consegui-ram carregar, conciliar. Quando não deu para conciliar entre o
estudo e o trabalho, fizeram a opção pelo trabalho. Esse meu
ir-mão que terminou o primeiro grau, eu sinto que ele tinha uma
vontade muito grande com relação ao estudo. Mas ele não tinha
força de vontade suficiente, também, para conciliar essas duas
coisas. Aí, na hora de fazer a opção, ele fez a opção pelo trabalho.
E: E eles trabalhavam em quê? Junto com seu pai?
P: Não, não. A questão do trabalho deles aconteceu do
se-guinte modo: havia um projeto, eu não sei exatamente de que
entidade social, chamado “Patrulheirismo”, patrulheiros. Eles
pegavam jovens de 14 a 18 anos e iam inserindo esses meninos
no mercado de trabalho. Como não incluíam mais de um jovem
de cada família, meus irmãos entraram gradativamente no
proje-to quando o imediatamente mais velho completava o tempo no
projeto. Ao sair o meu ir mão mais velho trabalhou como
entregador de jornal, como servente e em uma série de outras
atividades.
Cor e Magistério
E: E sua irmã, o que ela faz?
P: Ela desde criança dizia querer fazer Direito, mas tentou
três vezes na universidade pública e não conseguiu. Agora ela
está fazendo Direito em uma universidade particular.
E: Fala um pouco mais sobre a faculdade e sobre a época
que você começou a trabalhar. Você foi fazendo faculdade,
de-pois foi trabalhar quando?
P: No segundo ano da faculdade as coisas estavam muito
difíceis em casa e eu precisava trabalhar. Em 1985 eu terminei os
estudos adicionais, havia os gastos com a faculdade e para a
famí-lia estava muito difícil manter tudo isso. Então eu comecei a
trabalhar em uma escola municipal lá na comunidade onde eu
moro em um projeto que estava iniciando a convite da diretora
que ouviu os comentários sobre o meu trabalho na igreja. Era
uma espécie de colônia de férias para os meninos da
comunida-de, só que a intenção era prolongar essa colônia durante o ano
inteiro. O objetivo era ocupar os meninos de sete a 14 anos, no
horário que eles não estivessem estudando. Eram basicamente
atividades de lazer. Isso daí rendia, no final do mês, um salário
mínimo. Foi a minha primeira inserção no mercado de trabalho.
Pouco tempo depois o município estava contratando professores,
não havia concurso. Então... o vereador indicava, questão do
clientelismo mesmo, mas eu não tinha nenhum vereador para
in-dicar o meu nome e então eu não consegui ingressar como
professora contratada da rede. Nesse momento eu estava
pen-sando em deixar esse projeto porque o dinheiro não saía
regularmente. Às vezes a gente tinha que ficar esperando,
passa-va muito do prazo para receber, e eu já estapassa-va desanimando.
Nesse período, a diretora chegou e disse-me: “Vera, como
profes-sora, eu não tenho como resolver o seu caso porque teria que ser
através de político e eu não teria como manter você aqui. Mas
está havendo um outro projeto da Fundação Educar, que está
ESPAÇO DOCENTE, REPRESENTAÇÕES E TRAJETÓRIAS
1 2 7
acontecendo, este projeto contrata monitores para a educação
infantil. E nesse eu já consegui encaixar você... que é de
contratação de monitores para trabalhar com educação infantil,
com pré-escolar. O salário é de... é um salário mínimo como
monitora, não é professora, não tem os mesmos direitos, mas se
você quiser, já que você não está trabalhando, eu posso te
encai-xar.” Fui incluída nesse projeto e fiquei trabalhando lá de 1986 a
1989, quando houve concurso público para o município e eu fiz.
Na universidade comecei a ter interesse por algumas
ativi-dades como monitoria, cujo salário era atraente para mim. Fiz
concurso para monitoria de Métodos e Técnicas de Pesquisa que
me garantia exatamente o que eu ganhava no município. Passei
em primeiro lugar e comecei a atuar como monitora em 1989.
