2. Mercado de trabalho acadêmico, conceituação, antecedentes e estágio atual de sua constituição.
2.2 Mercado de trabalho acadêmico: evidências de sua existência
2.2.1 Estudos sobre o mercado de trabalho acadêmico no Brasil
2.2.1.1 Simon Schwartzman e a comunidade científica
O primeiro estudo que aborda a temática do mercado de trabalho para cientistas no Brasil, mesmo que de forma indireta, vem a ser a obra de Simon Scwhartzman, Um Espaço para a Ciência – A Formação da Comunidade Científica no Brasil. Editado pela primeira vez em 1979, pela extinta Companhia Editora Nacional, o texto teve uma edição inglesa em 1991, publicado pela Pennsylvania State University Press. Em 2001, uma nova edição aparece, publicada por meio de uma parceria entre o Ministério da Ciência e Tecnologia-MCT, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e Centro de Estudos Estratégicos-CEE, traduzida a partir da edição inglesa de 1991.
A Formação da Comunidade Científica no Brasil é o resultado de um grande esforço de seu autor em delimitar o espaço onde se inscrevem os cientistas brasileiros na busca pelo seu reconhecimento social enquanto cientistas. Seu principal mérito, segundo o próprio Schwatzman, teria sido ―ajudar a estabelecer a área de estudos sociais e históricos sobre a ciência e a tecnologia no Brasil, campo que se expandiu e se transformou muito desde então (2001, vii)‖.
Assim como grande parte dos estudos sobre a ciência e a tecnologia, sejam aqueles produzidos aqui ou em outros países, o trabalho de Schwatzman vai bastante além de sua proposta e, neste caso, assume importância explícita para outras áreas de estudo, entre elas o papel da ciência na sociedade moderna,
30 Ver, por exemplo, os trabalhos de Balbachewski (1999, 2007), Martins (2008), Velho (2007) entre outros.
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o modelo de construção da ciência na sociedade brasileira e o reconhecimento social da profissão de cientista no país.
Explicitamente, Schwatzman parte de uma tomada de posição entre uma ciência pura, desvinculada de condicionantes sociais, políticas e econômicas, e uma ciência atrelada às necessidades que lhe são apresentadas pela sociedade, não engajada, mas que busca atender os imperativos de crescimento e desenvolvimento econômico e social. A primeira posição segue a linha das tradições de Max Weber, Robert Merton e Joseph Bem-David, autores que abriram o campo de estudos sobre o papel da ciência e seus sistemas de valores, bem como o papel dos cientistas nas sociedades modernas (SCHWATZMAN, 2001, viii).
Embora reconhecendo a importância de tais autores e de seu trabalho, Schwatzman vai se filiar à tendência oposta, aquela que observa a estreita relação entre a produção científica e os fenômenos que estão presentes no cotidiano das sociedades. Não obstante os radicalismos que tenham sido praticados em nome da instrumentalidade da ciência, ela passa a exercer, em um determinado período histórico, o papel de um dos elementos condutores do progresso no contexto das sociedades, experimentando, mais que proximidade, uma saudável relação com outras esferas da sociedade.
Este caráter vai se consolidar no estudo organizado de Michael Gibbons, The New Production of Knowledge: the dinamics of science in contemporary societies, publicado em 1994, no qual Simon Schwartzman aparece como um dos autores. A definição de um novo modo de produção do conhecimento, em comparação com o modelo anterior de construção da ciência não somente evidencia a agregação de novos elementos às antigas estruturas, mas o faz de modo a conferir às antigas um novo papel.
O entendimento sobre este novo modo de produção do conhecimento permite reavaliar a constituição do mercado acadêmico no atual momento histórico, quando o conhecimento e o saber científico, aliados às novas tecnologias da informação são tomados como importantes insumos e
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revolucionam as relações sociais, políticas, econômicas e de trabalho. (CASTELS, 2003).
