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3. Particularidades sonoras no filme-ensaio

3.3. A música no filme ensaio

3.3.1. As sinfonias urbanas

3.3.1.2 Sinfonia da cidade e o pensamento sonoro de Walter

O filme Berlim: Sinfonia da metrópole (Berlin, die Symphonie der

Grosstadt, 1927) foi lançado pela Fox Europa Film e teve como produtor,

diretor e montador Walter Ruttmann. O cineasta alemão nasceu na cidade de Frankfurt em 1887 e estudou arquitetura, pintura e música. Além do cinema, trabalhou como designer gráfico e foi um dos expoentes do cinema experimental das décadas de 1920 e 1930. Trabalhou durante o período nazista como assistente de Leni Riefenstahl. Morreu em Berlim em 1941 trabalhando como fotógrafo de guerra.

Figura 21: Berlim: Sinfonia da metrópole (1927) Walter Ruttmann

Fonte: https://img.fstatic.com/5xVVojJzP7INuVlYxqfpCqM8004 =/fit- in/290x478/smart/https://cdn.fstatic.com/media/movies/ covers/2009/12/ca5226ac04bae436be3d789eb1b7c19a .jpg

Ruttmann participou intensamente da composição musical de Berlim: Sinfonia da metrópole, cuja tarefa fora designada a Edmund Meisel. A escolha demonstra a relevância dada à música na medida em que o compositor tinha

106 muita experiência e conhecimento na articulação entre música, imagem e dramaturgia, pois já havia trabalhado no cinema com Eisenstein na partitura de O Encouraçado Potenkim (1925) e no teatro para Bertolt Brecht. Meisel foi um importante membro do Instituto Alemão de Pesquisa Fílmica sendo precursor em experimentos que serviram de base para pesquisas relacionadas ao desenvolvimento do cinema sonoro. Na partitura original em versão reduzida, que se encontra no acervo do Deutsches Filminstitut é possível identificar inúmeros comentários de Edmund Meisel relacionando as passagens musicais com os acontecimentos cênicos, enfatizando a importante relação audiovisual do filme.

Se por um lado ficamos com a sensação de incompletude ao assistirmos Berlim: Sinfonia da metrópole sem a trilha musical meticulosamente orquestrada às imagens, por outro ao depararmo-nos com a produção teórica de Walter Ruttmann estreitamos essa lacuna, pois seus escritos nos revelam suas concepções cinematográficas e podemos chegar à conclusão do quão importante e esclarecedor foi o seu pensamento e como suas ideias corroboraram e de certa maneira anteviram muito das discussões relevantes ao filme-ensaio.

Igualmente esquecida é a produção teórica de Walter Ruttmann, que se mostra importante, no mínimo, por pensar a arte cinematográfica em meio à irrupção das vanguardas e dos domínios ficcional, documental e experimental do cinema. (CARRASCO; CHAVES, 2012, p. 23).

Escrito entre os anos de 1919 e 1920, Malerei mit Zeit (pintura com tempo) é um artigo em que Ruttmann analisou o descompasso entre a sociedade e a arte de seu tempo, afirmando que a produção artística perdera a capacidade de sensibilizar as pessoas, pois se apresenta de maneira estática (ele faz referência às artes plásticas) e não reflete as urgências e novidades de sua época. O cineasta batizou seu tempo de "Era da velocidade" onde as máquinas têm um papel decisivo na transformação da sociedade, pois contribuem para a proliferação e disseminação da produção e divulgação intelectual, seja pelos meios de transportes (trens) ou pelos meios de comunicação (telégrafos e prensas). Segundo Ruttmann, a nova arte deve

107 refletir e dialogar com o estado das coisas desse mundo dinâmico, em suas palavras: die Zeit sein (ser o momento), onde ao contrário de uma pintura, que busca "eternizar um instante", ela deverá, sobretudo, registrar a ideia de movimento e ritmo (como na música) dos acontecimentos visuais. Assim, a arte se colocaria entre a música e a pintura, como o próprio título de seu artigo propõe: pintura com tempo. Aproximando às ideias ensaísticas, Ruttmann elabora um conceito na qual elenca níveis da dimensão artística: "acomodação" e "associação", em que o primeiro faz referência à arte estática que era assimilada e acomodada pela população. O segundo, a associação estaria ligada à velocidade dos eventos contemporâneos. Para Ruttmann o relacionamento que o sujeito tem com o espírito de sua era deve atingir seus desejos mais particulares e promover o encontro entre a experimentação pessoal e a experiência estética e social.

