Organograma 1 – Serviços FASC
5.3 CONDIÇÕES DE VIDA NA RUA, ESTRATÉGIAS DE SOBREVIVÊNCIA E
5.3.2 Estratégias de sobrevivência
5.3.2.2 Sistema Único de Assistência Social (SUAS)
O SUAS é um novo sistema que organiza os serviços, programas e benefícios nacionalmente. Ele foi a principal deliberação da IV Conferência Nacional de Assistência Social em 2003, surgiu após décadas de debates e colocou em prática os preceitos da CF, que integra a assistência à Seguridade Social, juntamente com Saúde e Previdência Social. Traz importantes diretrizes definidas, como: o pensamento coletivo; uma nova lógica de organização das ações, onde deve haver a definição de competências dos entes federados, por tipo de
proteção a família e ao indivíduo; que tais proteções tivessem níveis de complexidade, com um olhar mais específico para o território, considerando regiões e portes dos municípios; forma de operacionalização da LOAS, que viabiliza o sistema descentralizado e participativo e a regulação, em todo o território nacional (SILVA,2010).
É um sistema unificado e hierarquizado, porém particularizado de assistência social. Também é organizado em níveis de complexidade de atendimento por meio de programas, projetos, serviços e benefícios e vem sendo definido, construído, organizado em processo contínuo de categorização, conceituação e especificação (BRASIL, 2004). Seu modelo de gestão é descentralizado e participativo. O SUAS regula e organiza as ações socioassistenciais em todo o Brasil. O foco prioritário é a atenção às famílias, seus membros e indivíduos; pressupõe a gestão compartilhada e cofinanciada pelas três esferas de governo, com definições objetivas das competências de cada uma, também conta com a participação e a mobilização da sociedade civil, que têm papel efetivo na sua implantação e implementação (BRASIL, 2009).
Portanto, o SUAS é um sistema articulador e provedor de ações em diferentes níveis de complexidade, sendo elas: Proteção Social Básica e Proteção Social Especial. Opera numa estrutura de política pública de Estado que prevê uma organização participativa e descentralizada da assistência social, com ações voltadas para o fortalecimento da família. O sistema altera fundamentalmente operações como o repasse de recursos federais para estados, municípios e Distrito Federal, a prestação de contas e a maneira como serviços e municípios estão hoje organizados (SILVA,2010).
A maioria das pessoas idosas em situação de rua entrevistadas utilizavam os equipamentos de acolhimento de alta complexidade da Política de Assistência Social do SUAS. Notam-se diferenças na qualidade de vida dessas pessoas, pois aquelas acolhidas nos equipamentos que suprem mais necessidades humanas básicas estão mais bem assistidas, como pode ser visto nos relatos abaixo:
Se eu estivesse em situação de rua, minha qualidade de vida seria horrível, intranquila, uma droga e temerária. Aqui estou bem melhor, tenho médico e também comida. (Homem, 61 anos, Casa Lar do idoso, entrevista realizada no dia 25 de abril de 2016). Agora tenho saúde, alimentação e um lugar para morar, é uma qualidade de vida boa. Tenho um salário também, um benefício [...] e aqui, não paga nada, tem casa, comida, refeição[...] se eu estivesse na rua, a minha qualidade de vida seria péssima, passando fome e frio. Aqui eu recebo refeição, cama para dormir, roupa lavada e remédio. (Homem, 70 anos, Casa Lar do idoso, entrevista realizada no dia 25 de abril de 2016). As pessoas idosas em situação de rua acolhidas na Casa Lar apresentam relatos positivos de qualidade de vida, agora que são usuárias desse equipamento e têm suas necessidades
humanas básicas supridas. Porém, a Casa Lar do idoso determina o tempo de permanência de acordo com o Plano de acompanhamento. A equipe deverá investir na vinculação familiar e/ou comunitária; quando esgotadas essas possibilidades, deve-se avaliar o encaminhamento do idoso para uma instituição de longa permanência, logo, a Casa Lar não é um local de moradia definitivo.
Por outro lado, os demais equipamentos de acolhida não oferecem atendimento integral com suprimento de todas as necessidades humanas básicas. Um exemplo disso são os albergues, que oferecem uma refeição e um pernoite (local coberto para dormir com equipamentos básicos como cama, travesseiro e cobertor); as pessoas idosas em situação de rua precisam sair do local durante o dia, sem ter para onde ir e também sem garantias de pouso para a próxima noite.
