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2 SINGULARIDADE

2.2 A singularidade como processo

Falar de singularidade, como vimos, é sempre evocar ideias e conceitos os mais diversos. Nas interfaces entre Filosofia, Arte e Ciência, tal conceito ocupa um lugar de interesse comum ao pensarmos em termos de processos de subjetivação.

Destarte, algumas vertentes tomam como pressuposto o indício de que “mais além e mais aquém da forma delimitada que podemos denominar sujeito” (TEDESCO, 2006, p. 358) existem outras atribuições mais dinâmicas que rompem com o paradigma do sujeito como algo fixo. A essa extensão denomina-se processo de subjetivação, onde a subjetividade se exerce como “processualidade” e o termo “sujeito” deixa de ser entendido como uma substância contida num corpo, já que nem um nem outro são imutáveis. Assim, esta é uma ruptura “sobre o que já chamamos sujeito e hoje preferimos chamar de experiência subjetiva, [ou seja], o modo como cada um de nós percebe e coloca em atos e palavras a si mesmo, a sua relação com o mundo e com o outro” (CUNHA, 2009, p. 17).

Figura 6: O sujeito não é mais entendido como algo fixo. O termo sujeito deixa de ser entendido como

Na multiplicidade de nossas “experiências subjetivas”, nos certificamos que a subjetividade é processual e não delimitada. Ao falar nesses termos, estamos considerando que a produção da subjetividade se dá numa dimensão de processo onde ela trabalha na elaboração de sentidos que são por vezes indizíveis e compõem uma realidade que é mutável. Essa realidade se constrói em processo e é um fato subjetivo que, segundo a professora Silvia Tedesco, “é um efeito do encadeamento de práticas diversas” (TEDESCO, 2006, p. 361). Trata-se de um entrecruzamento de relações e práticas que se estabelecem a partir de saberes muito específicos combinados aos interesses individuais.

O modo como cada ator configura sua prática – a partir dos elementos de que dispõe, das relações que vivencia e dos procedimentos técnicos utilizados – pressupõe uma manifestação irrepetível naquilo que representa tal experiência. Ou seja, é um modo muito particular que só aquela unidade subjetiva poderia praticar, e não outra: é uma singularidade, uma ocorrência que não se reproduz porque é intrínseca ao acontecimento.

A possibilidade de (re)invenção, característica tácita do ator, dá contornos para a diferença que atravessa o conjunto de seu trabalho e marca seus processos individuais como algo singular. Neste sentido, compreendemos a singularidade como um processo que se dá nas mais distintas experiências subjetivas de acordo com as mais improváveis relações. Contudo, preferimos pensar em processos subjetivos do ator considerando seu “corpo em ação”, isto é, a subjetividade se manifesta no corpo que age de modo que não é uma ocorrência puramente mental pois é preciso se manifestar fisicamente.

Merleau-Ponty propõe “a ideia de uma consciência encarnada em um corpo, [...] a ideia de uma subjetividade encarnada” (SOMBRA, 2006, p. 17). A partir desta acepção, o pesquisador José de Carvalho Sombra aprofunda sua leitura do filósofo na elaboração do conceito de Subjetividade Corpórea à luz da experiência do corpo próprio como corpo-sujeito e da experiência perceptiva elevada à consciência perceptiva, o que caracterizaria uma subjetividade manifesta no corpo, ou seja, uma corporeidade. Para melhor esclarecer sobre este aspecto, cabe observar como Sombra (2006) articula esse pensamento:

A Fenomenologia da Percepção é a reflexão sobre a percepção, tendo como sujeito o corpo próprio e a consciência perceptiva. O corpo próprio comporta- se como sujeito; é sujeito-corpo. A consciência, por sua vez, é sujeito da percepção, visto que toda consciência é, em algum grau, consciência

perceptiva. Assim as experiências do corpo próprio e da consciência perceptiva levam à consciência encarnada. (SOMBRA, 2006, p. 19).

No entanto, o pesquisador afirma ser necessário considerar que Merleau-Ponty refina estes pressupostos em sua obra O visível e o invisível (1999) quando desenvolve a noção de “carne”. Ali, ele radicaliza estes conceitos e afirma que o corpo é dotado de uma sensibilidade e reflexibilidade que são próprias da subjetividade.

Segundo Sombra (2006), o corpo é tratado, ao longo da história da filosofia ocidental, como um “amontoado de órgãos” e a subjetividade é tida como um aspecto puramente espiritual e abstrato, como uma substância que não se manifesta no corpo, mas como um “feixe de reflexos mecânicos sujeitos à causalidade exterior” (SOMBRA, 2006, p. 20). O que o pesquisador coloca em pauta aqui é a noção de que a subjetividade também é carne, ou seja, em termos merleau-pontyanos, estaria no corpo em todas as suas manifestações físico-químicas, agindo no corpo que é carne, que é sujeito próprio. O autor defende uma naturalização da subjetividade como corpo, ressaltando “o lado corporal da subjetividade naquilo que ela tem de biológico” (SOMBRA, 2006, p. 20).

Mas a noção de Merleau-Ponty (1999) vai na direção de que “carne” não é o mesmo que “corpo” já que o mundo também é carne.

Onde colocar o limite do corpo e do mundo, já que o mundo é carne? Onde colocar no corpo o vidente, já que evidentemente no corpo há apenas “trevas repletas de órgãos”, isto é, ainda o visível? O mundo visto não está “em” meu corpo e meu corpo não está “no” mundo visível em última instância: carne aplicada a outra carne, o mundo não a envolve nem é por ela envolvido. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 134).

