6.3 CATEGORIA 3: PLANEJAMENTO E DIRECIONAMENTO
6.3.2 Simulados
Como já foi comentado rapidamente na subcategoria anterior, os cronogramas dos sistemas já preveem a aplicação de simulados de vestibular algumas vezes por ano. Como o cronograma já vem todo estruturado pela empresa, os simulados realizados se concentram apenas nos conteúdos que estão previstos de serem abordados até a data da prova. Ao pensar a respeito disso, pode-se perceber que, mesmo com o discurso de flexibilização, a aplicação de simulados várias vezes por ano pode acabar causando uma pressão sob o corpo docente, visto que seus alunos serão submetidos a uma avaliação externa sobre o conteúdo que esperam que ele tenha ensinado. Dessa forma, o controle da prática docente motivado pelos simulados já começa por uma pressão dos próprios estudantes ou familiares, como se observa nas falas do professor Rafael e da professora Regina:
Sim, porque, daí, o que que acontece: você está no livro 1, na metade dele, ou no livro 2, na metade dele, não importa o volume, e o simulado vem e cobra o conteúdo de todo o livro, não da metade. Pronto, ferrou. Porque, aí, o aluno não viu aquele assunto e depois vem me cobrar. ‘Bah, sor. A gente não viu isso e não tinha nem ideia de como fazer.’. (RAFAEL)
[...] Só que se tu andas muito lento no conteúdo, tu também não atinges os simulados, porque daí, por exemplo, o simulado lá, vai ter os cadernos 1, 2, 3, 4 e 5, mas tu estás no 1 ou 2. Então, o que acontece é que o aluno vai fazer o simulado e ele não teve ainda aquele conteúdo. Aí, vem a reclamação. Então, aí sim que vem reclamações de pais quando o aluno ia fazer o simulado e ele não tinha visto ainda aquele conteúdo. (REGINA)
Desse modo, mesmo com tantas demandas já impostas sobre os professores, os simulados alinhados ao cronograma criam uma nova responsabilidade a ser cumprida (ver os conteúdos no tempo definido exteriormente), intensificando ainda mais o trabalho e a pressão sofrida. Nesse sentido, nota-se que estes dados estão de acordo com os resultados apresentados por Laurindo (2012), visto que a autora também identificou que o corpo docente se sentia pressionado pelas famílias a alcançarem os resultados prometidos com a adoção do SAE. Além deste fato, também é possível observar uma certa pressão para que os estudantes alcancem resultados aceitáveis:
A escola acompanha os resultados dos simulados e até mesmo do trimestre, né? A gente faz planilhas, gráficos mostrando a quantidade de alunos em recuperação, os que não precisaram de recuperação, aí depois dos que ficaram em recuperação, aqueles que realmente aproveitaram. Enfim, é tudo estatística, né? (ANTÔNIO)
(sobre já ter presenciado algum professor ser cobrado porque alunos não foram bem no simulado) Já. Teve, teve sim, com certeza. Aí não tenha dúvidas, aí já vai em cima para ver o que que está fazendo, como está sendo a aula, que tipo de cobrança ele está fazendo durante as aulas. Alguma coisa tem que mudar. (ANTÔNIO) Exato, porque tanto é que a prova nem é corrigida por nós, é corrigida pelo sistema Tri. Então, assim, é uma forma também do aluno avaliar como está o seu processo. A escola avalia também, a gente recebe todo o retorno por área, por disciplina, então no que a gente precisa aprofundar. É uma avaliação que agrega muito, né? Ela faz todo mundo se avaliar. (ANA)
“Tudo é estatística”. A fala de Antônio reforça o caráter instrumental do processo educacional das escolas que trabalham na lógica dos sistemas. De alguma forma, não só há a ideia de que os objetivos educacionais estão fixos e alinhados com as avaliações produzidas externamente, mas, também, que esses objetivos são mensuráveis pelos resultados em questões de vestibular de múltipla escolha. Ademais, se o professor não estiver alinhado com esses valores, a gestão “já vai em cima para ver o que está fazendo” e “alguma coisa
tem que mudar”. Na fala de Ana, a pressão pelos resultados não está tão explícita, mas também demonstra a crença de que a obtenção dos objetivos educacionais pode ser mensurada por meio dos simulados. Assim, de forma mais sutil, a escola pode, mais uma vez, recorrer à responsabilização do professor para levá-lo a “se avaliar” e acreditar que precisa melhorar e alterar sua forma de trabalhar para obter resultados melhores. De fato, trabalhos, como o de Janke (2018), apresentam indícios de que, mesmo com um discurso de flexibilidade, os professores se sentem responsáveis pelos resultados dos estudantes e, consequentemente, pressionados a alinhar sua prática à organização do sistema.
