conectado à uma trava do cinto de segurança, pode impor a norma de sempre usar o cinto ao dirigir.

Nesse sentido, para responder à sociedade, que não pede por reflexões sobre a forma dos cientistas compreenderem a realidade, mas clama por respostas e soluções urgentes aos problemas vivenciados, os pesquisadores que empregam a ANT propõem que não abandonemos nossas ciências puras, mas que sigamos os procedimentos teórico-metodológicos que eles buscam desenvolver sob a denominação de Teoria Ator-Rede. Os procedimentos

Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos

teórico-metodológicos da ANT sugerem que, sem possibilidades de solucionar um problema, cabe aos pesquisadores descrevê-lo e compartilhá-lo de uma forma mais cognoscível. E, com isso, os estudiosos da ANT não desmerecem a capacidade da ciência, apenas admitem a limitação de caráter epistemológico comum entre o trabalho dos cientistas e os apelos da sociedade (LATOUR, 2019).