O sintoma pode ser tido como uma das “imagens através das quais a experiência se apresenta”. Se transportarmos isso à análise, porque, afinal, é daí que toda essa rede de
teorias se alçou, os psicanalistas certamente se interessariam unicamente por aquele lugar onde a linguagem tropeça. Onde a fala vacila, o gozo mostra sua face. Nos momentos em que somos ultrapassados pelo dito, surge o gozo. O sintoma é um “mal-estar que se impõe a nós, além de nós, e nos interpela” (NASIO, 1993, p. 13). Um mal-estar que necessariamente nos reconduz à estrutura do inconsciente, ou seja, à sua face significante, portanto, à face da linguagem. Então, pode se pensar que o sofrimento é “um acontecimento dentre outros que lhe estão rigorosamente ligados, um acontecimento que, ao contrário do signo, não tem sentido”. É necessário retomar aqui um fio que foi lançado nas primeiras páginas do capítulo 4:
A ordem do significado é efeito da cadeia do significante e, justamente por isto, é na cadeia do significante que o sentido insiste. A significação não está, portanto, em nenhum elemento particular da cadeia. O deslizamento incessante do significado sob o significante, por ação do inconsciente, não quer dizer que não haja a prevalência de um sentido em jogo. Lacan faz questão de pontuar que seria um erro "pensar que a significação reina irrestritamente para-além. Pois o significante, por sua natureza, sempre se antecipa ao sentido, desdobrando como que adiante dele sua dimensão" (LACAN, 1998, p. 505). É precisamente no significável que se engendra a paixão pelo significado. A fascinação por certas metáforas cristaliza o sentido, emperrando o deslocamento (Verschiebung) metonímico dos significantes na cadeia. Do congelamento do significante nasce não só a paixão pelo sentido que, inevitavelmente, surge sob a forma de um bem como ideal, mas também o aprisionamento do sujeito ao gozo retirado desse sentido cristalizado, obstaculizando o processo de significação e a posição do sujeito em relação ao desejo. (FERREIRA, 2002, p. 1)
O sintoma se traduz como um compromisso entre um desejo e sua realização. Assim ele tem um sentido a ser revelado pela interpretação, ponte de construções intersubjetivas que devem permitir a significação do sintoma ou a re-significação do material que se faz causa dele. A intenção do sintoma reside no sentido que acaba revelando dos traços singulares ao particular de cada sujeito. Se pensarmos na dimensão simbólica, a da cadeia significante, o sintoma é mensagem que se sustenta num sentido recalcado a ser decifrado/interpretado. Ora, pelos mecanismos de condensação e deslocamento vistos a partir da dinâmica operacional dos sonhos, o sintoma tornou-se uma satisfação substituta de uma série de fantasias e recordações de experiências traumáticas. O “sem sentido” se apresenta porque há um significante de um significado (signo) recalcado. A cadeia significante -- como vimos com Lacan a partir de sua máxima de que o inconsciente se estrutura como linguagem - - precisará se articular para decifrar o sintoma, ou seja, fazer deslizar e desdobrar os significantes recalcados que a ele estão ligados.
Ora, como se sabe, o significante é uma categoria formal, que, no caso do sintoma, pode ser revelado pelos lapsos, sonhos, chistes e outros, cujas manifestações podem ser “legitimamente qualificadas de acontecimentos significantes”. Se pensarmos na realidade individual do sintoma, eles nunca se repetem idênticos a eles mesmos, mas do ponto de vista formal e significante, eles são idênticos, justamente porque aparecem, “um por um, no lugar do Um”. O que isso quer dizer? Que todos os acontecimentos que ocupam o lugar do Um se repetem, idênticos, independentes da sua realidade material (ibid., 12-19). Cumpre aqui entrarmos na notação lacaniana a fim de entendermos mais à frente, o que, desde o início deste nosso trabalho, estamos buscando persistentemente, a saber: o que é mais propriamente esse real que se faz cena.
Lacan nomeia o acontecimento significante por S1. O S é a notação da palavra significante e o número 1 revela, justamente, que se trata de um acontecimento único, por isso, dizíamos acima que o sintoma é sempre da ordem do 1. E é esse 1 que nos vem como surpreendente imprevisto, ou seja, nos informa sobre fatos ignorados da nossa própria história e, depois, vai se repetindo como outro Um e assim por diante. E aqui, com Nasio (ibid., p. 20), entende-se melhor o significante em sua trama na cadeia significante, por exemplo, por meio do chiste. O chiste nada mais é do que dizer algo sem saber, “mas com tamanho senso de oportunidade e tamanha exatidão, que todos riem”.
