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Simulação do diferencial tributário de exportação

2.2 Metodologia

2.2.2 Método

2.2.2.4 Simulação do diferencial tributário de exportação

Em linhas gerais, essa parte da pesquisa foi norteada para confrontar situações relativas de margem de esmagamento da soja nos mercados exportadores (Brasil) e importadores (China e EU) em função da escalada tarifária (atuando na importação) e do Diferencial Tributário de Exportação - DTE.

Em outras palavras, os objetivos foram:

a. Determinar quais os valores possíveis para o DTE que os países devem aplicar para eliminar o impacto negativo da escalada tarifária aplicada na União Européia e na China para a indústria processadora do país;

b. Considerar os impactos descritos no item (a) para as tarifas atualmente vigentes e para as tarifas finais após a Rodada Doha (considerando as últimas propostas apresentadas);

c. Verificar se os diferenciais tributários de exportação que eram aplicados no Brasil antes da Lei Kandir e que são atualmente aplicados pela Argentina, ambos para o Quadro 2 – Notações usadas no modelo de criação de comércio

Fonte: Laird e Yeats (1986)

mercado de soja, eliminam o impacto negativo da escalada tarifária aplicada na União Européia e na China para a indústria processadora do país;

d. Discutir a validade deste instrumento como um mecanismo contra a escalada tarifária aplicada pelos países importadores.

O raciocínio exposto a seguir foi extraído de ICONE (2008)43.

O primeiro passo consistiu em identificar o valor da margem de esmagamento da soja para o exportador brasileiro, calculado com base na receita das exportações dos produtos do setor. A margem de esmagamento da soja foi definida como sendo a diferença entre a soma do valor dos produtos (farelo + óleo) e o custo da soja (equação 18), sofrendo variação no caso da aplicação de escalada tarifária e DTE (equações 19 e 20, respectivamente):

MGS = VP – CS (18)

Sendo:

MGS = margem de esmagamento da soja;

VP = valor dos produtos (preço internacional do óleo + preço internacional do farelo);

CS = custo da soja (preço internacional da soja).

No cálculo da margem de esmagamento, o valor dos produtos esteve convertido numa mesma base com o custo da soja (dólares por tonelada). Nesse caso, foram considerados os seguintes rendimentos: 1 tonelada de soja gera 0,775 toneladas de farelo, e 0,19 toneladas de óleo bruto (ICONE, 2008)44.

Em seguida, foi calculado o aumento proporcionado à margem de esmagamento da soja nos mercados da China e da União Européia em função da aplicação da escalada tarifária tal como delimitada em cada mercado. Para o cálculo da margem de esmagamento da indústria nos mercados importadores com inclusão da incidência da escalada tarifária, o valor dos produtos e da soja esteve acrescido do valor das tarifas de importação (contabilizando preços e consequentemente margens domésticas para processamento). Nesse caso, com tarifas aplicadas na forma de escalada, aumenta-se a margem, induzindo vantagens econômicas ao esmagamento

43 ICONE. Cálculo do DET a partir da escalada, 2008. Não publicado.

44 ICONE. Cálculo do DET a partir da escalada, 2008. Não publicado. Assim, para considerar os rendimentos de uma tonelada de soja no cálculo da margem de esmagamento, assumimos: preço do farelo (US$/t) * 0,775 e preço do óleo (US$/t) * 0,19.

da soja no importador de grãos em detrimento do país produtor/exportador. A equação 19 aponta essa relação:

MGSI = VP + VIIP – (CS +VIIS) (19)

Sendo:

MGSI = margem de esmagamento da soja ao importador com tarifas de importação;

VP = valor dos produtos (preço internacional do óleo + preço internacional do farelo);

VIIP = valor do imposto de importação sobre os produtos (óleo + farelo);

CS = custo da soja (preço internacional da soja);

VIIS = valor do imposto de importação sobre a soja em grãos.

A diferença entre as margens do importador e do exportador, calculadas respectivamente pelas equações (19) e (18), consiste em um indicativo da perda de vantagem econômica relativa para o processamento do produto no país exportador (Brasil) considerando as diferentes escaladas aplicadas nos mercados em análise.

Nota-se uma variação positiva na margem de esmagamento da soja ao importador quanto maior o valor do imposto sobre importação de farelo e óleo (produtos processados) e menor o valor do imposto sobre importação de grãos (matéria-prima para o processamento).

Por outro lado, considerando a estrutura tributária nacional com DTE, incidindo maior taxação sobre as exportações do produto bruto da cadeia (grão de soja), o preço ao produtor é reduzido, aumentando a margem do processador exportador. A equação (20) aponta essa relação:

MGSE = VP - VIEP – (CS - VIES) (20)

Sendo:

MGSE = margem de esmagamento da soja ao exportador (incluindo DTE interno);

VP = valor dos produtos (preço internacional do óleo + preço internacional do farelo);

VIEP = valor do imposto de exportação sobre os produtos (óleo + farelo);

CS = custo da soja (preço internacional da soja);

VIES = valor do imposto de exportação sobre a soja em grãos.

