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Duas linhas de pensamento buscam explicar como funciona uma cadeia produtiva, bem como, sua eficiência econômica: o conceito de “commodity system approach” e o conceito de “análise de filière”.

35 O conceito de commodity system approach12 originou-se na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, baseado nos estudos de Davis e Goldberg sobre o sistema agroindustrial da soja, trigo e laranja nos Estados Unidos, apresentados em 1957 no trabalho “A concept of agribusiness”, onde os pesquisadores apresentaram o conceito de agronegócio:

“a soma total das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas, das operações de produção nas unidades agrícolas, do armazenamento, processamento e distribuição dos produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles” (DAVIS e GOLDBERG, 1957).

Já o conceito de análise de filière 13 surgiu na década de 60 na Escola de Economia Industrial Francesa, com base nos estudos de organização industrial. Foi um conceito desenvolvido para estudar o complexo agroindustrial, sendo traduzido então para o setor como Cadeia de Produção Agroindustrial (CPA). Aqui, é defendida a ideia de que a produção agrícola ocorre numa sequência lógica de produção, em cada segmento, para atender as necessidades dos consumidores.

Porém, nessas duas vertentes de estudos, apesar de ambas terem surgido em lugares distintos, o conceito de Cadeia Produtiva14 apresenta semelhanças quando se refere à agricultura. Ambas conceituam que se deve ter uma visão sistêmica da atividade agrícola, e não considerar as etapas de produção e fornecimento de insumos; de produção da matéria prima; de processamento industrial; e de comercialização desses produtos processados, isoladamente.

12 Cadeia de Produção Industrial (CPA)

13 Traduzido no Brasil para Cadeia de Produção (CP)

14 Cadeia Produtiva entende-se como: “... o conjunto de componentes interativos, que compreende desde os fornecedores de serviços e insumos; os sistemas produtivos agropecuários e agroflorestais; o processamento e a transformação; a distribuição e a comercialização, até os consumidores finais de produtos e subprodutos” (FIGUEIREDO e PRESCOTT, 2004, p.15).

36 Daí a importância de uma visão sistêmica sobre todo o processo produtivo e dos componentes que geram o produto final. Ao se estudar uma cadeia produtiva deve-se levar em consideração todo o trajeto percorrido pelos produtos em cada segmento, desde o produtor até o consumidor final. De acordo com Zylbersztajn (2003, p.15) no passado pensava-se o agronegócio de modo segmentado, considerando-se os setores de insumos, agropecuário, industrial, de distribuição, como entidades autônomas e conflituosas. Hoje, pensa-se em relação interdependente, com conflito e cooperação convivendo e sendo gerenciados.

Ao se utilizar o conceito de SAG para se estudar uma cadeia produtiva, considera-se também o ambiente organizacional e o ambiente institucional que o norteiam e que influenciam na produção e comercialização desses produtos:

Ambiente organizacional

Integrado por um conjunto de organizações, públicas e privadas, que apoiam o funcionamento de uma cadeia, sobre todos os grupos de atores das cadeias produtivas (LIMA et al., 2001) apud MEDEIROS e BRISOLA (2009, p. 14). Tais organizações não participam diretamente dos propósitos transacionais da cadeia, mas interferem em seu funcionamento. As empresas que participam desse ambiente são organizações de crédito, assistência técnica, extensão rural, serviços de informação, ciência e tecnologia, centros de ensino e pesquisa, etc.

Ambiente institucional

Representado por um conjunto de normas, leis, regras, costumes que influencia ou determina os princípios de funcionamento dos fluxos da cadeia de produção, e da mesma

37 forma, tradições e costumes próprios de uma determinada cultura sugerem o direcionamento e amplitude dos fluxos de materiais, capital e informação da cadeia (MEDEIROS e BRISOLA, 2009).

Os custos das transações podem ser afetados pelo ambiente institucional. Políticas comerciais podem reduzir custos de transação quando abrem a possibilidade de suprimento global. Ao longo de um sistema agroindustrial, é de se esperar características técnicas e organizacionais muito distintas entre os segmentos, tanto no tocante aos padrões de concorrência e diferenciação do produto quanto no que tange a barreiras à entrada e à mobilidade. Barreiras à entrada e mobilidade constituem características do ambiente competitivo que influenciam o desempenho das firmas (FARINA, 2000, p. 56).

A estratégia é posicionar a empresa de modo que ela seja capaz de melhor se defender contra forças que ameaçam sua condição e rentabilidade (PORTER,1979, p. 29). Para o autor, novos entrantes trazem novas capacidades e o desejo de ganhar participação no mercado. Com isso, conhecer essas ameaças torna-se a melhor estratégia de defesa, pois a intensidade da ameaça irá depender da expectativa do entrante em relação às barreiras existentes e à reação dos concorrentes. E, nesse sentido, algumas barreiras à entrada para as novas firmas são apresentadas:

a) Economia de escala: a escala de produção mostra-se como uma importante barreira à entrada. Para ingressar no mercado o novo entrante terá que apresentar como estratégia, uma grande escala de produção, e/ou de distribuição, ou aceitar a desvantagem de custo. Escala de produção de ovinos e caprinos para os produtores,

38 bem como de animais para abate para a agroindústria, mostram-se como importantes fatores de concorrência frente a novos competidores.

b) Diferenciação de produto: a identificação com a marca cria barreiras que ameaçam os entrantes a vultosos investimentos para superar a lealdade dos consumidores. A propaganda, os serviços aos clientes, o pioneirismo no setor e as peculiaridades do produto estão entre os principais fatores que fomentam a identificação com a marca.

c) Exigência de capital: a necessidade de investir vultosos recursos financeiros (nas instalações físicas, no crédito aos clientes, nos estoques, na absorção dos prejuízos iniciais) como requisito para a competição também representa uma barreira de entrada, sobretudo se o capital se destinar a despesas irrecuperáveis em propaganda de lançamento ou em pesquisa e desenvolvimento (P&D).

d) Desvantagem de custo, independente do tamanho: as empresas estabelecidas talvez desfrutem de vantagens de custo não disponíveis para os rivais em potencial, independente do porte e das possíveis economias de escala.

e) Acesso a canais de distribuição: manter os canais de distribuição de seus produtos ou serviços, de modo a evitar a entrada de novos produtos mostra-se como uma importante barreira de entrada. Quanto mais limitados os canais atacadistas ou varejistas e quanto maior o grau de ocupação com os atuais concorrentes, mais difícil será a entrada no setor.

39 f) Política governamental: o governo é capaz de limitar e até mesmo bloquear a entrada em certos setores, através do controles e exigência da qualidade sanitária.