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Transitividade 2 complemento: palavra ou expressão a que se transmite imediata ou mediatamente a ação do verbo de

V) Processo comportamental: relacionado ao comportamento como o próprio nome diz

3.3. Sintagmas preposicionados complementos e adjuntos: nossa conceituação

O conflito entre complementos e adjuntos do verbo tem permanecido nas gramáticas de nível médio por meio de uma série de fatores semânticos e sintáticos que “facilitam” o reconhecimento desses termos. O que ocorre, então, é que inúmeros usuários da língua absorvem essas indicações apenas como listas de macetes para aprovação em avaliações e concursos. Essa dicotomia, porém, colabora para a uma análise reduzida da questão, pois o aluno não reconhece a exploração de recursos sintáticos como fator de entendimento das diversas produções textuais. No capítulo 1, vimos como vários autores procuraram discutir o binômio “complemento” e “adjunto” e, dentre propostas e alternativas variadas, podemos afirmar que os ensinamentos deles se pautaram em alguns critérios semânticos e sintáticos.

No afã de contribuir com o estudo da complementação e adjunção verbal, esses autores priorizavam ou o critério semântico ou o sintático, ou ainda combatiam um deles, ou se valiam da morfossintaxe, sobretudo, após a incursão direta da Lingüística na descrição gramatical do Português.

Selecionamos alguns fatores que têm sido ora seguidos, ora condenados, ora relidos no estudo da adjunção e da complementação, para que, em conjunto com o que foi apresentado neste capítulo, possamos expor nossa própria conceituação.

1) Objeto indireto “necessário”; adjunto, “dispensável”. Preposição de OI esvaziada de sentido; de ADV, carregada de sentido.

Já mencionamos, no capítulo 1, o conceito de complemento, nos termos de Azeredo (2004). Lembremos que esse conceito não era restrito ao que o autor considerava apenas como complemento. Constitui a nossa concordância em relação ao processo de “completar”

e o complemento, o termo que realiza essa “tarefa”:

O complemento é um termo que pode ser admitido, porém não exigido pelo léxico verbal; são as condições pragmáticas e textuais que motivam ou não a ocorrência deles.

Bechara (1999) apresenta a noção de termos “argumentais” X “não-argumentais” de forma similar a essa orientação, assemelhando os “argumentais” aos complementos e os

“não-argumentais” aos adjuntos. Os argumentos, no entanto, podem ou não compor o predicado e o que dita essa presença ou ausência são fatores textuais como conhecimento de mundo, menções anteriores e retomadas. Assim, podem os complementos ser admitidos ou não, dependendo de fatores discursivo-pragmáticos.

Mas essa questão nos remete também à teoria da gramática de valências, em seu desdobramento sintático. O fato de se admitir argumentos está diretamente associado ao preenchimento de lugares vazios e à determinação da natureza sintática de actantes e dos tipos de verbos. Sendo assim, por julgar mais adequada, em virtude do reconhecimento de fatores comunicativos nesta análise, tomamos a teoria da gramática de valências, em que consideraremos os elementos “actantes” e “circunstantes” para a determinação do que é para nós complementos e ou adjunto.

Consideramos aqui o verbo como elemento central da construção de frases e essa como elemento de base para a produção de textos. Como os elementos das frases não as formam desordenadamente, verificamos que a unidade menor que a constitui é o sintagma, constituinte binário, formado de núcleo e dos variados tipos de determinantes. Na análise de complementos e adjuntos, como já afirmamos, é uma natureza específica de sintagma- o preposicionado- que “anula” a distinção entre verbos transitivos indiretos e intransitivos, já

que a marca preposicional deixa de ser um indicativo de diferenças (não há mais a questão da “ausência” versus “presença” para indicar se é objeto indireto ou adjunto adverbial).

Como, nos casos dos Spreps, a distinção passa a ser meramente semântica (e os livros trabalham muitas vezes sem adequada exploração dos textos, misturando critérios para tratar da distinção pela distinção) agrava-se o reconhecimento desses termos e das funções que eles desempenham.

Assim, não consideraremos mais esses sintagmas “acessórios” ou “integrantes”,

“necessários” ou “dispensáveis” mas sim, actantes:

• Os elementos previstos de ocorrência apenas pelo léxico verbal;

• Os elementos previstos de ocorrência pelo léxico verbal e pelas indicações do texto;

circunstantes:

• Elementos não previstos pelo léxico, mas admitidos pelo texto, que adicionam informações ao conteúdo geral da comunicação.

