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1.8. Consequências do Abuso Sexual

1.8.2. Sintomas a Longo-Prazo

Everstine e Everstine (1989) mencionam como sintomas presentes em adultos que foram abusados sexualmente enquanto crianças a depressão, o comportamento autodestrutivo ou suicida, ansiedade, sentimentos de isolamento e alienação, autoconceito negativo, relacionamentos interpessoais debilitados, vulnerabilidade a revitimização, propensão para escolher companheiros abusivos, problemas de ajustamento sexual e/ou abuso sexual de álcool ou substância.

Browne e Finkelhor (1986) agrupam os efeitos a longo prazo em quatro categorias: reacções emocionais e auto-percepções, impacto nas relações interpessoais, efeitos na sexualidade e efeitos no funcionamento social. Nas reacções emocionais e auto- percepções, a depressão aparece como o sintoma mais comum. Pode verificar-se também comportamento auto-destrutivo, tentativa de suicídio, ansiedade ou tensão, pesadelos, dificuldades para adormecer, sentimentos de isolamento e alienação, baixa auto-estima, e

Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes auto conceito negativo. Mulheres vitimadas sexualmente em crianças podem revelar problemas no relacionamento com homens e mulheres, contínuos problemas com os pais e dificuldade em cuidar e responder aos seus filhos. Além disso, podem mostrar dificuldade em confiar nos outros, incluindo reacções de medo, hostilidade e sentimento de traição. Outro efeito é a aparente vulnerabilidade das mulheres em serem revitimizadas mais tarde. Quase todos os estudos clínicos mostram problemas sexuais tardios em crianças vítimas de abuso sexual, particularmente em vítimas de incesto. Estas mulheres podem ser mais ansiosas sexualmente, revelarem baixa auto-estima sexual, experienciarem culpa sexual, mostrarem elevada insatisfação nas suas relações sexuais com baixa frequência de orgasmos, terem dificuldades para relaxar e aproveitar a actividade sexual, evitarem o sexo, ou terem desejo compulsivo, serem promíscuas, terem um elevado número de parceiros sexuais. Mulheres vítimas de abuso sexual na infância têm também maior probabilidade de se prostituírem e abusarem de substâncias como álcool e drogas.

Vários estudos estabelecem uma relação entre abuso sexual infantil e determinados problemas posteriores, como problemas sexuais. Segundo Noguerol (1997) está provado que há maior possibilidade das vítimas sofrerem disfunções sexuais; dificuldade para relaxarem e para atingirem o orgasmo, promiscuidade, prostituição, exploração sexual. Jovens adultas abusadas sexualmente na infância mostraram intensas emoções negativas como desesperança, menos valia, vergonha, indefesa, culpa, ou ira, acompanhadas de dificuldade para lidar com estas emoções. Também pode acontecer perda de auto-estima, submissão e sentimento de inferioridade, assim como desequilíbrio nas relações que estabelecem em que tendem a ocupar uma posição de inferioridade, sentimentos de isolamento, estigmatização e marginalidade. Existe o medo e risco de se converterem em agressores. Os problemas de saúde mental também ocorrem, sendo a depressão a patologia mais claramente relacionada com os abusos sexuais de menores. Além disso, aparecem casos de neurose crónica de origem traumática, psicose, transtornos de personalidade múltipla ou transtornos dissociativos de personalidade. As ideias de suicídio, as tentativas e os suicídios consumados parecem ser mais prováveis nestes casos.

Knapp e Vandecreek (1997) referem que a correlação entre abuso sexual na infância e o aparecimento posterior de psicopatologia não prova que o abuso sexual tenha necessariamente causado psicopatologia. O abuso pode reflectir a falta de fronteiras adequadas entre pais e criança em várias situações, não apenas no comportamento sexual. É claro que durante períodos de depressão ou stress, os pacientes podem selectivamente

Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes como vítimas de abuso sexual na infância para explicarem os problemas actuais. Além disso, como menciona Noguerol (1997) existem algumas crianças, denominadas de assintomáticas, que podem viver o abuso sexual e não manifestar sinais de trauma. Não se deve concluir imediatamente que estas crianças não foram afectadas pelo abuso, deve-se investigar se os sintomas foram adiados ou se a criança foi controlada pelo ofensor, e em alguns casos pela família para não revelar sinais do seu stress.

Reflexão Pessoal

O abuso sexual constitui uma forma de maltrato que envolve actividade sexual entre a criança e o adulto, em que a criança é usada para estimulação (ex. conversa obscena ou escrito, espectáculo ou objecto pornográfico, fotografias) ou actividade sexual do adulto (ex. carícia, cópula, coito anal, coito oral) ou de outras pessoas, podendo ser do tipo intrafamiliar ou extrafamiliar.

Actualmente a sociedade ainda mostra dificuldade para reconhecer a vitimação das crianças e afastar-se do tabu criado à volta deste assunto, especialmente nos casos de incesto. Esta atitude condiciona fortemente a denúncia das vítimas e a consequente intervenção profissional. Deste modo é difícil quantificar de forma exacta a incidência e prevalência do abuso sexual durante a infância. Contudo, sabe-se que no nosso país no ano de 2003 foram detectados 3,3% de casos de abuso sexual numa amostra de 14256 crianças.

Numa atitude preventiva ou interventiva devem ser avaliados factores relacionados com a criança, o agressor, a família e a sociedade que determinam a maior ou menor vulnerabilidade das crianças ao abuso sexual. Hoje em dia ainda é difícil definir claramente o perfil do ofensor e da vítima em casos de abuso sexual. No entanto, há determinadas características que aparecem com frequência. Relativamente ao ofensor, este pode ter uma personalidade patológica ou normal. O seu comportamento abusador pode ser despoletado por vários factores externos ao sujeito, por uma história de maus-tratos na infância ou por existir expectativas excessivamente elevadas em relação à criança. No que concerne à vítima, observa-se muitas vezes um perfil familiar disfuncional e/ou com dificuldades. As características individuais das crianças, a existência de défices, doenças, adopção parecem contribuir para uma maior vulnerabilidade à vitimação. A síndrome do secretismo constitui um elemento essencial do abuso. Ele é imposto à criança, conferindo poder e controlo da situação ao agressor. Tendo em conta diferentes tipos de agressores, parece que as crianças

Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes são mais vulneráveis no encontro com familiares do que com estranhos. Por outro lado, crianças mais novas reagem com menor resistência aos agressores.

O abuso sexual pode trazer consequências a curto prazo (nos primeiros dois anos depois do abuso ter terminado) e a longo prazo (após os primeiros anos). A curto prazo, os sintomas podem estar relacionados com reacções emocionais e auto-percepções, consequências físicas e queixas somáticas, efeitos na sexualidade e efeitos no funcionamento social. A longo prazo as consequências podem-se manifestar a nível emocional e na auto-percepção, nas relações interpessoais, na sexualidade e no funcionamento social.

Enquadramento Paradigmático e Teórico