Há, para ele, uma relação perceptiva que se dá na experiência:

É preciso que, entre a exploração e o que ela me ensinará, entre meus movimentos e o que toco, exista alguma relação de princípio, algum parentesco, segundo o qual não sejam somente [...] vagas e efêmeras deformações do espaço corporal, mas iniciação e abertura a um mundo táctil. Isto só poderá acontecer se, ao mesmo tempo que sentida do interior, minha mão também for acessível por fora, ela própria tangível, por exemplo, pela outra mão, se tomar o lugar entre as coisas que toca”. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 130).

A carne do mundo não se confunde com nossa própria carne, mas é através daquela que compreende o corpo, assim como o corpo sensível não é o corpo sentiente. O corpo sensível é o que percepciona, enquanto o corpo sentiente é a reflexão do corpo em si, ou seja, tocar e ser tocado concomitantemente. (VIVIANI, 2007, p. 8).

Portanto, carne não é sinônimo de corpo pois trata-se de algo mais que é o ser

sentiente (tocar e ser tocado), é relação com o mundo: “ocorre uma reflexão do corpo

em si (isto é, o tocar é inerente ao tocando, ao ser tocado) em que sujeito e objeto finalmente embaralham-se; surge daí a ideia de corpo sentiente” (VIVIANI, 2007, p. 7).

Pensar a subjetividade na constituição de seus processos biológicos nos faz retornar aos estudos de Damásio (2004, 2000) onde ele afirma que quando alguma das capacidades mentais é afetada, interfere nas capacidades corporais. Damásio remonta a Espinosa ao rememorar que “ninguém sabe o que pode o corpo” e, dentre uma infinidade de casos, nos proporciona uma fascinante jornada em que podemos colocar em perspectiva a origem de nossas emoções e sentimentos argumentando, principalmente, que ambos são processos biológicos e se dão no corpo, isto é, se manifestam primeiro no corpo e depois na consciência.63

A subjetividade corpórea nos propõe que pensemos o corpo não como objeto da ciência, ou seja, objeto de conhecimento em terceira pessoa, mas um corpo no singular, como sujeito vivido tal qual se apresenta à luz da fenomenologia de Merleau-Ponty: “o corpo próprio, tal como eu existo e o reconheço como meu corpo, o corpo que eu vivo, que eu tenho, o qual se conduz como sujeito agente dos meus desejos, intenções e movimentos” (SOMBRA, 2006, p. 25).

Portanto, ao analisar a obra de Merleau-Ponty, José de Carvalho Sombra traz uma proposição que incita a romper definitivamente com todo dualismo cartesiano que é restituir ao corpo a união entre o físico e o psíquico, ou seja, a junção entre o eu objetivo e o eu subjetivo.

Nessa junção residem os processos de subjetivação, onde o que se constrói é um eu que não é puramente físico, mas sim construído na experiência singular que ocorre quando apreendemos em nosso corpo o mundo percebido, constituindo múltiplos quiasmas. A obra Drawing Hands [Desenhando Mãos] (1948) do artista holandês Mauritus Cornelis Escher (1898-1972) nos dá um bom exemplo para pensar nesta

63 Espinosa dizia que tentamos saber o que é o pensamento, enquanto não sabemos do que nosso corpo é capaz. Sobre isso, ver os textos de António Damásio: Corpo, Cérebro e Mente In: Em busca de

Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004; e Emoção e sentimento In: O Mistério da Consciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

relação quiasmática. Este desenho mostra duas mãos que se desenham mutuamente; não há acima ou abaixo; é como se cada mão “saísse” do papel para desenhar a outra. Cada mão está, simultaneamente, dentro e fora. A “mão que se desenha” de Escher nos possibilita conjeturar que o trabalho do ator se constrói na experiência, se constitui de relações – que se entrelaçam, se afetam, desenhando-se umas às outras.

Figura 7: Quiasma

Michel Serres, quando observa a mão que segura uma tesoura para cortar as unhas, remonta à obra do artista holandês trazendo, porém, uma abordagem de ordem fenomenológica, sentiente: “De um lado, eu corto uma unha, do outro, minha unha é cortada” (SERRES apud VIVIANI, 2007, p. 13).

Para José de Carvalho Sombra:

O corpo humano é espelho: é o visível que se vê, o tocado que se toca, o sensível que se sente. Essa condição do corpo humano como carne que sente, se sente e é sentida; que vê, se vê e é vista; que toca, se toca e é tocada constitui um poder de se transcender [...] poder de se diferenciar das coisas e de diferenciar as coisas. (SOMBRA, 2006, p.26).

Nosso corpo é experiência, nosso ser é todo percepção. E ser ator é abrir-se ao mundo e abrir seu mundo ao devir, às mudanças e transformações. Afetar e ser afetado pelas pulsões do mundo e do outro. Fazer emergir sua subjetividade e mergulhar na subjetividade do outro. Singularizar-se à medida que permite a seu corpo – que é humano, frágil e perecível – a experiência sentiente.

Atuar é uma arte efêmera. Trabalhar em algo que amanhã só ficará no plano da memória. Recorrer uma e outra vez aos mesmos passos já traçados anteriormente, como se fosse a primeira vez. Tentando que a subjetividade do presente nos inunde. A solução para nossos problemas é contraditória, as verdades de ontem hoje estão mortas e as de amanhã ainda estão por construir- se” (J. F, In: CAZABAT et.al., p. 64).

No trabalho da Periplo, Compañia Teatral vemos que a experiência do sentir e ser sentido está relacionada à questão das imagens na estruturação da ação teatral e é sobre isso que falaremos a seguir.