Segundo Dunker (2002, p. 31-34), Freud analisa o chiste como um processo social e sua propagação. Ele nos proporciona uma satisfação manifestada pelo riso acompanhado por uma sensação de relaxamento corporal. Ainda que proporcione satisfação, é inegável a ineficácia de um chiste de se conter a si mesmo e “reaproveitar a graça do instante inicial”. Por isso, é necessário se contar esse chiste a uma outra pessoa a fim de recuperar aquele prazer evocado na primeira vez. Para o autor, uma série de propriedades da concepção de Lacan referente ao gozo comparece nessa observação do chiste. Através da repetição, o gozo vai se apresentando e, pela repetição, algo que fora perdido é retomado, “mas nessa retomada preserva-se apenas um parco simulacro da experiência que a repetição visa reconstituir”. Sem a mediação da linguagem, o gozo não pode ser denunciado.
O chiste revela o como e o quanto de gozo tem passagem e o quanto não tem, ou seja, o quanto deverá permanecer sob recalque. Se pensarmos no chiste aqui, na matriz linguística, ele é constituído por uma perda inaugural, tanto é que ele deve se “reciclar” para um Outro, pois “não se pode contar o chiste para si mesmo..., nem recuperar a surpresa e desconcerto que ele evoca com suas relações inusitadas”. Mas essa perda produz “mítica e retrospectivamente” um retorno ao momento original quando não se mostraria perdido. Dessa
forma, as trocas ou a própria distribuição da libido serão responsáveis pela representação da experiência de totalidade no tempo passado ou futuro.
A partir disso, pode-se pensar a dança como o caminho para a repetição de um passo, de um retorno, permitindo que o objeto do desejo vá e volte como causa. Quer dizer, a dança como responsável por encenar a alternância da repetição e do desejo, repetição que nos leva a engatar o próximo passo, embriagando a cadência no desejo. E nesse desencontro com o Outro, a face do duende se faria presença? Caminhemos passo a passo, de volta ao gozo.
Ainda segundo Dunker (ibid., p. 36-37), o gozo possui um duplo caráter, ou seja, ligado ao significante e ao valor que “receberá sua solução em Lacan, através do desenvolvimento do conceito de falo”.
O valor exprime assim a tensão entre a identidade e a diferença. Ele se determina linguisticamente pela relação que um significante possui com os outros significantes com os quais pode ser comparado, mas também pela troca que este significante permite em relação a outros significantes, o que determina a sua significação. Por exemplo, a palavra portuguesa angústia ou francesa angoise pode ter a mesma significação que o alemão Angst, mas não o mesmo valor, isso por várias razões, em particular porque, por exemplo, ao falar da sensação produzida por um animal ameaçador, o alemão dirá Angst e o brasileiro medo. Isso ocorre porque na comparação entre termos como ansiedade e medo em português, sem correlato direto com o seu valor em alemão. Ou seja, a palavra pode ser trocada por uma significação aproximada, mas não possui, comparativamente, o mesmo valor. (DUNKER, 2002, p. 37)
O conceito de valor foi utilizado na linguística por Saussure, como diferença, negatividade que indica os limites entre um significante e outro. Nasio (1993, p. 21) afirma que um significante se repete idêntico a um outro, pois há sempre um acontecimento que vem ocupar a casa formal do Um, enquanto outros acontecimentos, ausentes e virtuais ficam aguardando o seu lugar na casa do Um. O Um é lido como o acontecimento efetivamente ocorrido, e os outros acontecimentos, na espera do “trono” do Um, aguardam, tanto os passados quanto os que estão por vir, a casa do Um.
O inconsciente é uma trama tecida pelo trabalho da repetição significante, ou, mais exatamente, o inconsciente é uma cadeia virtual de acontecimentos ou “dizeres” que sabe atualizar-se num “dito” oportuno, que o sujeito diz sem saber o que está dizendo.
