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Sindicabilidade da defesa técnica e liberdade do defensor

IV. Dilemas do controle judicial da efetividade da defesa técnica

1. Sindicabilidade da defesa técnica e liberdade do defensor

É praticamente um truísmo afirmar a importância da efetividade da defesa técnica no processo penal, de modo que a qualidade da atuação dos defensores deve ser um objetivo de todo sistema processual que respeite os direitos individuais dos acusados.

Nesse sentido, existem instrumentos extrajudiciais que exercem certo controle sobre a qualidade da atuação dos defensores, a exemplo do mercado, quando a defesa é exercida por profissionais liberais; dos órgãos de controle da administração pública, como as corregedorias das defensorias públicas; e da Ordem dos Advogados, responsável pela regulação da profissão.

O mercado intervém economicamente ao fazer com que profissionais mal avaliados na comunidade não consigam novos clientes ou se vejam obrigados a reduzir seus ganhos, enquanto os que possuem reputação de competentes consigam mais clientes e cobrem valores maiores por seus serviços.

Já as corregedorias das defensorias públicas e a Ordem dos Advogados, por sua vez, possuem a função de fiscalização da atividade dos profissionais, o que envolve a imposição de sanções aos maus profissionais, que podem limitar ou até impedir o exercício da atividade pelos mesmos.

Em princípio, tal espécie de controle possui o condão de incrementar a qualidade do desempenho dos defensores e de prevenir equívocos em defesas futuras. Contudo, quando se trate de equívocos já ocorridos, tal atuação extrajudicial nada pode fazer para interferir nos resultados do processo, de modo que, para o acusado que foi concretamente prejudicado por uma falha de atuação de seu defensor, esse controle é de pouca ou nenhuma serventia.

O mesmo não se pode dizer com relação ao controle judicial. Os tribunais dirigem os procedimentos, o que lhes propicia uma visão geral da performance do defensor e viabiliza

uma reação tempestiva em caso de inefetividade da defesa técnica,277 de modo que é a única forma de controle capaz de evitar, no caso concreto, que a falha do defensor prejudique a própria defesa do acusado.

Apesar de ser expressamente prevista na legislação brasileira quando se verificar que o acusado está indefeso278 e de haver enunciado da súmula do STF279 prevendo a nulidade em caso de inefetividade defensiva, a interferência judicial sobre as falhas defensivas é uma espécie de anomalia em virtude de implicar a responsabilização do Estado por uma falha de seu oponente,280 o que explica a superada teoria do mandato,281 que chegou a prevalecer na jurisprudência norte-americana, segundo a qual o acusado era o único responsável pelas eventuais falhas de seu defensor, só lhe restando buscar reparação do mandatário, mas nunca que o tribunal revisse a condenação decorrente da falha defensiva.282

Outrossim, a intervenção do tribunal na defesa pretensamente ineficaz traz ao lume uma possível contradição entre duas irmãs siamesas: a efetividade da defesa técnica e a independência da advocacia.

Com efeito, a independência é um dos mais caros pressupostos da advocacia e condição necessária para que o acusado confie em seu defensor.283 Ademais, uma defesa

técnica efetiva depende, em grande medida, da liberdade conferida ao defensor para que este se desincumba de sua tarefa.

Desse modo, cabe ao defensor, no uso da independência que lhe é conferida pelo ordenamento jurídico,284 decidir a estratégia defensiva, adotando as teses que lhe parecerem mais adequadas, de acordo com os conhecimentos que possui dos fatos.

Imiscuir-se o tribunal em tais decisões, mesmo que a pretexto de garantir a efetividade da defesa técnica, pode, de maneira paradoxal, tolher o exercício da defesa técnica, prejudicando sua efetividade.

277 SOO, Anneli. An Individual’s Right to the Effective Assistance of Counsel versus the Independence of Counsel: What Can the Estonian Courts Do in Case of Ineffective Assistance of Counsel in Criminal Proceedings?, Juridica International, 2010, n.1, p.253.

278 Artigo 497, V, do CPPB.

279 Enunciado n° 523 da Súmula do STF: “No processo penal, a falta da defesa constitui nulidade absoluta, mas a sua deficiência só o anulará se houver prova de prejuízo para o réu.”

280 GREDD, Helen. Washington v. Strickland: Defining Effective Assistance of counsel at Capital Sentencing.

Columbia Law Review, n.6, 1983,p.1578.