A vida já não se pauta em experiências e sim num desenrolar por inteiro de situações onde as pontualidades da vida se misturam numa curva: a relação efetiva da experimentação pessoal e da experiência estética, portanto, só vai ocorrer no limite da analogia, de uma analogia histórica em que o indivíduo se separa do mundo. (CARRASCO; CHAVES, 2012, p. 25).

Longe de teorizar sobre o filme-ensaio, Ruttmann toca num ponto sensível ao pautar seus argumentos sobre a "nova arte" estabelecendo seus fundamentos no encontro entre a experimentação do indivíduo com as relações sociais e estéticas. Essa premissa é confirmada pelas palavras de Timothy Corrigan, que indica como fator decisivo ao "ensaístico" um tipo de encontro entre o eu e o domínio público, medindo os limites e possibilidades de cada um como atividade conceitual. (CORRIGAN, 2015, p. 51). Outros dois textos de Walter Ruttmann sintonizam suas opiniões em relação à arte contemporânea e indiretamente, ao filme-ensaio. No artigo Die "absolute" Mode publicado em 1928 na revista alemã Illustrierter Film- Kurier, o cineasta define seu ponto de vista sobre a arte de fazer filmes e reivindica a necessidade de construir um cinema que não opere como uma simples abstração, mas que revele uma opinião, em que se busque o avanço para esclarecer as questões do mundo e sua natureza. Por fim, em seu texto Die Symphonie der Welt de 1930 publicado na revista Revue du Cinéma afirma da impossibilidade de um filme transmitir

108 uma verdade absoluta. Segundo Ruttmann é imprescindível que haja um ponto de vista e uma reflexão sobre os fatos. Dessa maneira toda película passa por uma espécie de filtro, que é o olhar do diretor e sua consciência tendo como produto final uma representação perceptiva do mundo.

Berlim: Sinfonia da metrópole está inserida num contexto de rica produção artística e cinematográfica alemã. Em 1919 foi lançado O gabinete do doutor Caligari de Robert Wiene, considerado um marco no cinema expressionista alemão. Em paralelo aos expressionistas um significativo grupo de artistas e cineastas, incluindo Walter Ruttmann, Hans Richter, Oskar Fischinger e Viking Eggeling produziram filmes a partir de composições abstratas, figuras geométricas e variada gama de cores, criando um tipo de "música visual" (BORDWELL; THOMPSON, 1994, p. 192). A forte ligação de Ruttmann com a música e o cinema fica mais evidente em seu artigo publicado em 1929 para a revista alemã Illustrierter Film- Kurier chamado Sound Films. O texto foi escrito um ano após a famosa "Declaração sobre o futuro do cinema sonoro" de Eisenstein, Pudovkin e Alexandrov (1928) e congruente às ideias dos cineastas russos, aponta para um cinema sonoro onde as relações entre as imagens e os sons deveriam estabelecer um sentido de independência entre as partes, mas que resultasse numa obra coesa e única.

Comentado anteriormente, Wochenende (1930) foi a experiência mais radical produzida por Walter Ruttmann no campo da música e som de cinema dialogando com as vertentes da vanguarda futurista, cujo resultado sonoro se aproxima das experiências da música concreta, além de antecipar a ideia proposta por Derek Jarman no filme-ensaio Blue (1993).

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3.3.1.3. O Céu de Lisboa (Lisbon Story-1994): A sinfonia musical