O inconsciente é uma linguagem que liga os parceiros da análise: a linguagem liga, enquanto o corpo separa; o inconsciente ata, ao passo que o gozo afasta. (ibid., p. 23)
Se, para o eu, o sintoma vem à superfície como vestal da dor, para o inconsciente, por sua vez, significa desfrutar de uma certa satisfação. É essa morada apaziguadora
inconsciente do sintoma que podemos tomar como uma das imagens principais do gozo. O gozo seria uma satisfação inconsciente? Sim, mas isso seria simplório. Para não ficarmos na superfície, é preciso caminhar com Nasio (1993) e Dunker (2002) a fim de entendermos a teoria do gozo proposta por Lacan, teoria complexa que irá distinguir três modos de gozar que serão imperiosos para as articulações a serem desenvolvidas no capítulo 6.
A palavra gozo evoca espontaneamente em nós a ideia de volúpia. Mas, como frequentemente acontece, uma palavra do vocabulário analítico fica tão marcada por seu sentido habitual que o trabalho de elaboração do teórico, muitas vezes, reduz-se a desvincular a acepção analítica da acepção comum. Esse é exatamente o trabalho que deveremos efetuar, aqui, com a palavra “gozo”, separando-a nitidamente da ideia de orgasmo. (NASIO, 1993, p. 25)
Lembramos que Freud já dizia que o ser humano é “perpassado pela aspiração” latente e nunca realizável de atingir um objetivo impossível, que é aquele da felicidade absoluta. Essa felicidade se reveste de diferentes roupagens, dentre elas a de um “hipotético prazer sexual absoluto”, vivenciado no incesto. Essa aspiração a que chamamos desejo, esse ímpeto nascido pelas zonas erógenas corporais, gera uma tensão psíquica, “uma tensão tão mais exacerbada quanto mais o ímpeto do desejo é refreado pelo dique do recalcamento”. Quanto mais austero o recalcamento, mais o aumento de tensão se faz. Frente a esse implacável muro chamado recalcamento, o desejo se articula de maneira simultânea para duas vias opostas. A via da descarga (energia que se dissipa) e a via da retenção (energia que se conserva e se acumula como uma energia residual).
Sendo assim, uma parte da energia atravessará o muro do recalcamento, descarregando-se ao exterior, “sob a forma do dispêndio energético que acompanha cada uma das manifestações do inconsciente (sonho, lapso ou sintoma)”. É essa descarga, incompleta que nos proporciona certo alívio; a outra, confina-se no interior do sistema psíquico, superexcitando as zonas erógenas, superativando assim o nível da tensão interna. E uma terceira possibilidade, tão hipotética quanto real, a saber, a descarga total de energia, ou seja, o prazer sexual absoluto, aquele da ordem do impossível para que o desejo se faça possível. (NASIO, 1993, p. 26). Pensando com esse autor (ibid., p. 29), os três destinos apontados pelos caminhos da energia psíquica corresponderiam ao que Lacan designou pelo termo de gozo, em seus três estados de gozar. Teríamos na correspondência:
1. O gozo fálico como a energia que se dissipa durante a descarga parcial, tendo como efeito um alívio relativo, sempre incompleto na leitura
inconsciente. Gozo fálico porque o limite que abre e fecha o acesso à descarga energética é determinada pelo falo, se preferirem uma leitura freudiana, o recalcamento. O falo (barreira/muro) regulará a parcela do gozo que vazará e a que permanecerá dentro do sistema inconsciente. É nesse vazar que os acontecimentos inesperados, palavras, fantasias e o sintoma darão as suas caras.
2. O mais-gozar é a energia (gozo) que permanecerá retido no interior do sistema psíquico, cuja saída, de maneira um pouco grosseira, é impedida pelo muro freudiano ou pelo falo lacaniano. O advérbio “mais” indica essa energia não descarregada e, seu excedente o responsável pela constante tensão da intensidade interna.
3. O gozo do Outro, estado tão almejado na mesma medida em que se faz hipotético, corresponderia à situação perfeita, em que a tensão fosse totalmente descarregada, sem o entrave do muro-falo, ou seja, sem limite algum. Esse é gozo complicador, na medida em que o sujeito supõe no Outro, sendo o próprio Outro, igualmente, um ser suposto.
Um parêntese relativo a esse último tópico se faz necessário, visto que, de alguma maneira, o gozo do Outro acaba nos remetendo à questão da constituição subjetiva, cujo olhar/toque/voz se fazem protagonistas da cena. Lembramos que, como afirmou Queiroz (2007), qualquer que seja a resposta lançada do Outro à criança será sempre um desmentido da realidade do desejo do Outro.
