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Simultaneidade

No documento lucianamatiaslopes (páginas 49-52)

2 CAPÍTULO PRIMEIRO: AS IDADES DO MUNDO

2.3 GÊNESE DOS TEMPO

2.3.1 Características da teoria schellinguiana do tempo

2.3.1.3 Simultaneidade

De acordo com o que foi exposto até aqui, pode-se afirmar que em Schelling o tempo não se apresenta seguindo uma única direção, como num encadeamento de causas e efeitos que se expande indefinidamente para trás e para frente, pois, ao contrário, cada tempo pressupõe a existência em si dos outros dois. Em cada instante surge todo o tempo, diz Schelling, “como tempo no qual o passado, o presente e o futuro estão separados dinamicamente, mas justo por isso, ao mesmo tempo estão conectados.” (SCHELLING, 2002, p. 95). Isto significa que, na perspectiva deste autor, há uma simultaneidade entre os tempos, ou seja, as três dimensões do tempo estão, como se disse acima, simultaneamente unidos e dinamicamente separados, já que é a partir da decisão inicial que nasce o passado. O presente e o futuro nascem em simultaneidade a ele, pois, uma decisão livre e consciente está sempre voltada para o futuro. O sentido exato da afirmação de que cada tempo individual é o tempo inteiro é definido por Schelling (2002, p. 99) nos seguintes termos:

Com isso não queremos dizer simplesmente que cada tempo é inteiro em s mesmo porque contem de uma vez passado, presente e futuro. Ao mesmo tempo queremos dizer que contem em si mesmo todo tempo, que agora ainda não é (e ao qual talvez fosse mais claro chamar o tempo absoluto), pelo que é uma imagem real dele. O tempo inteiro seria quando não fosse mais futuro, e por isso podemos dizer que o futuro ou o tempo último é o tempo inteiro. Aceitado isto como correto, cada tempo possível contém o tempo inteiro; pois o que não contém do tempo como presente o contém como passado ou como futuro; ainda mais: cada tempo contém o mesmo, pois somente se diferencia de seu tempo precedente em que põe em parte como passado o que este põe como presente, e põe em parte como presente o que aquele ainda punha como futuro; e da mesma forma mas ao contrário, se diferencia do tempo que o segue.

A relação entre os três tempos se configura então da seguinte forma: eles são simultâneos ontologicamente e sucessivos logicamente, ou seja, eles existem simultaneamente mas operam sucessivamente. Em outras palavras, os tempos surgem simultaneamente, sendo, portanto, co-originários. Mas, enquanto configurações das ‘idades do mundo’, isto é, na forma

em que são percebidos por nós e em relação ao mundo, os tempos são sucessivos. Nesse sentido Schelling (2002, p. 233) explica que:

tempos diferentes podem ser ao mesmo tempo enquanto diferentes, ou, mais precisamente: são necessariamente ao mesmo tempo. O tempo passado não é um tempo suprimido; certamente, o passado não pode ser ao mesmo tempo que o presente como algo presente; certamente, o futuro não é ao mesmo tempo que o presente como algo agora existente, mas sim enquanto algo existente no futuro, e é absurdo pensar o ser-passado e o ser-futuro como um não-ser completo.

É oportuno notar neste contexto que a grafia do termo ‘presente’ em alemão é Gegenwart, palavra que contém a preposição ‘gegen’, isto é, ‘contra’, e está última, por sua vez, remete às ideias de cisão e, consequente, de decisão (SCHELLING, 2002, nota 3, p. 55). O autor (2002, p. 207) considera que

[a] maioria não sabe de nenhum passado exceto aquele que se magnifica a cada momento justamente através deste mesmo momento, de um passado que ele próprio ainda se torna, que não era. Sem um presente determinado e decidido não há nenhum passado; mas quantos de fato desfrutam de tal passado?

É possível perceber no trecho acima que noção de passado assumida por Schelling é aquela na qual o passado não significa simples passagem, mas ao contrário, resulta, conforme expressão de Navarro Pérez (In: SCHELLING, 2002, p. 33), de uma “contraposição ativa”. Logo, sem a disputa decorrente da oposição dos princípios não haveria tempo: sem a resistência criada pelo princípio de contração tudo aconteceria num só instante, sem desenvolvimento, sucessão e progressão. Por outro lado, sem o princípio de expansão que é incitado por aquele e a ele se opõe, haveria tão somente a total inatividade. É, pois, visando a abertura, o futuro, que a decisão é tomada. Por isso Schelling afirma: “o futuro é o tempo inteiro [...].” (SCHELLING, 2002, p. 99).

Nessa perspectiva, é possível dizer que a teoria do tempo em Schelling pode representar um contraponto à teoria do tempo em Kant, isto é, a organicidade do tempo em Schelling se opõe ao mecanicismo da idealidade transcendental do tempo em Kant, na qual o tempo representa o encadeamento necessário de causas e efeitos ou uma passagem ininterrupta do passado para o presente.

De acordo com a teoria kantiana, o tempo pode ser entendido como o quadro no qual intuímos os fenômenos:

O tempo é não algo que subsista por si mesmo ou que adere às coisas como determinação objetiva, e que por conseguinte restaria ao se abstrair de todas as condições subjetivas da intuição das mesmas; pois, no primeiro caso, o tempo seria algo real mesmo sem objeto real [...]. O tempo nada mais é senão a forma do sentido interno [...]. (KANT, 1996, § 6, p. 78, 79).

Schelling, por sua vez, afirma o contrário, isto é, o tempo não é apenas a moldura vazia na qual percebemos as coisas. Em outras palavras, para Schelling o tempo não se limita à forma das representações e, ao invés disso, ele afirma sua realidade: “[...] cada um experimenta incontestavelmente em sua própria ação a essencialidade do tempo; e inclusive àqueles que afirmam sua nulidade (nihilidad) o tempo sabe obrigá-los a lamentar-se em voz alta de sua terrível realidade.”(SCHELLING, 2002, p. 127).

Descrita nos termos da oposição das vontades e da especulação trinitária, as dimensões do tempo se apresentam da seguinte forma: no passado ou idade do Pai prevalece a força de contração; no presente ou idade do Filho prevalece a força de expansão; na unidade entre essas forças se funda o futuro ou idade do Espírito. O terceiro capítulo do presente estudo tratará mais detidamente do aspecto trinitário da revelação em sua relação com a temporalidade.

Nesse sentido vale antecipar, com Courtine (2006, 258), que

não é indiferente nem fortuito que esse empreendimento de “genealogia do tempo”, atento à sua diversidade, ou melhor, à sua autodiferenciação e sua organicidade, desenvolva-se no mesmo plano de uma especulação trinitária ou, mais amplamente, teocosmogônica, em que se superpõem os princípios cuja disjunção está na origem de toda temporalização, em que as “potências” presentes implicitamente no Urwesen distinguem-se em pessoas e essas em períodos.

Trata-se aqui, como pretendeu-se mostrar, do processo de criação e revelação no qual, para o autor, a origem ou começo do tempo possa ser pensado também como começo de uma vida. A essência ou força autêntica do tempo tem seu fundamento no eterno, mas o “começo real somente pode devir da liberdade absoluta.” (SCHELLING, 2002, p. 95). Neste sentido o autor declara que “Deus supera pela liberdade a necessidade de sua natureza na criação.” (SCHELLING, 2002, p.177). Daí afirmar-se que o ponto de partida de Schelling é a liberdade divina.

3 CAPÍTULO SEGUNDO: CRIAÇÃO E REVELAÇÃO: TEOGONIA E

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