Os actantes co-ocorrem para que, junto ao verbo, possam formar o sentido da frase em coerência com tema textual, enquanto que os circunstantes atuam diretamente em frases e não se associam à semântica do verbo, apenas atualizam o conteúdo geral da frase. Os tradicionais complementos e adjuntos, sob forma preposicionada, não devem ser funções separadas, atendem como actantes. Consideramo-los juntos, sob essa nomenclatura, tendo em vista que:

a) A formação de um modelo frásico no qual os actantes determinam os grupos de verbos considera os aspectos semânticos referentes não só ao léxico verbal, mas também às condições de uso. Nesse sentido, incorporamos aqui a importância de se tomar os ensinamentos funcionalistas, a respeito de que a estrutura da língua depende do uso que se faz dela. Assim, em uma situação como “Colocou a comida no prato”, já mencionada no capítulo I, em que a tradição, pelo indicativo da circunstância de lugar, indicaria a presença de “adjunto adverbial”, para nós, estamos diante de um actante, por estar completamente previsto em relação à noção léxico-contexto, como um sintagma possível de preenchimento de um lugar do verbo.

b) A necessidade de se analisar o sujeito como um componente de igual importância na construção da frase, já que os actantes preenchem os locais mediante uma

relação entre os significados que esses recebem do sujeito na realização do processo verbal.

Assim, não há só o sentido do complemento ou do adjunto em relação ao verbo, mas o sentido ou os sentidos, desses actantes por influência do sujeito, como construção do processo verbal.

c) A distinção entre actantes e circunstantes não é feita apenas pelos conteúdos semânticos deles. Devemos, inclusive, saber que a noção de valência é sintática e semântica, apresentando aprofundamento de ambas as orientações. Valorizamos os critérios sintáticos de posição, da marca (preposição ou não), da pronominalização e da interrogação. Lembremos que, sobretudo os autores de influência estruturalista, referidos em nosso primeiro capítulo, como Perini e Macambira, já apontavam para a importância desses critérios, mas reconhecemos somente esses selecionados (e não todos os apontados por Perini) por dois motivos:

• Por julgarmos os pronomes, a posição e a substituição pronominal mecanismos que podem nos ser úteis em nível textual, no que diz respeito aos processos de coesão referencial e de progressão textual, bem como a informatividade e aceitabilidade no processo comunicativo eficiente.

• Porque os critérios referidos nos permitem fazer uma ligação entre aspectos semântico-lexicais e pragmáticos, de forma que possamos, para fins de análise, igualar os aspectos semânticos e formais ao mesmo patamar de importância. Voltaremos a essa questão após a apresentação dos recursos gramaticais de coesão textual (retomada, antecipação e substituição).

Sendo assim, consideraremos uma classe, a de actantes, em que serão igualadas as funções de objeto indireto e de adjunto adverbial. Porém essa classe apresentará duas segmentações:

I) Actantes preposicionados previsíveis pelo léxico. (APL)

II) Actantes preposicionados previsíveis pela relação “léxico-contexto”. (APLC)

Em I, o que temos é uma preposição que faz parte do núcleo verbal que atua, portanto, como extensão do seu léxico. Mas há casos em que a preposição não é selecionada pelo verbo, mas sim pelo núcleo nominal posterior a ela. Concordamos com Azeredo, em relação à determinação dessa preposição como transpositor, já que ela forma um sintagma,

o sintagma preposicionado, de funções gramaticais distintas, quando acrescenta sentidos ao núcleo nominal ao qual se liga:

Tanto quanto as demais espécies de conectivos, as preposições contribuem de forma mais ou menos relevante para o significado das construções de que participam. Essa maior ou menor relevância está relacionada aos graus de liberdade do enunciador na seleção da preposição. Em muitos casos, a preposição não é escolhida pelo que significa, mas imposta ao usuário da língua pelo contexto sintático; isto é, ela é selecionada pela palavra que a precede, seja um verbo, um substantivo, um adjetivo ou um advérbio. (Dependo de você, concordo com você, refiro-me a você, confiante em mais uma vitória, derrotado por um adversário). Diversa é a situação da preposição em Viajou sem destino, viajou com a família, viajou para o nordeste, viajou pelo litoral, viajou entre os meses de abril e junho, morava na roça (...)

No primeiro conjunto, a preposição enfraquecida ou mesmo esvaziada de sentido próprio, faz parte do núcleo verbal, e o sintagma que se segue funciona como complemento (relativo [o chamado objeto indireto] e o nominal) desse núcleo; no segundo, ela forma com a unidade seguinte um sintagma preposicional de função adverbial ou adjetiva, além de se destacar, por ser uma escolha entre outras, pelo significado que acrescenta à construção.”

(AZEREDO, 2000: 144)

Em II, a preposição forma um conjunto com o núcleo nominal ao qual se liga, logo ela é dotada de sentido. Por isso, em II, formamos um sintagma preposicionado, cuja preposição pode assumir variados valores semânticos. Em I, consideramos como

“preposições” extensoras do léxico: “a, para, de, com, em”.