O livro Clavis prophetarum (1697) ou A chave dos profetas (2013) poderia ser responsabilizado por desabrochar ideias condicionadas à interpretação, ou seja, um palimpsesto hermenêutico. À sombra de um arquitexto bíblico bem sincronizado, Vieira pauta um modelo de reino do Cristo na terra, a contragosto das Escrituras medievais, margeando um paradigma eclesial e de contundente valor nacionalista. Com o intuito de intensificar tal demanda, o escritor condiciona o discurso a uma célere atuação dos próprios enunciados, tendo em vista a perspectiva hermenêutica. Nesses percalços vieirianos, distribui-se, ao longo deste capítulo, uma análise em busca da similitude, no livro em estudo, e como tal técnica auxilia no trabalho meticuloso e imaginativo do jesuíta.
Auerbach (2013), discorrendo sobre a “Cicatriz de Ulisses”, destaca o uso homérico do tempo verbal no presente em A Ilíada e A Odisséia, como modus operandi e de invólucro discursivo preenchido na consciência do leitor, estabelecendo, com isso, um feitio estilístico. O leitor não interfere no delineamento narrativo, pois tudo está posto. Doutra sorte, o mesmo Auerbach convida-nos a reler o texto bíblico que narra o episódio do sacrifício de Isaque por Abraão94, seu pai. Conforme o analista, há indícios de uma causa motivadora de Abraão para tal gesto, ou, como frisa, “Nada se diz [...]” (AUERBACH, 2013, p. 6), o que gera expectativa, obscuridade, lugares indefinidos, não ditos, em vista do silêncio e de discursos entrecortados, de maneira que o tempo e o espaço necessitem ser complementados, carecendo, por conseguinte, de interpretação. Poder-se-ia, então, acusar a Bíblia de ter inaugurado um estilo enigmático, que irrompe paradoxalmente na narrativa com apenas uma personagem: Deus.
A revelação divina acontece ao longo dos relatos paulatinamente, de modo geral ou especial: “Eu sou El Shadai [...]”95, “Eu sou o que sou”96, “O Sol da Justiça”, “O príncipe da Paz”, “Deus forte”, “Pai da Eternidade”, “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, “Eu sou a luz do mundo”, “Eu sou o alfa e o ômega” e mais outras
94 A obediência absoluta e sem contestação. 95 Gênesis, 17:1.
inumeráveis denominações, as quais se assemelham pelo uso do continuum, da unidade verbal essere no tempo presente, uma espécie de revelação progressiva da divindade hebraica. Face à constituição do transcendente na história dos judeus e, posteriormente, do Deus cristão único, o escolástico Agostinho situa-O no tempo, e assim opina:
Sois o mais excelso e não vos mudais. O dia presente não passa por vós e, contudo, em vós se realiza, porque todas estas coisas em Vós residem, nem teriam caminhos para passar se com o vosso poder as não contivésseis. “Porque os vossos anos não morrem.” São um eterno dia sempre presente. Quantos dias não passaram já para nós e para nossos antepassados pelo dia eterno de que gozais e dele receberam a existência e a duração! E hão de passar ainda outros que dele receberão igualmente o seu modo e o ser! Vós, porém, sois sempre o mesmo, e todas as coisas de amanhã e do futuro, de ontem e do passado, hoje as fareis, hoje as fizestes (SANTO AGOSTINHO, 2004, p. 43 – 44).
Na impressão do teólogo, o presente tonifica o momento, a existência e o ser. Logo, Deus atualiza-se e epifaniza-se como Aquele em quem não cabe variação ou sombra de mudança, nem qualquer dúvida pairando sobre Si. Desse modo, Deus afasta-se da obscuridade, por ser centro da verdade e do saber, volvendo, consequentemente, as palavras que profere como sinônimo de verdade e não passíveis de aproximação com o leitor. O que O singulariza é manter-se distante de qualquer outra potência de leitura. Ou seja, em Deus não existe outra interpretação possível. A dúvida dilui-se diante da verdade, dos dogmas, da ortodoxia religiosa, dos padres da Igreja, e até do Papa.
É curioso perceber que o texto de Auerbach, citado anteriormente, suscita diálogo entre Homero e o Velho Testamento, ou apontando as diferenças entre eles e a composição de completude/incompletude de um e do outro, esquecendo-se, porém, de que a narrativa inconclusa não permeia toda a Escritura judaico-cristã. Falta-lhe também declarar que a ausência sentida no exemplo abordado entre Abraão e Isaque é preenchida pelo apóstolo Paulo97, conforme a tradição de autoria do livro de Hebreus, ao citar que “pela fé Abraão obedeceu ao chamado de partir para o país que haveria de receber a herança” (Hebreus, 11, v. 8), ensejando, com
97 Atribuir autoria do livro dos Hebreus a Paulo não significa necessariamente que Vieira esteja
cometendo equívoco, se pensarmos que estava ele diante do Santo Tribunal e sua argumentação demandava autoridade de assunto e fio teológico. No entanto, se pensarmos que Paulo tenha assumido autoria em todas as suas cartas, a tradição ignora a possibilidade de ele ser autor do livro que Vieira, em toda A chave dos profetas, lhe concede.
isso, uma possível explicação e adimplemento às incursões cortadas, fragmentadas ou lacunares no Velho Testamento. Como diria Vieira na sua Defesa perante o
Tribunal do Santo Ofício, “S. Paulo inferio muitas vezes como inferia Aristoteles, &
Aristoteles como inferio S. Paulo, sendo as illaçoens de Aristoteles somente discurso e as de S. Paulo discurso e mais fé” (VIEIRA, [1666], 1957, p. 216). Portanto, toda inferência leva ao preenchimento discursivo e de vacuidade vocabular.
Em outro episódio, Paulo, apóstolo dos gentios, esclarece sobre o “deus desconhecido”, ao passar por Atenas e identificar um altar destinado a tal entidade, considerando-a ser o que ele anunciava, de modo que adita aos termos de suas epístolas um significado, a saber: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas”98. Constata-se, assim, um preenchimento simbólico, formado pelo apóstolo, atribuindo significados de ciência, de direcionamento doutrinário e teológico, não só à palavra Deus, mas também ao desconhecido. Em suma, Paulo reinterpreta e complementa os espaços vagos da tradição de um povo ou simplesmente de um episódio registrado no passado.
Percorrendo também o texto de Lucas, Atos dos Apóstolos, no versículo onde diz que “não levou Deus em conta os tempos da ignorância”, Vieira, numa espécie de decupagem escritural ou de versos, direciona o seu olhar com o fim de justificar, perante o Tribunal do Santo Ofício, o seu plano ideológico, mais próximo de um percurso joaninológico, qual seja: a interpretação livre, fora das muralhas episcopais, difundindo um conhecimento extrabíblico, contextualizado, português. Assim como fizeram os apóstolos, Vieira tenta enxertar suas perspectivas nos lapsos existentes, não preenchidos dos sentidos vocabulares.
O mergulho no espírito dos termos conduz-nos à leitura de conhecimentos da metáfora e da semelhança, além de arrolar tais figuras n’A chave dos profetas, tal como exibiremos no subcapítulo seguinte.