Capítulo 4 – Exercício Físico
3. Sistema Cardiovascular
Estrutura e função: músculo cardíaco e vasos sanguíneos
Todas as células de nosso corpo necessitam de oxigênio e nutrientes essenciais para viver. O papel do sistema cardiovascular é manter a perfusão tecidual, garantindo que o sangue arterial rico em oxigênio e nutrientes chegue a todas as células que compõe o nosso organismo, removendo também da intimidade das células o gás carbônico e produtos nitrogenados produzidos pelo metabolismo celular. A pressão necessária para que o sangue circule é gerada pela atividade cardíaca e o fluxo sanguíneo é conduzido pela aorta, artérias e arteríolas até os capilares, vasos extremamente finos onde as trocas se realizam. Dos capilares o sangue, com menor teor de oxigênio e maior teor de gás carbônico após a troca com o líquido intersticial, retorna ao coração pelas vênulas e veias. Esta é a circulação sistêmica. Do coração o sangue venoso é direcionado à circulação pulmonar, ou seja, aos pulmões e capilares pulmonares, onde volta a ser oxigenado e libera o gás carbônico ao ar ambiente. O sangue arterial retorna ao ventrículo esquerdo, reiniciando o processo. O sangue flui continuamente pelo sistema circulatório através da atividade conjunta do coração (a "bomba propulsora" que gera a pressão sanguínea), dos vasos arteriais (que oferecem resistência à circulação do sangue e proporcionam distribuição adequada do sangue aos diferentes territórios) e dos vasos venosos (que funcionam como um reservatório de sangue).
Hemodinâmica da circulação
A diferença de pressão entre os diferentes compartimentos do sistema circulatório mantém o sangue circulando no organismo. A pressão é gerada na raiz da aorta pela atividade cíclica do coração, que engloba 2 fases: a diástole ou relaxamento das câmaras cardíacas durante a qual ocorre o enchimento do coração, e, a sístole ou contração, que se presta ao esvaziamento das câmaras cardíacas. Portanto, o ventrículo esquerdo ao se contrair ejeta um volume de sangue na aorta. As paredes da aorta são como bandas elásticas que se esticam durante a ejeção do sangue (sístole), armazenando parte da energia cinética gerada pelo coração e, ao se relaxarem durante a diástole, retornam a energia armazenada à circulação, garantindo um gradiente de pressão durante todo o ciclo cardíaco. Este efeito, associado à resistência oferecida pelas artérias de menor calibre (arteríolas) que evitam a saída instantânea do sangue do leito arterial durante a sístole, garantem a perfusão dos capilares também durante a diástole. Há também ao nível das arteríolas, queda acentuada dos níveis de pressão arterial, a qual continua caindo de forma mais gradual durante o trajeto pelos capilares, vênulas e veias.
Os mecanismos de controle da pressão arterial são:
Controle miogênico: Variações compensatórias do calibre dos vasos ocorrem em resposta a variações instantâneas de fluxo e pressão, deforma a manter constante o fluxo sanguíneo. Aumento da velocidade de fluxo causa maior atrito entre as camadas de sangue em movimento e o endotélio vascular, aumentando o estresse (ou tensão) de cisalhamento, o qual determina a secreção de NO, um importante vasodilatador da ação local.
por variações para mais e para menos dos níveis de pressão) que desencadeiam mecanismos neurais, os quais determinam respostas reflexas que trazem de volta a pressão a seu nível controle, mantendo-o dentro de uma estreita faixa de variação. Controle renal: é um mecanismo de ação mais em longo prazo que regula o volume sanguíneo (volemia) por meio de retenção ou eliminação de sais e água através de mecanismos renais.
Controle hormonal: é um importante coadjuvante do controle da pressão arterial, que engloba a ação de vários hormônios como a angiotensina II, a aldosterona e a vasopressina. A angiotensina II tem ação vasoconstritora e trófica, aumentando a resistência oferecida à circulação do sangue e consequentemente a pressão arterial. Por sua vez a vasopressina age nos dutos coletores renais aumentando a reabsorção de água, enquanto que a aldosterona age nos túbulos renais aumentando a reabsorção ativa de sódio (e água passivamente). Estes efeitos contribuem de forma importante para a manutenção da volemia.
Adaptações ao exercício físico aeróbico
Durante o exercício físico há aumento da perfusão dos tecidos em atividade desencadeada pela maior necessidade de oxigenação dos músculos devido à sua alta atividade metabólica. Desta forma ajustes funcionais e anatômicos são necessários para propiciar condições adequadas para a manutenção do exercício. Entre os ajustes instantâneos ao exercício, citam-se o aumento da frequência (FC) e volume sistólico de ejeção (VS, determinado pela maior contratilidade cardíaca) que aumentam o débito cardíaco (DC = FC x VS), e, a redistribuição do fluxo sanguíneo: há intensa vasodilatação muscular esquelética aumentando o fluxo sanguíneo para os músculos em atividade, acompanhada de vasoconstrição nos órgãos menos ativos (rins e trato gastrointestinal), o que reduz o fluxo local desviando-o para regiões mais ativas, como observado nas figuras 5 a (em repouso) e b (durante o exercício).
Entre os efeitos a longo-prazo do exercício repetitivo (treinamento aeróbio), pode-se dizer que a prática de exercício aeróbio possui efeitos preventivos e terapêuticos. Preventivo, pois diminui os efeitos que acomete todos durante o envelhecimento, o EF evita:
● a diminuição dos miócitos cardíacos e a resposta contrátil a agentes como adrenalina e noradrenalina, o que poderia levar a uma diminuição da força de contração;
● aumento da fibrose intersticial, o que comprometeria o relaxamento;
● o aumento da rigidez arterial, pois com o envelhecimento há aumento de colágeno, o que levaria a um aumento do pulso de pressão;
● rarefação capilar nos tecidos exercitados;
● a diminuição dos músculos esqueléticos e a disfunção valvular, melhorando o retorno venoso;
● o aumento do estresse oxidativo, o que levaria a lesão de vasos.
Citam-se também a bradicardia de repouso, a hipertrofia excêntrica do ventrículo esquerdo, aumentando a capacidade cardíaca e, consequentemente o volume de ejeção, e a neoformação de vênulas de pequeno calibre, as quais aumentam a condutância da circulação, facilitando a oxigenação e a remoção de produtos do metabolismo celular de tecidos ativos. Há também aumento da diferença arteriovenosa de oxigênio (diminuição do conteúdo de oxigênio venoso), refletindo a extensão da maior remoção do oxigênio do sangue pelos tecidos em atividade.
Outra vantagem da implementação da prática de exercício ao cotidiano é a sua eficácia terapêutica, pois se sabe que o EF melhora a qualidade de vida de indivíduos hipertensos, diabéticos, insuficientes cardíacos, os quais também possuem a atividade simpática aumentada e parassimpática diminuída, assim o EF é eficaz em melhorar os pontos já citados, assim como diminui o desequilíbrio neurovegetativo.
Portanto, o exercício é um potente método profilático e terapêutico não farmacológico, de fácil acesso a toda população o qual melhora a qualidade de vida, pois em casos dos grupos de risco já citados, há diminuição de danos aos órgãos alvo (rins, coração, encéfalo, vasos) o que leva uma queda da mortalidade e diminuindo os custos ao paciente e a instituições de saúde.