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SUMÁRIO PAG.

3. REVISÃO DE LITERATURA

3.4 Similaridades e Diferenças entre Dislexia e TDAH

Neste estudo os critérios diagnósticos para DD e para TDAH foram delineados para que sob o ponto de vista metodológico não houvesse dúvida quanto a não ocorrência de comorbidade entre as patologias estudadas. No mesmo, entende-se que as patologias são distintas, não comórbidas e que as alterações no processo de aprendizagem que ocorrem no TDAH são consequências das alterações em atenção (sustentada, seletiva, alternada, dividida) e em funções executivas, ocasionando um quadro de Dificuldade Escolar (com prejuízos em leitura, escrita e aritmética), secundário ao quadro principal de TDAH. Já na DD, as alterações no processo de aprendizagem ocorrem devido a falhas no processamento fonológico.

Embora a literatura apoie claramente a comorbidade entre TDAH e DD, nos estudos analisados, tal associação ocorre pela presença dos sintomas de desatenção em ambas as patologias, sintoma este que gera maior prejuízo acadêmico ao escolar do que os sintomas de hiperatividade e impulsividade. A sintomatologia desatencional, bem como a função neuropsicológica atenção, necessita ser muito bem investigada durante o processo

diagnóstico, pois no caso do TDAH, a desatenção deve trazer ao menos prejuízo acadêmico e social ao indivíduo, sendo diferente da desatenção ou prejuízo atencional que ocorre somente durante a realização de atividades que exijam processamento de informações cognitivo-linguísticas, como por exemplo, a leitura (105, 222, 223).

As justificativas para o co-ocorrência de DD e TDAH em uma mesma criança são: a) sobreposição (overlapping) de déficits neuropsicológicos específicos; b) a adoção de diferentes critérios diagnósticos para classificar os escolares em relação às patologias; c) a heterogeneidade dos distúrbios (224).

Algumas teorias propõem explicação para a comorbidade entre TDAH e DD. A hipótese fenotípica sugere que em crianças com TDAH e com dificuldades de leitura, a expressão de sintomas de desatenção e/ou hiperatividade é consequência do problema de leitura (229). Paralelamente, a hipótese do subtipo cognitivo sugere que a comorbidade entre ADHD e dificuldades de leitura é uma patologia distinta e que traz maiores consequências do que quando ocorre isoladamente uma ou outra no indivíduo (230). A terceira hipótese é de que o TDAH e dificuldades de leitura compartilham uma etiologia biológica em comum baseada na predisposição genética de ambas as desordens. Recentes estudos com gemelares identificaram alelos específicos que poderiam estar associados com o aumento do risco de co-ocorrência de TDAH e dificuldade de leitura (231).

Baseado nas hipóteses acima, indivíduos que apresentam TDAH, DD, TDAH e DD compartilhariam alguns déficits no funcionamento neuropsicológico e que possivelmente estes déficits poderiam estar relacionados com a memória de trabalho e velocidade de processamento, uma vez que tais dificuldades também ocorrem no TDAH e DD (224, 230, 232).

No TDAH o déficit central ocorre nas funções executivas (FE) e na DD ocorrem déficits fonológicos e em nomeação automática rápida (233). Contrariamente, a literatura tem indicado que déficits em FE e em nomeação automática rápida têm sido observados tanto no TDAH, quanto na DD, contrariando estudos anteriores (230, 234).

encontradas em crianças com DD e em crianças com TDAH. Porém, o déficit em controle inibitório é menor na DD, o prejuízo em memória de trabalho fonológica é maior na DD do que no TDAH e o prejuízo em memória de trabalho visuo-espacial é maior no TDAH do que na DD (213, 235, 236).

Em segundo lugar, estudos associam a comorbidade entre TDAH e DD sem levar em consideração as alterações pragmáticas e em habilidades matemáticas, decorrentes de alterações em memória de trabalho visuo-espacial presentes no TDAH (237, 238).

Por fim, o grande fator complicador é a heterogeneidade dos grupos de crianças com TDAH que são estudados. A maioria dos estudos não levam em consideração os subtipos de TDAH, assim como as diferentes características neuropsicológicas de cada um deles (239).