281 Tradução livre de agency doctrine.

282 MAYEUX, Sara. Ineffective Assistance of Counsel Before Powell v. Alabama: Lessons from History for the Future of the Right to Counsel. Iowa Law Review, v.99, 2014, p.2169-2170.

283 LÔBO, Paulo. Comentários ao estatuto da advocacia e da OAB. 5.ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p.181. 284 Art. 31, §1º, do Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, Lei nº 8.906/94, e artigo 134, §4º, da CRFB.

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De outra banda, por vezes há falhas de tal modo evidentes por parte do defensor do acusado que fica difícil afirmar que as mesmas sejam decorrentes de uma opção tática consciente e válida, assim como há casos em que sequer se vislumbra a presença de qualquer tese defensiva minimamente plausível.

Em tais casos de evidente falha do defensor, não intervir o judiciário na atividade defensiva implicaria o paradoxo inverso: servir a independência da defesa como escudo protetor da falha defensiva, a despeito de ter na efetividade a sua inspiração.

Destarte, a fim de equacionar tal contradição, se e quando a mesma surgir, é mister responder a dois questionamentos: 1) É possível o judiciário sindicar a atuação do defensor no âmbito de um dado processo criminal? 2) Caso se responda positivamente à questão anterior, como se deve proteger o acusado do mau uso da independência de sua defesa, sem vulnerar a necessária liberdade de atuação da mesma?

No que se refere ao primeiro questionamento, a resposta certamente é positiva. Tal resposta se extrai, consoante já visto anteriormente, não apenas do direito positivo brasileiro, como das jurisprudências norte-americana e portuguesa, bem como é reconhecida nos principais sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos.

Ademais, embora a independência da advocacia seja um valor fundamental, não possui existência autônoma, uma vez que existe a fim de resguardar os direitos de defesa do acusado e não teria qualquer sentido preservá-la em detrimento dos interesses que visa proteger.

Nesse sentido, a intervenção do judiciário para garantir a efetividade da defesa encontra eco na visão de que é missão do tribunal zelar para que haja contraditório real e não apenas formal entre as partes, de modo a garantir o equilíbrio entre a acusação e a defesa,285 bem como deve conferir se a defesa, no caso concreto, foi desempenhada de modo adequado, utilizando-se de todos os meios necessários para influenciar o convencimento do tribunal, sob pena de considerar o acusado indefeso e o processo viciado.286

Há que se considerar, ainda, o momento em que tal intervenção do tribunal pode ocorrer. Sob esse aspecto, há duas formas de o tribunal intervir: ao julgar recurso da defesa

285 CINTRA JÚNIOR, Dyrceu A. D. O devido processo legal e a defesa efetiva (jurisprudência comentada).

Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, v.3, n. 10, abr./jun. 1995, p.188-192.

286 GRINOVER, Ada P. O processo constitucional em marcha: contraditório e ampla defesa em cem julgados do Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo. São Paulo: Max Limonad, 1985, p.19-21.

que tenha como objeto a alegação de inefetividade da defesa técnica ou, de ofício, assim que perceber a atuação falhada do defensor.

Na primeira hipótese, um novo defensor arguiria a pretensa falha, já que é pouquíssimo provável que um advogado recorra alegando seu próprio erro.287 Dessa forma há um respeito maior à condução da defesa pelo advogado e se mantém a inércia da jurisdição.

Quando o tribunal atua de ofício, o faz de modo mais ágil, intervindo por meio de um convite ao advogado à retificação do erro ou até mesmo substituindo-o,288 o que é uma tensão maior com a independência da advocacia e põe em causa o princípio acusatório.

Com efeito, mesmo conferindo ao judiciário a possibilidade de sindicar a atuação defensiva, tal intervenção não pode ocorrer ao arbítrio do tribunal, que não tem a função de tutor da competência do defensor, analisando cada medida tomada e intervindo na estratégia defensiva em quaisquer situações.

Desse modo, o necessário equilíbrio entre a independência da advocacia e a necessidade de garantir a efetividade da defesa técnica exige que a intervenção do tribunal só ocorra nos casos em que se faça necessário e conforme critérios seguros que este trabalho se propõe a discutir a seguir.

2. Distinção de tratamento conforme se trate de advogado contratado ou fornecido pelo