No mesmo ano eu fui convidada para participar de uma bolsa,
ganhei – não sei se a gente ganha, se a gente conquista, como é
que é isso, mas eu tive também uma bolsa de iniciação científica
do CNPq, que em termos salariais... Nossa! Compensava deixar
tudo e realmente... e me envolver nesse trabalho de pesquisa. Eu
deixei, pedi exoneração da função que eu estava desempenhando
no município e fiquei exclusivamente voltada para a
universida-de, com a monitoria e com a bolsa de iniciação científica do
CNPq. Só que essa bolsa, evidentemente, tem um período como
também a monitoria tinha um prazo de um ano; eu poderia fazer
a prova novamente e continuar, mas eu não poderia conciliar a
monitoria com a pesquisa porque eu teria que fazer trabalho de
campo e não teria condições, eu ainda consegui conciliar durante
um período de um semestre, mas depois não deu mais. No ano
seguinte eu não fiz a prova para monitoria, mas eu continuei
engajada na pesquisa em 1990. Neste ano, fui chamada pelo
con-curso que fiz para o município e voltei como professora
concursada, de uma forma mais legítima eu diria. Nesse ano eu
concluí em agosto o trabalho de pesquisa.
Cor e Magistério
E: E no estado?
P: Olha, eu fiz... eu tentei uma prova para o estado, foi
quando? Foi em 86. Logo depois que eu terminei o adicional, fui
classificada, mas não fui chamada.. Este município é difícil, tem
muita procura e eu pensei em fazer concurso para outro lugar.
E: Então você trabalha no estado?
P: Em 90, eu voltei a trabalhar no município, já era
concursada, fui para escola, já tinha terminado a faculdade, a
segunda habilitação também, porque eu fiz primeiro magistério e
depois eu fiz supervisão. Então, em 90, o meu vínculo com a
universidade já tinha acabado. A única coisa que ainda restava
era um tempo que eu precisava cumprir, nos trabalhos de
pesqui-sa, de fechamento de relatório, mas fora isso o vínculo tinha sido
concluído. Em 91 houve o concurso para... houve o concurso do
estado para professor de nível médio. E no caso abriram vagas
para professor de matérias pedagógicas, coisa que não acontecia
eu acho que há mais de 10 anos, para essa disciplina específica.
Fiz para o município O, passei em segundo lugar, trabalhei lá
durante sete anos.
E: E na escola municipal?
P: Porque foi assim. Na escola municipal eu fiquei pouco
tempo em sala de aula e fui para a coordenação, e pude organizar
meu horário, de tal forma, que desse para eu ir para o município
O e cumprir as minhas funções com vínculo municipal.
E: E hoje como você está?
P: Hoje eu trouxe a minha matrícula de lá, no ano passado,
por remanejamento; para o Instituto de Educação do município P
que é próximo daqui. Eu estou trabalhando há um ano, fez um
ano agora em fevereiro, no Instituto de Educação e há três anos
atrás eu deixei a minha matricula de professor de 1ª a 4ª séries
porque eu tinha feito concurso para supervisão, foi o primeiro
concurso de supervisão que houve no município...
ESPAÇO DOCENTE, REPRESENTAÇÕES E TRAJETÓRIAS
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E: No Instituto de Educação você dá aula?
P: Lá eu dou aula. Eu sou professora.
E: Você gosta mais de dar aula ou da supervisão?
P: Eu gosto mais de dar aula. Com certeza. Eu gosto mais
de dar aula.
E: Lá você dá o quê?
P: Lá eu trabalho com Didática e com Sociologia da
Edu-cação. Com Fundamentos Sociológicos.
E: Você está gostando da escola?
P: Gosto demais. Eu gosto, quer dizer, da escola em si,
tenho uma série de reser vas. Umas coisas que a gente
definitivamente não concorda, mas do trabalho de sala de aula,
realmente, esse ano está completando oito anos que eu trabalho,
nove anos que eu estou trabalhando no curso Normal e é o que
eu gosto de fazer.
P: Lá você dá aula para o curso Normal?
R: Eu dou aula no curso Normal.
P: E você não tem vontade de trazer para o Instituto de
Educação mais perto de casa?
P: Exatamente o fato de ser perto de casa, para mim é um
grande problema. Porque eu sou uma pessoa que pelo meu
traba-lho, dentro da comunidade, todos me conhecem. “A Vera da
Igreja”, “a Vera filha da dona Eugênia”. Então para mim seria um
problema porque o Instituto de Educação está muito perto de
casa e toda a comunidade estuda ali dentro. Iam confundir as
coisas, seria um problema. A questão de vagas. A comunidade lá
procura demais vaga no Instituto de Educação, iam ficar
solici-tando: “Ah, Vera, dá um jeitinho pro meu filho”, “ah, você me
conhece, eu te conheço, te carreguei no colo. Então faz isso pro
filho da Fulana”... Ia ser muito complicado. Eu acho que num
de-terminado momento temos que tentar preservar a nossa história,
Cor e Magistério
dessas relações que se vão construindo ao longo da vida. E eu
No documento
Iolanda de Oliveira (Organizadora) Cor e Magistério
(páginas 125-130)