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A subjetividade encontra-se em circulação nos conjuntos sociais de diferentes tamanhos – ela é essencialmente fabricada e modelada no registro social – assumida e vivida por indivíduos em suas existências particulares. Podemos vivê-la oscilando por entre relações de alienação e de opressão, na qual o indivíduo se submete à subjetividade tal como a recebe, ou por relações de expressão e de criação, na qual o indivíduo se reapropria de seus componentes, produzindo um processo que pode ser denominado de singularização116. Percebemos que o objetivo da produção de subjetividade pelo capitalismo mundial integrado (CMI) é de bloquear os processos de singularização e instaurar processos de individuação. A crise mundial na qual estamos

116 O termo “singularização” é usado por Guattari e Rolnik (1993) para designar os processos disrruptores no campo da produção do desejo: trata-se dos movimentos de protesto do inconsciente contra a subjetividade hegemônica, através da afirmação de outras maneiras de ser, outras sensibilidades, outra percepção, etc. Chama-se a atenção para a importância política de tais processos dentre os quais se situam os movimentos sociais, as minorias - enfim desvios de diferentes espécies.

177 imersos é a crise dos modos de semiotização do capitalismo, pensando não só nas semióticas econômicas, mas em todas as semióticas de controle social e de modelização da produção da subjetividade. Uma das características desta crise, é que ela não se situa apenas nas relações sociais explícitas, mas envolve formações do inconsciente, formações religiosas, míticas, estéticas. Trata-se de uma crise de modos de subjetivação, dos modos de organização e de sociabilidade, das formas de investimento coletivo de formações do inconsciente que escapam às explicações estruturalistas. Essa crise é mundial, mas ela é apreendida, semiotizada e cartografada de diferentes maneiras de acordo com o meio, com cada indivíduo.

Guattari (1982) nos convida a fazer a leitura do social desde o desejo, fazer a passagem do desejo ao político na multiplicidade, na heterogênese dos modos de subjetivação. Nessa perspectiva vamos assistindo à construção de uma teoria do desejo no campo social, onde a economia política117 e a economia libidinal são inseparáveis. A economia libidinal é a subjetividade da economia política. O inconsciente é maquínico – inconsciente da produção de máquinas do desejo no campo social. Volatiza-se a barra que separa um campo privado do desejo de um campo público da realidade cotidiana. A produção de “fluxos esquizo”118

na economia do desejo é a mola propulsora de mutação pessoal/social, condição de história. (GUATTARI: 1992).

“[...] De uma maneira geral, deve-se admitir que cada indivíduo, cada grupo social veicula seu próprio sistema de modelização da subjetividade, quer dizer uma certa cartografia feita de demarcações cognitivas, mas também míticas, rituais, sintomatológicas, a partir da qual ele se posiciona em relação aos seus afetos, suas angústias e tenta gerir suas inibições e suas pulsões. (GUATTARI: 1992:322)”.

Acerca da noção de desejo Guattari segue dizendo:

[...] Ao desejo não falta nada. O desejo não depende da lei. O desejo não é sinônimo de transgressão. O desejo é pura positividade. Não é que você tenha um inconsciente, você deve produzir um inconsciente. Produzir o

117 Política como referente ou fundada pelas dimensões estéticas e analíticas que estão sempre implicadas nas três ecologias: do meio ambiente, do sócius e da psiquê.

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“[...] Fluxos esquizo são sistemas de cortes que não são apenas a interrupção de um processo, mas a encruzilhada de processos. A esquize traz em si um novo capital de potencialidade”. (GUATTARI: 1992:322).

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inconsciente não é fácil, não é em qualquer lugar, não é como um lapso, um trocadilho ou até mesmo com um sonho que se produz um. Nada que ver com lembranças reprimidas, nem com fantasias. O inconsciente não é um teatro, mas uma fábrica, ele não representa, ele maquina, ele produz e conecta e escoa por toda parte. O inconsciente é uma substância a ser fabricada, a fazer circular, um espaço social e político a ser conquistado. Tudo é uma questão de desejo. ( PÁL PELBART: 2003, 153-154).

A tentativa do controle social através da produção da subjetividade em escala planetária se choca com fatores de resistência consideráveis, processos de diferenciação permanente que Guattari (1992) denomina de Revolução Molecular ( máquinas de guerra, máquinas de desejo, máquinas abstratas ).

Para Foucault (DELEUZE, 2005) as singularidades são “enunciados” e nesse sentido não há apenas singularidades presas em relações de forças, mas singularidades de resistência, capazes de modificar essas relações, de invertê-las, de mudar o diagrama da zona de subjetivação. No sentido foucaultiano a singularidade é do campo da microfísica – é molecular. O que caracteriza esses movimentos moleculares não é somente uma resistência contra o processo geral de serialização da subjetividade capitalista, mas também a tentativa de produzir modos de subjetividade originais e singulares, processos de singularização subjetiva119. É necessariamente nessa perspectiva que a noção de devir está relacionada.

