4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.7 Sintomas da Malária
Os sintomas da malária citados foram: febres emédios ntes, dor de cabeça, mal-estar, tremores, falta de apetite, choque nos pés, dor no corpo, dor nos ossos, sensação de que os ossos estão queimando, tonturas, dor nos olhos e lacrimejamento, sudorese, enjoo devido ao cheiro de qualquer coisa, boca amarga, fraqueza generalizada. Não houve discordância ou grande especificidade de sintomas variando de participante para participante.
Depois de se tomar o remédio os sintomas incluem coceira e enjoo. “Quando o bicho da malária tá morrendo é que dá essa coceira”. (Sra. L.).
“Essa coceira significa que o bicho da malária começou a morrer.”
A coceira é um efeito colateral do remédio e é interpretado como parte do processo de cura da doença.
“Na criança pequena já vai lagrimando, o olho fica muito
lacrimoso.” (Sra. Li).
“Quando a pessoa tá preparando ou ralando mandioca o doente
não pode ficar perto para não sentir o cheiro porque piora a dor de cabeça e a malária”
(Sra. M.).
Os sintomas de dor nos ossos e calor nos ossos foram descritos pelos participantes. Uma informação da matéria médica chinesa, referente aos sintomas para uso da qinghao (Artemisia annua) (base dos remédios atuais no combate a malária) chamou a atenção: guzheng significa “osso fumegante”. Segundo HSU (2006) os autores do artigo final do estudo da emédio médica chinesa à procura de emédios antimaláricos não consideraram os termos médicos chinenses “osso fumegante” (guzheng) e (fanre) “calor vexatório” (tradução minha do inglês), que são indicações para qinghao na matéria médica chinesa, para se referir a malária, mas apenas o termo médico chinês nüe, ou seja, febres intermitentes. O que pode exemplificar a importância de todos os sintomas relatados para a doença.
Depois de pegar malária uma vez alguns participantes disseram que “não se pega mais corpo”, não é fácil engordar ou ganhar músculos e há queda de cabelo, por bastante tempo sente-se mal em tomar caxiri, ou qualquer tipo de bebida alcólica.
Durante o trabalho de campo presenciei dois surtos de malária em diferentes comunidades. Um dos sintomas que observei, e que ocorreu frequentemente, foi a formação de bolhas na boca e gengiva, que praticamente impediam o doente de se alimentar. Esse sintoma não foi citado nehuma vez pelos participantes durante as entrevistas, foi apenas observado e citado durante o surto da doença.
Na comunidade de São Jorge o surto atingiu 12 pessoas. Incluindo adultos e crianças. A maior preocupação era com as mulheres grávidas. Um dos professores da comunidade que se contaminou com a malária e já apresentava os sintomas, estava muito preocupado porque sua esposa estava nos meses finais da gravidez. Mas ela ainda não havia se contaminado. Então procuraram naquele mesmo dia um mosquiteiro
para que a esposa pudesse se proteger. O relato de contaminação de mulheres grávidas é constante, principalmente na gravidez dos primeiros filhos.
“Eu tava grávida de 9 meses quando peguei a malária falciparum... no meio dessa doença que eu ganhei meu filho” Sra. L.
Os agentes de saúde do pólo-base responsáveis pelo atendimento à comunidade foram chamados pelo rádio e vieram dois dias depois. Fizeram as lâminas e levaram novamente ao polo base para análise e o resultado viria na noite seguinte ou dois dias depois.
Havíamos preparado durante minha estádia nesta comunidade vários remédios, de acordo com a citação dos participantes, e experimentamos todos. Um dos professores que estava com sintomas da malária ingeriu os preparados durante dois dias, sentiu-se melhor e os sintomas desapareceram, então ele parou de beber por mais dois dias e seus sintomas reapareceram e pioraram. Assim que os enfermeiros do pólo base chegaram ele foi tirar a lâmina de confirmação da malária e os enfermeiros negaram-se a fazer. Afirmaram que se ele havia ingerido remédio caseiro para tratar a malária a parasitemia teria baixado e o resultado daria falso negativo, e ele não poderia fazer a lâmina. Então, o doente deslocou-se até a cidade, sentido-se muito mal, para fazer a lâmina, que deu positivo.
Alguns sintomas da malária em Nheengatu:
E em Tukano:
Figura 18 - Sintomas da malária em Tukano.
Segundo a OMS, e o Ministério da Saúde (2010) os sintomas da malária são: febre, calafrios, sudorese, náusea, dores nas juntas, mialgia, dores de cabeça e vômitos frequentes. O diagnóstico clínico da malária segundo as agências de saúde não é considerado preciso pela inespecificidade dos sinais e os sintomas podem ser semelhantes para a dengue, febre amarela, leptospirose, febre tifóide e muitas outras.
Os sintomas da malária citados pelos informantes estão todos de acordo com os sintomas citados pelas agências de saúde e são ainda mais específicos. Não pareceu haver dúvidas entre os indígenas quanto ao disgnóstico de malária quando da aparição dos sintomas. Quando questionados sobre a presença dos sintomas de malária descritos por eles e o resultado dos exames laboratoriais, todos afirmaram resultado positivo nos exames para a malária.
Mas, segundo os participantes, nos primeiros dias de aparição dos sintomas a doença pode ser confundida com uma gripe forte, pois os sintomas são os mesmos, mas logo depois de 2 ou 3 dias a febre muito forte e intermitente, assim como outros sintomas específicos confirmariam o diagnóstico. Esse fato pode explicar o resultado do gráfico apresentado pelo Ministério da Saúde em 2014 (Fig. 9, página 33) que afirma que em São Gabriel da Cachoeira a procura por atendimento médico se dá em sua maioria 49 h depois do início dos primeiros sintomas.
Segundo os informantes falantes de Tukano a palavra nesta língua que define a malária seria Wuhaké, essa palavra é uma palavra geral e pode também designar mal estar causado por outras doenças, como a gripe por exemplo. Mas logo após um ou dois dias percebe-se que é Wuhaké de malária.
Para Milliken (1997) a identificação precisa da malária (no contexto geral de febres) pela população local é algo que varia substancialmente a partir de um grupo para o outro, de acordo com o tempo que eles foram expostos à doença.
Mas as informações obtidas nesta pesquisa confirmam a boa percepção dos indígenas sobre os sintomas da doença e a sua distinção dos outros tipos de febre.