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Sistema Adaptativo Complexo

No documento Maria Paula Salvador Wadt (páginas 85-89)

1.2 Teoria da Complexidade

1.2.4 Sistema Adaptativo Complexo

Podemos nos referir a um curso on-line usando apenas uma palavra: “curso”. Isso indica que ali existe uma unidade. Essa unidade é vista, nesta pesquisa, como um sistema adaptativo complexo completamente constituído por linguagem.

Sistemas adaptativos complexos envolvem problemas de otimização dificultados por complexidade substancial e incerteza. A adaptação é um processo que envolve uma modificação progressiva das estruturas do sistema, derivada por interações entre um grande número de agentes individuais, sendo que as estruturas são descritas por comportamentos determinados por uma coleção de regras que cada agente pode ter. Sucessivas modificações estruturais revelam um padrão de modificadores (ou operadores) e a ação repetida desses operadores encaminha para sequências de modificações, atuando em estruturas e determinando quais estruturas serão produzidas em resposta ao ambiente, de forma a manter a eficiência do sistema. (HOLLAND, 1992/1995, p. 3 / HOLLAND, 1995, p. 7-9)

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Assim, segundo Holland (1995, p. 10), sistemas adaptativos complexos são sistemas compostos de agentes interativos descritos em termos de regras. Esses agentes adaptam-se mudando suas regras com o acúmulo de experiências. Em sistemas adaptativos complexos, a maior parte do ambiente de cada agente adaptativo consiste de outros agentes adaptativos, de forma que parte de qualquer esforço de adaptação do agente é gasto adaptando-se a outros agentes adaptativos. Essa característica é a maior fonte dos padrões temporais complexos que o sistema gera, entendida por padrões em constante modificação.

Para entender os padrões em constante modificação, Holland (1995, p. 10-34) desenvolveu uma teoria composta de quatro propriedades e três mecanismos que são comuns a todos os sistemas adaptativos complexos, que ele denomina como as “sete bases”, considerando que outros elementos podem ser derivados da combinação destes sete elementos básicos. São eles:

x Agregação (Propriedade) – propriedade dividida em dois sentidos: 1. categorização de semelhantes para tratá-los como equivalentes, e 2. a emergência de comportamentos complexos em larga escala, partindo das interações agregadas de agentes menos complexos;

x Não linearidade (Propriedade) – propriedade que demonstra que o sistema não é somente a soma ou média dos agregados, mas o produto desses agregados, que é sempre maior do que sua soma; x Fluxos (Propriedade) – propriedade entendida como padrões que

refletem adaptações em mudança, na medida em que o tempo decorre e a experiência se acumula. São os nós e as ligações que designam as interações possíveis. Variam ao longo do tempo e podem surgir ou desaparecer na medida em que os agentes se adaptam;

x Diversidade (Propriedsxade) – propriedade relativa ao produto de adaptações progressivas, que surge pelo processo de reciclagem crescente. É um padrão de evolução dinâmico, persistente e coerente,

que depende do contexto fornecido pelos outros agentes. Quando um tipo de agente do sistema é retirado, cria-se uma lacuna e o sistema responde com uma cadeia de adaptações que resultam num novo agente que preenche esta lacuna. O novo agente ocupa o mesmo nicho deixado pelo agente retirado e fornece a maioria das interações perdidas;

x Marcas (Mecanismo) – um mecanismo de distinção que facilita a formação de agregados, a manipulação de simetrias e a delimitação de fronteiras, facilitando a interação seletiva;

x Modelos internos (Mecanismo) – um mecanismo de antecipação e predição ou esquemas, relacionado a modelos de interesses interiores ao agente no qual o agente deve selecionar padrões dentre os dados que recebe e convertê-los em alterações de sua estrutura interna. Assim, as mudanças na estrutura (ou o modelo) capacitam o agente a antecipar as consequências que se seguem quando o mesmo padrão (ou similar) é encontrado novamente; e

x Blocos constituintes (Mecanismo) – um mecanismo relacionado à geração de modelos internos. Refere-se à capacidade dos seres humanos de decomporem uma cena complexa em partes, que podem ser usadas e reutilisadas numa grande variedade de combinações, como um conjunto de blocos de montar de criança. Ao decomporem uma cena, procuram elementos já experimentados, para reutilização. Sistemas adaptativos complexos “exibem coerência sob mudança, via ação condicional e antecipação, e o fazem sem direção central. Ao mesmo tempo, [...] têm pontos de apoio, nos quais pequenas quantidades de entrada produzem mudanças grandes e direcionadas” (HOLLAND, 1995; 38-39). Essas características, completamente pertinentes a cursos on-line, direcionam meu olhar para a caracterização do curso como sendo um sistema adaptativo complexo. Ainda, de acordo com Oliveira-e-Paiva e Nascimento (2006, p. 178), “uma das características do sistema complexo é a sua capacidade de constante

auto-organização”, que nos remete a uma visão que se articula com as teorias usadas para a análise deste trabalho.

As interações e as evoluções de cada sistema são únicas devido ao fato de que dependem dos agentes envolvidos e suas extensivas interações, da agregação dos diversos elementos, do ambiente em que se encontram, das emergências e das adaptações. Consequentemente, os elementos presentes em cada sistema e sua rede de interações não podem ser repetidos de forma idêntica em outro sistema, apontando para uma particularização de cada momento e de cada sistema. Neste sentido, podemos dizer que cada curso é único e particular. No entanto, embora sistemas complexos diferem em detalhes, a coerência e persistência de cada sistema em face às mudanças é um enigma central para cada sistema. Este fator comum entre os sistemas adaptativos complexos sinaliza que há princípios gerais que regem os comportamentos de sistemas adaptativos complexos.

Em cursos on-line, da mesma forma, há parâmetros e princípios orientadores que podem ser abstraídos e que nos dão a possibilidade de adotar um determinado nível de generalização, o que irá permitir que os resultados alcançados nesta pesquisa possam ser aplicados em qualquer curso on-line. Meu objetivo nesta pesquisa somente será aplicado ou poderá ser realizado se forem extraídos princípios gerais e, consequentemente, se for adotado algum nível de generalização. A teoria do sistema adaptativo complexo nos ilumina no sentido de transpor este obstáculo. Segundo Holland (1992/1995, p. 3), conhecendo as condições nas quais novas adaptações surgem em ambientes complexos, podemos entender melhor os processos nos quais um sistema inicialmente não-organizado adquiriu auto-controle. A partir daí, emerge a possibilidade de sugerirmos procedimentos que apontam para ações adquiridas em um grupo de circunstâncias que podem ser transferidas para novas circunstâncias, indo além de comparações casuais, o que encoraja a generalização.

Uma contribuição específica que a visão do curso como sendo um sistema adaptativo complexo pode dar é a compreensão de que é possível delinear características comuns entre cursos on-line e estas características podem ser consideradas pontos de apoio para o professor, auxiliando-o em sua ação docente.

Segundo Holland (1995, p. 168-169), dado o fato de que o desdobramento do desenvolvimento de um sistema complexo é uma trajetória por um espaço de múltiplas possibilidades, precisamos conhecer alguma coisa relacionada à forma desta trajetória, a fim de que possamos entender o processo do sistema ao longo de seu caminho. É impossível prever detalhes desta trajetória, mas certamente está longe de ser um caminho randômico, considerando que o sistema adaptativo complexo exibe regularidades e há como encontrarmos dicas de como a rede se desenvolve.

No documento Maria Paula Salvador Wadt (páginas 85-89)