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2 Sistemas de informação em saúde no Brasil

2.1 Sistemas oficiais de informação em saúde com dados sobre tentativas e suicídio por intoxicações exógenas

2.1.4 Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM)

O Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) foi criado pelo Ministério da Saúde em 1975 para a obtenção regular de dados sobre mortalidade no país. E desde 2003, o órgão gestor passou a ser a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), através do Decreto nº 476/2003.

O sistema oferece aos gestores de saúde, pesquisadores e entidades da sociedade informações da maior relevância para a definição de prioridades nos programas de prevenção e controle de doenças, a partir das declarações de óbito coletadas pelas Secretarias Estaduais de Saúde, em cooperação com o DATASUS (MELLO JORGE, LAURENTI, GOTLIEB, 2009).

A operacionalização do sistema é composta pelo preenchimento e coleta do documento padrão - a Declaração de Óbito (DO), sendo este o documento de entrada do sistema nos estados e municípios. Estes dados são importantes para a vigilância sanitária e análise epidemiológica.

As DO são coletadas pelas secretarias municipais ou estaduais de saúde das unidades de saúde e cartórios. As declarações são então codificadas e transcritas para um sistema informatizado e remetidas à Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde. É a SVS que consolida e disponibiliza os dados para o DATASUS (SENNA, 2009). A coleta de dados, fluxo e periodicidade de envio dessas informações sobre óbitos para o SIM são regulamentadas pela Portaria MS/Funasa Nº 474, de 31 de agosto de 2000. Vale ressaltar que no caso de óbito por causas externas (homicídios, suicídios, acidentes, mortes suspeitas) em localidade com IML, o médico legista deverá emitir a DO independente do tempo entre o evento violento e a morte propriamente. Caso não exista o IML, o preenchimento poderá ser efetuado por qualquer médico da localidade, investido pela autoridade judicial ou policial, na função de perito legista eventual (ad hoc) (BRASIL, 2009a).

Quadro 6. Fluxos do Sistema de Informações sobre Mortalidade. Fluxos da informação sobre óbitos8,9

Óbitos hospitalares Óbitos por causas naturais em localidades sem médico

8

Fluxos para óbitos hospitalares e por causas naturais foram retirados do texto A experiência brasileira em sistemas de informação em saúde (BRASIL, 2009b, p. 99 e 100).

9 Fluxo para óbitos por causas externas foram adaptados do Manual de Instruções para o

Óbito por causa acidental e/ou violenta ocorrido em localidade com Instituto Médico Legal10 (IML) (Art. 25 da Portaria nº 116 MS/SVS de 11/02/2009):

10

No caso de óbito por causa acidental e/ou violenta ocorrido em localidade sem IML, a DO deverá ser preenchida pelo médico da localidade ou outro profissional investido pela autoridade judicial ou policial na função de perito legista eventual (ad hoc) (Art. 26 da Portaria nº 116 MS/SVS de 11/02/2009).

O presente projeto foi desenvolvido a partir dos resultados do trabalho intitulado Prevalência de transtornos mentais nas tentativas de suicídio em um

hospital de emergência no Rio de Janeiro, Brasil (SANTOS et al., 2009), no

qual 70,0% dos indivíduos utilizaram a intoxicação exógena como meio para a tentativa de suicídio. Tratou-se de um estudo seccional desenvolvido com a participação da autora (em anexo).

Os resultados supracitados trouxeram a necessidade de avaliar os sistemas de informações em saúde como instrumento de vigilância do comportamento suicida devido intoxicação exógena.

Verificou-se que os processos de intoxicação humana têm se constituído em grave problema de saúde pública no Brasil devido à falta de estratégias para o controle e prevenção das intoxicações provocadas pelas mais diversas substâncias, as quais são de fácil acesso para a população.

O acesso ao meio utilizado no suicídio é um ponto-chave para trabalhar a prevenção ao suicídio e tentativas e algumas das substâncias que causam a intoxicação exógena vêm sendo apontadas como um dos principais meios. Estudos internacionais têm apresentado importante redução nas taxas de suicídio ao implementar políticas públicas para restrição ao acesso ao agrotóxico e medicamentos (GUNNELL et al., 2007; CANTOR, BAUME, 1998; JEYARATNAM, 1990). Entretanto cabe enfatizar que o assunto tentativas e suicídios possui inúmeros componentes que necessitam ser abordados, tais como a disponibilidade e acesso aos meios (ver seção 6 Artigo).

Contudo, para subsidiar políticas públicas que visem ações de prevenção ao suicídio por intoxicação exógena, torna-se necessário sistema de informação com dados fidedignos e consistentes. A qualidade dessas informações é que permitirá planejamento e criação de mecanismos eficientes e eficazes para tratamento e prevenção. Para isto, a avaliação desses sistemas é um importante aliado para a melhoria da qualidade das informações geradas. Apesar do estado do Rio de Janeiro apresentar uma taxa de suicídio (2,6 óbitos por 100 mil hab - 2006) abaixo da taxa nacional (4,6 óbitos por 100 mil hab - 2006) (DATASUS, 2009), não foi encontrado nenhum estudo que avaliasse a qualidade dos sistemas de informação do estado para obter informações sobre o comportamento suicida por intoxicação exógena.

Estudos recentes sobre tentativas de suicídio realizados no estado apresentaram resultados nos quais as intoxicações exógenas se destacaram. Werneck e colaboradores (2006) encontraram uma frequência de 52,0% de casos por ingestão de agrotóxicos e 39,0% de medicamentos. Santos et al. (2009) referiram a presença do medicamento (39,6%) e do uso de pesticidas (33,3%) como os principais meios utilizados nos casos de tentativas de suicídio atendidos em um grande hospital de emergência no município do Rio de Janeiro.

O serviço de toxicologia do IMLAP11 afirma que, no ano de 2002, ocorreram 800 casos confirmados de intoxicação no serviço, que não alimentaram nenhuma das bases de dados relacionadas às intoxicações humanas (FIOCRUZ, 2002). Assim como foi visto no quadro de revisão de literatura, que nenhum dos poucos estudos que analisaram as informações disponíveis nos sistemas de informação realizou qualquer crítica a respeito, quando muito, apresentaram a proporção dos dados ignorados.

Este contexto indica a necessidade de maior investigação sobre a contribuição dos sistemas de informação em saúde sobre as tentativas e suicídios por intoxicações exógenas no estado do Rio de Janeiro, possibilitando desenvolver orientações que aprimore esses sistemas como instrumento de vigilância dos agravos citados.