Nesse caso, a margem de esmagamento ao exportador cresce quanto maior o valor do imposto sobre as exportações de soja em grãos e menor o valor do imposto sobre as exportações de farelo e óleo (produtos processados).

Vale ressaltar que as variáveis que indicam o valor do imposto, de importação e de exportação, são calculadas considerando os preços dos produtos. Ou seja, quanto maior o preço da soja em relação aos produtos processados, maior o valor do imposto sobre a soja. Da mesma maneira, quanto maior o preço dos derivados da soja em relação ao preço do grão, maior o valor do imposto sobre os produtos (óleo + farelo).

Para se simular uma situação de margem em que o estímulo proporcionado ao importador com a aplicação de escalada tarifária seja compensado no país exportador por um diferencial tributário de exportação, deve-se assumir a igualdade entre as equações (19) e (20):

MGSI = MGSE (21)

VP + VIIP – (CS +VIIS) = VP - VIEP – (CS - VIES) (22)

VIIP – VIIS = VIES -VIEP (23)

Assim, procedeu-se a uma simulação identificando valores de tarifas de exportação de maneira a que seja concedido aos processadores nos países exportadores (em termos de imposto sobre as exportações) o mesmo incentivo que os mercados importadores oferecem quando da aplicação de escalada tarifária (em termos de tarifa de importação). Para tanto, foram simulados os valores de DTE considerando as tarifas de importação na situação corrente e as resultantes da redução tarifária proposta em Doha. Nesse último caso, as tarifas de importação incidentes no mercado da China sobre grão, farelo e óleo foram de 2%, 3,1% e 5,6%, respectivamente. Já para o mercado da UE as tarifas pós Doha consideradas foram de 0% sobre grão e farelo, e de 1,4%

sobre o óleo (conforme resultados do item 2.3.1).

Identificou-se também a margem de processamento do Brasil caso houvesse sido mantida a estrutura tributária prévia ao estabelecimento da Lei Kandir (que definia uma taxação de 13%

sobre as exportações de grãos, e de 10% sobre as exportações de farelo e óleo). Esta margem foi

comparada com as obtidas pela escalada tarifária ao importador para avaliação da efetividade da política.

Da mesma forma, para a Argentina, foram verificados os impactos sobre a margem de processamento do setor a partir da aplicação do DTE (simulando 27,5%, 24% e 24% de tributação sobre as exportações de soja em grãos, farelo e óleo, respectivamente, ao longo do ano de 2007) (BARROS, 2008).

Por fim, o raciocínio da relação entre a escalada tarifária e o DTE é resumido de maneira gráfica a seguir.

No mercado importador, sem as tarifas de importação, o país importaria DA do produto bruto e EF do produto processado. Com a aplicação da escalada tarifária, o país tenderá a reduzir a importação do produto processado numa intensidade maior do que o do produto bruto. No caso do exemplo descrito na Figura 9, a importação do produto bruto seria reduzida para BC, com o consumidor daquele produto pagando o preço internacional do produto somado com a tarifa. O exportador continua recebendo o preço internacional (Pw). A importação do produto processado no caso foi eliminada em função do alto valor da tarifa imposta. A este preço (preço internacional mais tarifa), a demanda pelo produto processado é reduzida e o produtor doméstico consegue ofertar todo o produto demandado. O processador do país importador, que inicialmente apresenta uma margem do processamento indicada em azul, após a política de escalada tarifária apresenta uma margem de processamento indicada em rosa (Figura 9).

PRODUTO BRUTO PRODUTO PROCESSADO

Figura 9 – Representação do impacto no mercado importador sobre o volume importado de produtos brutos e processados com a aplicação de tarifas de importação diferenciadas

Fonte: ICONE (2008)45

45 ICONE. Cálculo do DET a partir da escalada, 2008. Não publicado.

A C O B D Quantidade O E F Quantidade

Preço Preço

tarifa

tarifa

Pw

Pw

Já o exportador, se incluir um imposto de exportação alto no produto bruto, a quantidade exportada ao invés de ser JG passará a ser IH, em função da redução do ganho do produtor. Esta redução de ganho ocorrerá apenas para o produto exportado. Portanto, a quantidade ofertada no mercado doméstico aumenta e o preço reduz. Ou seja, esta política reduz a receita do produtor do produto bruto. Já para o exportador do produto processado, a redução do preço doméstico do produto bruto é benéfica, pois aumenta a margem do processamento. Inicialmente a margem é a indicada em azul e, após a política de DTE com tarifa mais alta sobre o produto bruto, passa a ser a indicada em rosa (Figura 10).

PRODUTO BRUTO PRODUTO PROCESSADO

Figura 10 – Representação do impacto no mercado exportador sobre o volume exportado de produtos brutos e processados com a aplicação de tarifas de exportação diferenciadas

Fonte: ICONE (2008)46