Dunker (2002, p. 38) diz que, através do conceito de falo, a teoria do valor, explicitada acima, assumiu uma importância mais clara. “Se o falo não é o pênis é porque o falo é o valor atribuído ao pênis”. O falo é capaz de introduzir o sujeito no problema da diferença sexual, pois ele vai coordenando as trocas necessárias ao desejo junto ao valor de gozo, efeito dessas trocas. Gradativamente, Lacan foi aprimorando o conceito de gozo, que não apresenta mais tantas saídas através de operadores puramente linguísticos, e o falo, por sua vez, foi se limitando. O que quer dizer esse limite? Que o falo passará a ser pensado como uma função, a função fálica, por assim dizer. Se o falo toma o lugar de função, o gozo ganha força e forma para ser inscrito. E dessa combinação teremos o gozo fálico. Construção importante para delimitarmos, mesmo que ainda de maneira crua a relação do corpo dançante em cena a um gozo fálico que ali se faz gesto.
Assim, na teoria lacaniana, o falo não vem como uma nomeação do órgão genital masculino. Nasio (1993, p. 31) afirma que “é o nome de um significante muito particular,
diferente de todos os outros significantes, que tem por função significar tudo o que depende, de perto ou de longe, da dimensão do sexual”. Ainda que o gozo não tenha significantes que o representem, o falo se responsabiliza em delimitar o trajeto do gozo. O falo marca e significa cada uma das etapas que o gozo percorre. “Ele marca a origem do gozo, materializa pelos orifícios erógenos, marca o obstáculo com que se depara o gozo (recalcamento), marca ainda as exteriorizações do gozo, sob a forma do sintoma...”.
Para Dunker (ibid., p. 42), Lacan mostrará que “o gozo é algo que se imagina e se antecipa como realizado no Outro”. Para além de uma satisfação vivida na experiência sexual, a pergunta de como tal experiência foi para o outro é sempre crucial. Crucial porque nessa satisfação, como já vimos desde o infans, acaba-se por calcular a inclusão ou a exclusão da satisfação do outro nesse container. E nesse movimento, a noção de gozo se faz por um “ultrapassamento, um acréscimo, na realização da pulsão”. Haja vista, como vimos frisando, que aquilo que retorna do Outro, o materno primordial da linguagem, sempre portará a marca da insatisfação ou da parcialidade.
... o gozo é uma espécie de anomalia da experiência de prazer. O gozo se caracteriza pela intensidade excessiva (além da satisfação), de duração repetitiva, com uma certeza antecipada (imaginariamente eternizável).
Além disso, ele está a meio caminho entre uma grandeza positiva (prazer) e negativa (dor). Se o gozo constitui uma anomalia do prazer conclui-se que ele aparecerá também como uma anomalia no cálculo do prazer. (DUNKER, ibid., p, 48-49)
Não podemos pensar o gozo como não inscrito no cálculo do prazer. Ai está ele sim, mas como anomalia no sistema. O gozo investe na suposição de uma completude atribuída ao Outro. A administração feita pelo gozo ou o cálculo do gozo, segundo Dunker (ibid.), trará consigo sempre a imagem da completude e, se estamos presos na imaginarização da totalidade, retomamos a dinâmica com o Outro cravado na alienação, no fazer-se objeto do gozo do Outro (terceiro momento do circuito pulsional, marcado por Lasnik (2013), discutido mais acima). O gozo aqui implicará de certa forma, a submissão, o assujeitamento do outro ou a mestria de um corpo dócil, pensando na cena, neste momento. Mas o gozo aqui não nos remeteria à pulsão de morte, assim, a uma certa destrutividade? Entendemos que falamos de algo que extrapola o prazer, e, assim seríamos levados ao sadismo em Freud.
Dunker (ibid., p. 80-81), aponta algo importantíssimo com relação à posição do corpo no gozo. Se voltarmos para Freud, a finalidade da pulsão é sempre o prazer. “O prazer dependerá de uma região no corpo que recolhe o circuito pulsional, as zonas erógenas”. Os objetos visarão à sua utilidade no circuito pulsional. Existe assim o valor que algo assume quando pode ser reduzido, incorporado ou utilizado na esfera do corpo. Não estamos aqui
falando do corpo biológico, mas sim do corpo fantasmático. “É para este regime corporal que o prazer assume valor como realização imaginária”. As fantasias, para Freud, sustentam o sintoma, segundo Dunker. Já Lacan nomeou de fantasma o articulador central dessas fantasias inconscientes. É, portanto, ao fantasma que as formações parciais de gozo são remetidas, apresentando-se em sintomas específicos.