A narrativa abaixo demonstra que embora esse equipamento de acolhimento seja uma importante alternativa de pernoite para os usuários, ele não provê o suprimento integral de suas necessidades básicas, interferindo assim na qualidade de vida dessas pessoas.
Não tenho qualidade de vida porque estou na rua doente. Teria se eu tivesse uma casinha. (Mulher, 80 anos, albergue, entrevista realizada no dia 7 de maio de 2016). Na descrição, essa senhora idosa declara não ter qualidade de vida devido a estar em situação de rua e doente. Fato que demonstra que, embora desfrute do serviço do albergue, este não contempla todas as suas necessidades. Por outro lado, é possível perceber que algumas dessas pessoas idosas, a partir do momento que passam a frequentar os albergues, deixam de se considerar em situação de rua, diferentemente desse caso.
Outro ponto importante a ser abordado é que, mesmo usufruindo dos equipamentos e que eles auxiliem na qualidade de vida destes sujeitos, ainda assim existem inúmeros desafios a serem supridos, dentre eles, as relações dos usuários com as inúmeras regras dos equipamentos. A fim de clarear esse entendimento, exemplificamos com as seguintes falas:
A gente tem horário para chegar, se não tem que dormir na rua. (Mulher, 61 anos, abrigo, entrevista no dia 9 de setembro de 2015).
[..] aqui às dez horas da noite apaga tudo, e a gente tem que dormir, seis e meia da manhã não vou acordar na minha casa pra tomar café, vou acordar a hora que eu quiser, não vou jantar às sete e quinze da noite. (Mulher, 61 anos, abrigo, entrevista no dia 9 de setembro de 2015).
[...] de primeira a gente não podia nem ir ali comprar uma carteira de cigarro porque daí tinha que ficar na rua. (Mulher, 61 anos, Abrigo, entrevista no dia 9 de setembro de 2015).
Esses discursos referem-se aos regramentos dos equipamentos de acolhimento, motivos pelo qual, algumas vezes, eles não são acessados pelos usuários. Por isso, fazem-se importantes as pesquisas e estudos na área, afim de adaptar os serviços oferecidos para a realidade dos usuários. Uma das dificuldades com relação a ter que dormir às 22 horas e acordar às 6 horas é o relógio biológico. Como o albergue não garante vagas para pernoite de todas as pessoas em situação de rua, quando elas passam a noite na rua, não podem dormir por medidas de segurança; dessa forma, seu relógio biológico está acostumado a dormir durante o dia e acordar durante a noite.
O primeiro relato refere-se ao regramento que exige horário para chegar no albergue ou abrigo. Ao pensar sob a ótica da pessoa que está em situação de rua, a contagem do tempo ocorre diferentemente das demais pessoas, pois o tempo dela é calculado até suprir a próxima necessidade, que pode ser de alimentação, de agasalho, de higiene ou de evacuação, dentre tantas outras. Dessa forma, como exigir que siga o tempo cronometrado por relógios, aos quais não tem acesso e que, numa escala de necessidades fundamentais, seria um dos últimos itens a serem acessados?
O último relato demonstra também a noção de espaço e enclausuramento. Na lógica da pessoa em situação de rua, o espaço é a rua, ampla e aberta, diferentemente da lógica de outras pessoas que estão acostumadas com paredes e lugares pequenos; por isso, algumas pessoas nessa situação apresentam fobias em locais pequenos e fechados. Além disso, há restrição de sua liberdade de ir e vir, como no exemplo, “apenas para comprar uma carteira de cigarro”. Assim, para usar o equipamento, precisam abrir mão desse direito de liberdade.