A ideia de revolução molecular diz respeito sincronicamente a todos os níveis: infrapessoais ( o que está em jogo no sonho, na criação, etc); pessoais ( aquilo que os psicanalistas chamam de Superego ); e interpessoais ( a invenção de novas formas de sociabilidade na vida doméstica, amorosa, profissional, na relação com a vizinhança, com a escola ). As rádios livres, a contestação do sistema de representação política, o questionamento da vida cotidiana são vírus contaminando o corpo social em sua relação com o consumo, com a produção, com o lazer, com os meios de comunicação, com as cidades, com a cultura. São revoluções moleculares criando mutações na subjetividade consciente e inconsciente dos indivíduos e dos grupos sociais. A revolução molecular consiste em produzir as condições não só de uma vida coletiva,

119 “O traço comum entre os diferentes processos de singularização é um devir diferencial que recusa a subjetivação capitalista. Isso se sente por um calor nas relações, por determinada maneira de desejar, por uma afirmação positiva de criatividade, pela multiplicidade dessas vontades. É preciso abrir espaço para que isso aconteça. O desejo só pode ser vivido em vetores de singularidade”. ( GUATTARI, 1993: 47 ).

179 mas também da encarnação da vida para si próprio, tanto no campo material quanto no campo subjetivo (GUATTARI: 1982).

Guattari (1982) emprega o termo revolução associada à ideia de processo. Produzir algo que não exista, produzir uma singularidade na própria existência das coisas, dos pensamentos e da sensibilidade. É um processo que acarreta mutações no campo social inconsciente, um processo de singularização existencial. A revolução é vista nessa perspectiva como uma repetição que muda algo, uma repetição que produz o irreversível.

“[...] O que é uma repetição? Há na Modernidade quatro grandes pensadores da repetição: Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger e Gilles Deleuze. Os quatro mostraram-nos que a repetição não é o retorno do idêntico, do mesmo enquanto tal que retorna. A força e a graça da repetição, a novidade que traz, é o retorno em possibilidade daquilo que foi. A repetição restitui a possibilidade daquilo que foi, torna-o de novo possível. Repetir uma coisa é torná-la de novo possível. É aí que reside a proximidade entre a repetição e a memória. Dado que a memória não pode também ela devolver-nos tal qual aquilo que foi. Seria o inferno. A memória restitui ao passado a sua possibilidade. É o sentido desta experiência teológica que Benjamin via na memória, quando dizia que a recordação faz do inacabado um acabado, e do acabado um inacabado. A memória é, por assim dizer, o órgão de modalização do real, aquilo que pode transformar o real em possível e o possível em real.” (AGAMBEN, 1998 :66)

A revolução molecular ou os processos de singularização não podem ser afetados especificamente nem num nível macrossocial, nem num nível microssocial, nem tampouco num nível individual. Toda problemática micropolítica consiste, exatamente, em tentar agenciar os processos de singularidade no próprio nível onde eles emergem. E isso para frustrar sua recuperação pela produção de subjetividade capitalista – seja pela grande rede dos equipamentos coletivos, seja por estruturas de reapropriação pela ação militante. A ação militante também está exposta a riscos de modelização igualmente opressora. Então, uma micropolítica analítica das singularidades teria que atravessar essas diferentes estratificações.

Os pontos de singularidade, os processos de singularização são as próprias raízes produtivas da subjetividade em sua pluralidade. Neste âmbito distinguimos as noções de singularidade e de identidade. Na perspectiva traçada por Guattari e Deleuze (1995) a noção de identidade está frequentemente vinculada ao reconhecimento. Identidade e

180 singularidade implicam noções completamente diferentes. A singularidade é um conceito existencial; já a identidade é um conceito de referenciação, de circunscrição da realidade a quadros de referência, quadros esses que podem ser imaginários. A identidade é aquilo que faz passar a singularidade em maneiras de existir por um só e mesmo quadro de referência identificável. Quando vivemos nossa própria existência, a vivemos com as palavras de uma língua que pertence a milhões de pessoas; a vivemos como um sistema de trocas econômicas que pertence a todo um campo social; nós a vivemos como representações de um modo de produção totalmente serializado. No entanto, nós vamos viver e morrer numa relação totalmente singular com este cruzamento. (GUATTARI, 1993:74).

A questão das identidades não diz respeito apenas a processos de identificação, mas também a ideia de que haveria pontos de singularidade subjetiva aquém da instância simbólica e das estruturas identificatórias. Adota-se a noção de desejo como função de singularidade nos processos psíquicos. O ponto em que as problemáticas do inconsciente e por isso também desejantes se entrelaçam com as problemáticas políticas está exatamente na ideia de que não se trata apenas de subjetividades identificáveis ou identificadas, mas de processos subjetivos que escapam às identidades. Neste sentido, Guattari (1993) opõe à ideia de reconhecimento/ de identidade a ideia de singularidade, de processos transversais, de devires120 subjetivos que se instauram através dos indivíduos e dos grupos sociais. E eles podem fazê-lo, porque eles são processos de subjetivação, eles configuram a própria existência dessas realidades subjetivas. Mas eles não podem existir em si, e sim num movimento processual; é isso que lhes dá a sua potência de travessia em todas as estratificações – materiais, de sentido, de sistemas maquínicos e assim por diante. “[...] Assim, poderíamos dizer que quando uma problemática de identidade ou de reconhecimento aparece em determinado lugar, no mínimo estamos diante de uma ameaça de bloqueio e de paralização do processo.” ( GUATTARI, 1993: 74 ).