A Formação da Comunidade Científica no Brasil representa a ―primeira tentativa de ver de forma abrangente o desenvolvimento da comunidade científica brasileira, desde suas raízes históricas, propiciando um panorama coerente de sua luta pela sobrevivência‖ (SCHWARTZMAN, 2001, xxiii). Mais que isto, podemos acrescentar que não somente a sobrevivência econômica, mas a sobrevivência enquanto classe e a criação de uma identidade, de um espaço de posicionamento frente aos problemas enfrentados pelo país.
As dificuldades de se perscrutar a constituição da ciência em uma sociedade como a do Brasil são enfrentados de modo bastante objetivo por Schwartzman. O autor parte para o estudo das instituições científicas e das associações de cientistas organizados em busca da comunidade científica, conceito típico ideal, ―no sentido weberiano‖ (14), o qual lhe permite definir metodologicamente uma categoria de análise. Trata-se de um modelo que permite ao autor observar a realidade da ciência brasileira identificando os traços mais marcantes de seu ethos.
Um desses traços, talvez o mais marcante entre todos, diz respeito ao fato de que somente as áreas que tinham uma inserção acadêmica conseguiram avançar nos primórdios da nossa ciência, nos anos 30 do século passado. É o caso da física, que encontra na então recém criada Universidade de São Paulo, um campo fértil para seu desenvolvimento, e da agronomia, abrigada na Es cola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-ESALQ, em Piracicaba.
Schwartzman identifica o período da Primeira República como uma época de enormes dificuldades para a profissionalização da ciência brasileira. Não havia reconhecimento por parte da sociedade quanto ao exercício da atividade científica e o Estado pouco ou nada fazia para que tal situação se alterasse. Neste sentido, a criação da Universidade de São Paulo, em 1932, foi fundamental para que fosse estabelecido um novo modelo de instituição de ensino superior, pautado, entre outras características, pela vinda de cientistas
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estrangeiros para atuar na USP. Este fato, bastante marcante, é destacado por vários outros pesquisadores como de grande relevância.
A ―profissionalização da ciência‖ brasileira e a sua união em torno de interesses comuns, é o resultado do trabalho de três gerações de cientistas que iniciaram seu trabalho ainda no século XIX. Simon Schwartzman descreve como as três gerações foram estabelecendo os contornos de uma comunidade científica que foi responsável pela criação de importantes instituições de pesquisa e ensino no país, algumas ainda hoje em atividade. Segundo o autor, era importante, para o reconhecimento da ciência e da profissão de cientista, que a sociedade brasileira entendesse a importância do papel do homem de ciência e isto somente poderia ocorrer a partir da publicização do papel das instituições as quais estavam ligados e de sua importância para a vida do país.
Os cientistas brasileiros sempre perceberam que eram tênues os vínculos que os ligavam à sociedade em geral,motivo por que muitas vezes recorreram a caminhos paralelos, nos campos da política, educação e da economia. Quase todos, até mesmo muitos dos mais brilhantes, buscaram a participação política fora de seus laboratórios,ora tomando parte em movimentos pela reforma da universidade, ora buscando manter-se ocupados no exercício de temas aplicados. Em tempos de regime político aberto, como o atual, é provável que essas tendências venham a reaparecer e se intensi ficar (310).
Para os interesses da presente tese, é importante o fato de que Schwartzman inicia neste momento o processo de identificação de uma comunidade científica brasileira, estabelecida em torno de problemas comuns, valores, idéias e interesses que motivam seus membros a atuarem segundo uma lógica própria e comum ao grupo. Tal lógica é o que vai guiar os membros desta comunidade no estabelecimento de diretrizes de ação que, de modo bastante efetivo, terminam por consolidar junto aos seus membros o conjunto de procedimentos necessários ao crescimento da ciência no Brasil, por meio da ação conjunta e da busca por apoio do estado e de reconhecimento da sociedade.
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O autor descreve este processo ao longo de 100 anos da história da ciência brasileira e explicita de modo inequívoco um espaço social onde os profissionais com titulação circulam de forma a atuarem dentro de sua condição de homens e mulheres de ciência, mas também como membros de uma intelligentsia.