Existem inúmeros regramentos que desafiam os serviços a adequarem-se a partir da ótica da pessoa em situação de rua. Uma reclamação de regramento das unidades acolhedoras comum entre as pessoas é a impossibilidade de guardar seus pertences (tudo que possuem) no albergue ou no abrigo; assim, deixam de acessá-lo para não se desfazer de suas coisas materiais. Outro ponto negativo apresentado como motivador de negação para usufruir de equipamentos de acolhimento é a insegurança. O relato a seguir exemplifica a situação de vulnerabilidade e risco, com violação de direitos por ficarem sujeitos a roubos dentro da própria instituição acolhedora:
Aqui eu não me sinto seguro em nada. Já me roubaram celular, o meu dinheiro está enrolado e eu deitado em cima, e do meu celular. Porque se eu ir no banheiro e quando voltar eu não acho mais, é péssimo. (Homem, 65 anos, abrigo, entrevista no dia 30 de outubro de 2015)
Garantir a segurança do usuário, diminuir ou adaptar os regramentos das instituições acolhedoras para a cultura e realidade dos usuários é um desafio a ser pensado conjuntamente entre eles, gestores e profissionais. Oferecer um equipamento de acolhimento sem segurança, expondo-os a riscos e violências, não é a melhor opção de condição de vida caso não usufruam de seus direitos fundamentais. Por isso é importante desestigmatizar a ideia de negação do usuário com o equipamento e compreender o que o leva a tomar essa atitude.
Pode-se destacar como ponto positivo em Porto Alegre a criação de um albergue com canis, possibilitando o pernoite da pessoa em situação de rua com seu animal de estimação. Este era um dos mais importantes motivos de negação do uso dos equipamentos: abandonar seu animal de estimação para pernoitar no albergue ou ficar no abrigo, fato que interferia no vínculo de afeto já fragilizado diante de tantas perdas.
Os serviços socioassistenciais no SUAS são organizados segundo a vigilância social, proteção social, defesa social e institucional. Acolhe pessoas com redução da capacidade pessoal, com deficiência ou em abandono; crianças e adultos vítimas de formas de exploração, de violência e de ameaças; vítimas de preconceito por etnia, gênero e orientação sexual; vítimas de apartação social que lhes impossibilite sua autonomia e integridade, fragilizando sua existência; vigia os padrões de serviços de assistência social, em especial aqueles que operam na forma de albergues, abrigos, residências, semirresidências, moradias provisórias para os diversos segmentos etários. Os indicadores a serem construídos devem mensurar no território as situações de riscos sociais e violação de direitos (BRASIL, 2009).
O SUAS é organizado respeitando os quesitos de matricialidade sociofamiliar; descentralização político-administrativa e territorialização; novas bases para relação entre Estado e sociedade civil; financiamento pelas três esferas de governo, com divisão de responsabilidades; controle social; participação popular/cidadão usuário; política de recursos humanos e informação, monitoramento e avaliação (SILVA, 2010).
Quadro 7 – Comparativo COM e SEM o SUAS
ANTES DO SUAS COM O SUAS
Direito do Estado;
Insuficiente regulação no campo da Assistência Social e dos serviços, programas e projetos planejados e executados de forma fragmentada, segmentada e focalizada no indivíduo;
Inexistência de uma referência de atendimento para as famílias;
Desarticulação dos serviços com os benefícios socioassistenciais e com políticas setoriais;
Esvaziamento de legitimidade;
Indefinição de atribuições e competências dos três níveis do governo;
Cofinanciamento de programas e serviços decididos no âmbito do governo federal especificamente;
Ausência de processos continuados de capacitação e de política de RH
Dever do Estado;
Norma Operacional, portarias, resoluções, guias e manuais entre outros instrumentos que estabelecem o marco regulatório inicial do SUAS Ex.: NOB SUAS, NOB RH;
Organização dos serviços continuados e por níveis de proteção social;
A PNAS/2004 estabelece duas referências para o atendimento das famílias e indivíduos;
Nova lógica de financiamento; Articulação dos serviços e benefícios; Fortalecimento das instâncias no processo decisório e no reordenamento da rede sócio assistencial;
Normatização pactuada entre gestores; Respeito e autonomia dos municípios; Eixo da PNAS/2004 e matéria da NOB RH
Fonte: Mattos (2017).
O SUAS trouxe alguns impactos para o serviço. Dentre eles, podem-se destacar a maior racionalidade e transparência nos gastos, a ampliação da efetividade das ações, a melhoria na avaliação dos resultados da Assistência Social, o respeito ao pacto federativo e a consolidação da política de Assistência Social como Política Pública de Estado (OLIVEIRA, 2017).