Nos estudos pode-se observar a falta de linearidade quanto à adoção de critérios diagnósticos claros e específicos tanto para TDAH, quanto para DD. Na literatura, encontramos estudos cujos critérios diagnósticos para TDAH e DD são baseados no DSM- IV-TR, CID-10, escalas de comportamento, questionários de queixas respondidos por pais e/ou professores, análises de amostras de escrita, avaliação de nível de leitura, leitura de pseudopalavras, medidas de consciência fonológica e de velocidade de processamento. Devido a esta problemática dos critérios diagnósticos adotados, a maioria dos estudos conclui que este aspecto é um limitador (240, 241, 242, 243).

Tanto a DD quanto o TDAH manifestarem-se também pelo baixo desempenho de leitura, porém por razões completamente diferentes, erroneamente uma condição é associada à outra. Tal engano pode acontecer porque as crianças com DD tem dificuldade no reconhecimento de palavras e, portanto, investem uma quantidade excessiva de atenção na decodificação de impressão. Quando os disléxicos são obrigados a ler longos textos, há a perda do foco atencional, a frustração, e consecutivamente o desinteresse em realizar este tipo de atividade. Como resultado, comportamentalmente eles parecem ser crianças funcionalmente desatentas. Por outro lado, as crianças com ADHD-I não são capazes de sustentar a atenção e por isso, apresentam extrema dificuldade em iniciar e sustentar a mesma em tarefas que exijam ao máximo esta função e como resultado, eles processam informações de forma inconsistente e, portanto, apresentam fraco desempenho em testes de compreensão

de leitura. Fenotipicamente, as crianças com TDAH podem parecer crianças com DD quando se analisa somente a leitura, mas o prejuízo do TDAH não é somente nas atividades relacionadas ao processo de aprendizagem (229, 244).

Um estudo com quatro grupos de crianças (somente DD, somente TDAH, TDAH + DD, controles normais) foi realizado com o objetivo de verificar em quais aspectos os grupos diferenciavam entre si. Foram aplicadas medidas de avaliação de tomada de decisão, desatenção, memória de trabalho visuo-espacial e decodificação de palavras e não palavras. Os resultados indicaram diferentes perfis de desempenho entre os quatro grupos de acordo com o aspecto avaliado, conforme se observa na figura 4 (245).

Aspecto avaliado Resultado dos grupos

Controle inibitório DD<TDAH<TDAH+DD<CONTROLE

Atenção TDAH<TDAH+DD< DD<CONTROLE

Memória de Trabalho Visuo-Espacial TDAH+DD< TDAH< DD< CONTROLE

Leitura de palavras reais DD<TDAH<TDAH+DD<CONTROLE

Leitura de não-palavras DD<TDAH+DD<TDAH<CONTROLE

Figura 4: Sinopse dos resultados do estudo de De Jong et al (245).

De acordo com os autores do estudo acima o grupo só com TDAH diferenciou- se dos demais pelo baixo desempenho em MT visuo-espacial e o grupo só com DD diferenciou-se dos demais pelo baixo e discrepante desempenho em leitura de não-palavras. Nos demais aspectos, os grupos TDAH, DD e TDAH + DD tem alterações de desempenho, porém com resultados e performances diferentes. A explicação do déficit de controle inibitório presente na DD está associada à alteração em velocidade de processamento quando mais de um estímulo é processado ao mesmo tempo (234).

apesar de haver comprometimento de leitura nos dois. DD e TDAH diferiram na leitura de palavras de baixa frequência e de pseudopalavras, evidenciando desempenho superior dos escolares com TDAH, corroborando a literatura que afirma que a habilidade de codificação, alteração em consciência fonológica, limitação da memória e na formação de léxico prejudicam o desenvolvimento das habilidades necessárias para a leitura, características em comum encontradas na dislexia e no TDAH. No TDAH, os resultados são justificados pelo comprometimento da interação entre processamento visual, linguístico e auditivo (246).

Com o objetivo de caracterizar o desempenho de escolares com DD e com TDAH em provas de nomeação rápida, Capellini, Ferreira, Salgado e Ciasca (156), aplicaram o RAN em escolares com DD, com TDAH e controles. Como resultado, as pesquisadoras observaram que o grupo controle, composto pelos escolares sem dificuldades, tiveram melhor desempenho em relação aos outros dois grupos. No subteste de cores, o grupo de escolares com TDAH apresentou resultado superior em relação aos escolares com dislexia. Ainda no subteste de letras, os escolares com dislexia apresentaram resultado inferior aos escolares sem dificuldades.

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