Inseridos na lógica de resultados e cientes da pressão que os estudantes e familiares (clientes da escola) podem causar por conflitos dessa ordem, as escolas como um todo acabam adequando, na medida do possível, sua estrutura curricular ao cronograma dos simulados, como pode se observar na fala da professora Regina:
O que eu tive dificuldade com a plataforma foi fazer isso desta forma tão abrangente. Eu tive que enxugar muito, porque, por exemplo, ali no 1° ano do ensino médio, quando trabalha lipídios, proteínas, carboidratos, eu trabalhava toda essa parte de alimentos e a gente tem um projeto na escola chamado Master Chef. A gente ia para o laboratório de alimentos e os alunos em grupos faziam, elaboravam alimentos comigo. [...] Aí, na escola, a gente tinha vários projetos interdisciplinares no ensino médio e esses projetos demandam tempo de sala de aula com o aluno. Então, com o sistema pH, a gente reduziu um pouco esses projetos [...]. Só que para dar ênfase... como eles tinham mais simulados para fazer, a gente tinha que avançar nos conteúdos e a gente não podia demorar tanto. Então, acho que aí teve uma dificuldade sim e a gente não conseguiu se adaptar tão bem nessa parte. (REGINA)
A fala da participante Regina deixa evidente o esforço da escola em renunciar a projetos interdisciplinares, que, provavelmente, ofereciam experiências de aprendizagem interessantes para os estudantes, para poder acompanhar os conteúdos em sala de aula dentro do cronograma esperado para os simulados. Não obstante, é interessante observar que, em outro momento, a mesma participante alegou que eles continuam tendo flexibilidade para trabalhar:
Olha, como nós temos flexibilidade aqui, a gente não está engessado, porque, se a gente tivesse que trabalhar dentro dele, a gente estaria engessado. Nós temos um cronograma deles e aí em cima do deles, nós montamos o nosso. [...] Então, o que a gente faz? A gente dá ênfase nas coisas que a gente acha que é importante eles saberem, algumas coisas a gente flexibiliza e dá na forma de
pesquisa, porque a gente tem aquela semana que vai ser de pesquisa, de pesquisa de campo. (REGINA)
Mais uma vez, parece haver um esforço em querer acreditar que, por poder adaptar algumas coisas dentro do cronograma, sua prática profissional não está “engessada”, mesmo com os diversos elementos que interferem diretamente no seu trabalho e que estão sendo listados aqui. Assim, nota-se, de novo, a armadilha da flexibilização levando os professores a uma ilusão de autonomia (CONTRERAS, 2012).