Assim sendo, o elemento, que organiza a sexualidade humana, não é propriamente o órgão genital masculino, mas a construção da sua representação com base nessa parte anatômica masculina. O falo vai, de alguma maneira, orquestrando a evolução da vida sexual infantil e adulta conforme esse pênis imaginário, esse que se refere à ordem da representação psíquica. Lacan, como já foi mencionado, sistematizou a dialética do jogo presença/ausência em torno do falo através dos conceitos de falta e significante (NASIO, 1997 p. 33). Por isso, as satisfações serão sempre parciais e, no campo da insatisfação, toca a vida do gozo incestuoso. O significante fálico se apresenta como o limite que separa o mundo da sexualidade, de saída, insatisfeita, do mundo “imaginário” e, portanto, suposto de um gozo absoluto, esse marcado pela hipotética completude. A castração, conceito que se tornou uma fala corriqueira do senso comum, não se define somente pela formulação freudiana da ameaça provocadora da angústia no menino, nem tampouco, pela constatação de uma falta na origem da inveja do pênis na menina. Ela concerne, fundamentalmente, a separação entre a mãe e a criança.
A mãe coloca o filho no lugar de falo imaginário e, ele, receptivamente, identifica-se com esse lugar, colocando-se à disposição no preenchimento desse desejo materno. A criança se encaixa na parte faltosa do desejo insatisfeito do Outro materno, consolidando, imaginariamente, a mãe como possuidora do falo e o filho como quem acredita sê-lo. Nesse engodo do ter e ser, o pai, agente responsável pelo corte, se é que podemos nomeá-lo assim, é o representante oficial da lei, e, portanto, da proibição daquele gozo absoluto que desembocaria no incesto. Só que há que se pensar que esse ato não é necessariamente “produto de uma pessoa física”, mas a operação simbólica da fala paterna. “O agente da castração é a efetuação, em todas as suas variações, dessa lei impessoal, estruturada como uma linguagem e completamente inconsciente” (ibid., p. 37). A castração é simbólica na medida mesma em que assujeita cada um à ordem simbólica na assunção de um limite ao gozo. Ainda que a castração seja simbólica, o objeto é imaginário. “Ela é a lei que rompe a ilusão de cada ser humano de se acreditar possuidor ou identificado com uma onipotência imaginária”. (ibid., p. 38)
Lacan não toma o gozo por uma entidade energética, na medida em que ele corresponde à definição física da energia como uma constante numérica: a energia não é uma substância, lembra Lacan, “é uma constante numérica que cabe ao físico descobrir em seus cálculos”; e, mais adiante: “qualquer físico sabe, claramente..., que a energia não é nada além da cifra de uma constância”. Exatamente por essa razão, o gozo”... não constitui energia, não pode inscrever-se como tal”. Como vemos, para Lacan, não sendo o gozo matematizável por uma combinação de cálculos, ele não pode ser energia. Não obstante, apesar do extremo rigor da posição lacaniana, fiz questão de apresentar e definir o gozo servindo-me da metáfora energética – tantas vezes empregada por Freud-, porque ela me parece a mais apropriada para dar conta do aspecto dinâmico e clínico do gozo. (ibid., p. 32)
Parece bastante ilustrativa e válida essa correlação realizada pelo autor, uma vez que podemos pensar que o trabalho inconsciente implica o gozo e o gozo, por sua vez, uma energia que se desprende (gozo fálico) no trabalho do inconsciente. Ainda que gozo do Outro seja a possibilidade de um gozo supremo, aquele que mata o desejo, tenhamos em mente que, mesmo assim, essas imagens excessivas e absolutas não deixam de ser “imagens fictícias, miragens enfeitiçadoras e enganosas que seguem alimentando o desejo”. Não é o “engodo que fascina e ilude os olhos da criança edipiana, levando-a a crer que o gozo absoluto existe e que seria experimentado numa relação sexual incestuosa igualmente possível”? Por conta disso, o