Além de influenciar no ritmo das aulas para acompanhar as datas dos simulados, também é possível identificar sua influência nas avaliações que os professores constroem para seus alunos, como pode ser observado nas falas abaixo:
As provas são feitas por nós, mas os simulados de ENEM para o Ensino Médio vêm do sistema. Evidente que as provas, as questões que a gente usa estão sempre alinhadas com o portal, né? Exatamente para eles não terem esse choque de realidade quando pegarem um simulado ou alguma coisa assim. Eles já têm uma noção de questões que vão aparecer lá. Senão, eles vão estar lá vendo uma coisa durante o trimestre e vão fazer o simulado e é outra. Aí não dá. (ANTÔNIO)
Mas as notas deles são baseadas nas nossas avaliações. Provas, trabalhos, dia a dia, qualidade de participação... Essas avaliações que eles fazem, eles recebem um plus assim. Se eles tiraram até 9, eles ganham um ponto na média. Se eles tiraram até 7, meio. É só um plus. Ainda não serve como avaliação. Talvez no processo, passe a servir. (RAFAELA)
Na fala do participante Antônio, pode-se perceber que o professor aceita a responsabilidade pelo desempenho dos estudantes nos simulados e se sente desconfortável em deixar seus alunos fazerem essas provas sem uma preparação prévia. Assim, nota-se uma responsabilização do professor para induzi-lo a se alinhar de bom grado às expectativas do sistema, visto o desejo dos professores em sempre ajudarem seus alunos. Quanto à fala da professora Rafaela, nota-se uma influência direta dos simulados na avaliação dos estudantes ao longo do seu ano letivo. Dessa forma, se já se aceita o simulado até como nota extra para os alunos, dificilmente ele será negligenciado no planejamento escolar.
Não obstante, devido às contradições inerentes à estrutura capitalista, a necessidade da flexibilização, para construir mecanismos de controle mais sutis e se legitimar, acaba também abrindo espaço para a resistência. Não podendo se impor de forma autoritária, as empresas nem sempre conseguem levar os
professores a uma dessensibilização ideológica, como é possível observar, mais uma vez, na fala do professor Rafael:
[...] Mas, igual, cara, é que eu acho muito complicado esses simulados. Eu sei que todo mundo precisa, que o sistema (da sociedade) esconde a falta de vagas numa aparente meritocracia de que ‘ah, só os melhores entram para a faculdade’, o que é uma baita mentira, né? Pois, na verdade, são os caras que manipulam melhor o sistema. Mas, aí, tu precisas treinar igual, bater falta e isso não é entender nenhuma disciplina. Isso é decorar gabaritos ou decorar sistemas de organização. Daí, vêm aquelas aulas de física onde não é raro o professor usar macetes, sabe? ‘Ah deus vê tudo ou o diabo vê também...’. Isso é horrível, porque isso não é física, é um jeito de decorar para a hora de bater a falta tu ter isso aí decoradinho. Percebo claramente que os simulados são para preparar para o vestibular. Eles são organizados, inclusive, para ter a mesma sensação de vestibular. O cara faz com a mesma duração, preenche um cartão resposta e tal. É, de fato, um treinamento. [...] Quando o sistema é um material de regra e que daqui a pouco vem uma avaliação externa e, se tu não cumpriste, o aluno vai mal na avaliação externa, fazendo com que a família te cobre e ele te cobre, gerando frustração do tipo ‘bah, eu não vou passar no ENEM’, daí, cara, vai me desculpar a palavra, mas aí é mer**, porque aí tu não estás ajudando ninguém a aprender nada. [...] Se tu vais usar um sistema, tu tiras a roupa da educação e coloca a roupa de um treinador de futebol. (RAFAEL)
Novamente, o discurso do professor Rafael parece mostrar que, ainda que ele não tenha passado por um processo de dessensibilização ideológica, visto reconhecer a perda de controle com relação aos fins e valores do seu trabalho, ele continua vítima da proletarização ideológica, pois a estrutura escolar e a pressão de terceiros o levam a trabalhar segundo os fins e valores educacionais da instituição (que, no caso das escolas dessa pesquisa, se alinham com os dos SAEs ao optar por adotá-los). Esmagados pela estrutura que reproduz o status quo, alguns poucos professores, isolados, se veem impotentes para subverter esse sistema. Há esperança para transformação real, ou a escola está fadada a reproduzir a ordem social dominante (BOURDIEU; PASSERON, 1970)?